Pois bem, Miguel Cirilo é autor de um dos livros mais emblemáticos e enigmáticos da nossa poesia intitulado "Os elementos do caos". Nesse pequeno (no tamanho apenas) livro há um poema chamado "Conhecimento do morto" que é uma verdadeira obra-prima.
Eu já havia lido esse poema algumas vezes, mas foi minha tia Margarida Bittencourt, quem chamou atenção para um dos versos (ela sempre gosta de repetir o verso em eventos sociais) do poema que é simplesmente encantador para dizer o mínimo. O verso diz: "A porta é nada se ninguém me espera". Leia novamente e com calma. Releia.
A clareza do verso é momentoso. Mas também é enigmático e certamente metafórico. Aliás, se há algo precisamente metafórico é a poesia. Ela, a metáfora, "ocupa" o lugar de algo ou fala de algo que "não aparece". A idéia de metáfora na poesia é exatamente essa a de falar nas entrelinhas. A beleza poética ou padrão estético da poesia reside em muito neste sentido indireto com que o verso ou as estrofes são produzidos.
Pinçado do todo, porém, a frase "a porta é nada se ninguém me espera" se sustenta pela beleza, profundidade e polissemia que a mesma permite. É um verso aberto, incomodo, tocante e mais ainda, crítico de um mundo em que os valores humanos parecem afetados pela correria do cotidiano, como se não houvesse mais um tempo de espera, de acolhimento, de escuta.
A porta não deve estar fechada se o outro é esperado. A porta não deve estar fechada se a possibilidade do encontro remete a uma aceitação do outro, do diferente, do fazer humano, do constituir-se humano, da tolerância. A porta enquanto metáfora pode remeter ao vazio negando-se ao compartilhamento de idéias, a aposta no outro, ao amor que nada espera, mas que sabe aguardar.
O verso de Cirilo sugere um compromisso e como tal deve ser cumprido. Caso não fica subentendido a pergunta: então para que o compromisso? Se há a porta então que seja feita para a espera. A porta é o ponto de partida para a revelação do encontro, para o desejo que se realiza no encontro e não um ponto de chegada em que apenas o vazio reine.
Sem citar na integra o poema vale a pena esticar um pouco mais a partir da frase aqui pensada: "a porta é nada se ninguém me espera, sou hóspede e o chamar-te minha amada, dorme na casa do não ser que eu era, morreu quem sou, mas quem não fui resiste".
Um estudo mais aprofundado sobre a poesia de Miguel Cirilo ainda carece de um bom interprete. Como diz o mesmo no mesmo poema "amar é achar o tempo do não ser".
A história das religiões é um campo aberto e sem fim para o debate, pesquisa e principalmente polêmicas. Mas é interessante. Muito, muito interessante. Sábado último (05/05), por exemplo, pela televisão, assisti a um padre (inteligente, culto, preparado) discorrer sobre a trindade cristã, mostrando e "provando" que Deus, Jesus e o Espirito Santo eram uma só natureza em três pessoas. Ele se expressava com mais sutileza do que sintetizo.Mas o que chamou a atenção, pelo menos a minha, foi quando a apresentadora perguntou-lhe quando de fato ocorre a menção ou indicação de que Jesus era o filho de Deus. Também com grande acuidade o referido padre discorreu longamente sobre a pergunta usando como parâmetro a fé e a Bíblia.
Mas o que me tocou foi quando o mesmo, no caso o padre, citando o evangelista João, mostra que o que incomodou mesmo os judeus (Jesus era judeu, mas trouxe a mudança) foi quando Jesus publicamente passa a trata Deus por "pai" algo impensável para um judeu legitimo, religioso, algo que não vemos nem na Torá, nem no Velho Testamento.
O padre cita a famosa passagem em João quando Jesus acossado por seus detratores (judeus, naturalmente) pergunta-lhes: "por qual das minhas obras me acusam?", ao que os judeus respondem: "por nenhuma de suas obras, mas pelo fato de tratares Deus por pai".
Ora, para os judeus que iniciaram a ideia de um Deus único que criou o mundo em sete dias, que gerou Adão do barro e Eva da costela de Adão, supostamente os seus "primeiros filhos", acreditar que Deus tenha escolhido uma donzela para germinar seu filho (o terceiro?) encarnado e verdadeiro, é algo muito distante.
Ora, uma das questões de fundo que fica é: se Deus, Jesus e o Espirito Santo são uma e só natureza, logo Jesus (essa era a conclusão do nosso padre pela televisão) é o próprio Deus encarnado. E se é o próprio Deus encarnado fica difícil imaginar Jesus já "existente" na eternidade enquanto filho. Se tudo que há no universo foi obra de Deus, o "filho" ainda não encarnado também foi. Ou será que não havia o "filho" antes da encarnação?
Você claro, meu amigo leitor, pode dizer: mas Laurence, há coisas que ao homem não cabe compreender, são os mistérios e os desígnios de Deus. Pode ser. De qualquer forma lamento decepcioná-lo e estou pensando modesta e humanamente. E então eu pergunto: é proibido questionar ou mesmo perguntar coisas referentes à religião? Será que já não avançamos o bastante para não podermos humanamente se interessar por essas questões, também?
De qualquer forma penso que para o cristão, Jesus é o filho e Deus é o pai, e estão juntos e separados. O próprio Jeshua (tradução de Jesus) falou: "vou para junto de meu Pai". Bom o certo, ou "quase" certo é que após as descobertas dos Manuscritos do Mar Morto nas cavernas do Quram (Edmund Wilson um dos grandes intelectuais americanos hoje completamente esquecido estudou os Manuscritos do Mar Morto chegando a escrever um livro que indico intitulado "Os manuscritos do mar morto"), o que sobressai e ganha importância são os Essênios, uma das vertentes do judaísmo na época de Jesus, ao lado dos saduceus, fariseus e os zelotes.
Após as descobertas do Mar Morto, diversos estudiosos e exegetas do judaísmo quanto do cristianismo nascentes tentam aproximar João Batista e o próprio Jesus (os dois eram primos) dos essênios. Essa tese ganhou força com a tradução de parte dos textos essênios de Quram onde foi possível saber que os mesmos revelam práticas e terminologias consideradas exclusivas dos cristãos.
Bom, são debates e debates e pesquisas. Ainda que não mudem nada. Mas vale a pena para quem gosta.
Jacques Lacan em sua genial carreira como psicanalista ficou marcado pelos seus inúmeros aforismos que lidos isoladamente, fora do contexto em que foram ditos, parece algo sem o menor sentido. Para ser bem franco, na verdade, chegam a causar uma espécie de estranhamento no leitor, pelo inusitado das frases. Um exemplo pode ser "a mulher não existe". Como assim "a mulher não existe"? No entanto, para quem se dispõe a enfrentar o seu estilo "barroco", não há dúvida de que se pode constatar que Lacan foi um gênio a toda prova.E mais: por ter chamado o seu ensino de "Um retorno a Freud", ao leitor mais apressado ou menos avisado pode parecer mesmo que todo o seu legado parece "apenas" o de ser um fiel seguidor do pai da psicanálise. Ao contrário. Nada mais distante. Lacan tem entre outros méritos, o de saber fazer uma leitura corretíssima de Freud. Depois o rigor com que muniu a psicanálise retirando-a de um caminho errôneo que começou a ganhar corpo após a morte do médico vienense, que foi o de um buscar um "fortalecimento do eu ou adaptação do eu" ao mundo, algo completamente distante do pensamento de Freud.
Bom, mas o que de fato estou querendo neste artigo? Para quem pensou que é o de fazer uma síntese do pensamento lacaniano eu diria, nada mais distante, até porque impossível. O que pretendo é o de pensar modestamente e sem qualquer sentido maior algumas ideias sobre a relação do pensamento lacaniano com a educação. Obviamente que não há qualquer ensaio, artigo ou mesmo seminário dele que tenha abordado de forma direta o processo de educar. Aliás, o próprio Lacan de forma interessante promoveu uma separação entre o ato de educar da educação, o que já demonstra um pensador original.
Lacan jamais aceitou a idéia de que havia uma "natureza humana", o que é correto, e sim que havia uma "condição humana", o que é diferente, ou seja, para nos tornamos humanos é necessário haver condições mínimas para o acontecer "humano". A idéia "natural" de ser humano é algo estranho à teoria psicanalítica, o que implica dizer que "educar" não é algo que obedece a conceitos naturais.
Contrariando em muitas algumas das teorias da comunicação contemporânea, Lacan dizia que o ato de comunicação no sentido humano não obedece a uma lógica "unívoca" e sim que o que regula a comunicação humana é o "equívoco".
A ideia por trás do pensamento lacaniano no sentido acima é que de que se houvesse uma reprodução direta no processo de ensino e aprendizado da linguagem estaríamos dentro do universo puramente animal. Daí a tentativa de compreender que não há uma "natureza humana" e sim uma "condição humana". Logo, o equívoco, o ruído faz parte da estrutura humana, não sendo algo contingente.
Uma outra questão interessante é que Lacan não faz usa dos temos como "ensino e aprendizagem" e sim os de "ensino e transmissão". Aliás, é também interessante pensar com ele que "ser" humano é uma conquista que necessita de certas condições e que faltando pode levar a problemas na constituição do sujeito.
Por fim, para Lacan um mestre não deve aspirar a ter discípulos, porque tê-los significaria a não constituição autônoma por parte do chamado discípulos. A este cabe o esforço de romper com os ideais forjando o seu próprio caminho no mundo, e, ao fazer isto estaria promovendo não só o avanço na questão do ser humano quanto nas questões subjetivas das condições humanas.
Uma das mais brilhantes e comoventes aberturas de novelas que já foi escrita na literatura mundial ocorre no livro "Carpinteiros, levantem bem alto a cumeeira" ou, numa tradução mais livre, porém menos aproximada "Pra cima com a viga, moçada" do escritor J. D. Salinger. Vou reproduzi-la e depois você pensa sobre o que leu:"A história que Seymour leu para Franny naquela noite, à luz da lanterna, era uma de suas prediletas, um conto taoísta. Até hoje Franny jura que se lembra de Seymour lendo para ela".
Desculpe-me, mas se você não sentiu um arrepio na espinha com a leitura dessas linhas iniciais do livro mencionado fique certo que sua sensibilidade pode ser questionada. Sinceramente. Trata-se de uma, repito, das mais brilhantes aberturas de novelas.
J. D. Salinger escritor norte americano, morreu em 2010, precisamente em 27 de janeiro de 2010 e deixou uma obra escrita das mais lidas e comentadas. Sua obra prima, quase uma unanimidade, e isso dito pelos críticos e pelo público continua sendo The Catcher in the Rye (O Apanhador no Campo de Centeio) lançada em 1951. O livro aclamado pela critica se tornou de imediato, após o lançamento, um best seller, passando no dizer comum a "influenciar gerações". Vendeu mais de 60 milhões de cópias em todo o mundo.
Hoje, comparando "O apanhador no campo de centeio" com "Carpinteiros, levantem bem alto a cumeeira", minha predileção inegável é pelo último. O curioso no caso do escritor Salinger é que após o sucesso mundial de The Catcher in the Rye, o mesmo se tornou recluso, publicando de uma forma muito mais lenta, e negando-se inclusive a fazer publicidade ou conceder entrevistas a periódicos e jornais.
Bom, mas se você leitor quer saber mais da pequena história da familia Glass não pode deixar de procurar nas livrarias e se deliciar com a leitura de "Carpinteiros, levantem bem alto a cumeeira". Isto é, caso você se ache uma pessoa ou leitor com sensibilidade para tal.
Todo grande escritor demonstra em sua arte uma capacidade genuína de desvelar as sutilezas e as nuances do comportamento humano. E o faz sempre de uma forma extremamente singular.Já se disse que todo grande autor ou grande artista é uma espécie de médium, termo derivado da doutrina espirita que significa a capacidade de incorporar espíritos outros que não o do próprio médium.
A idéia por trás dessa concepção na arte é a de que o artista consegue, no ato da criação, construir personagens vários, dando-lhes vida, forma, voz com tal competência e realismo (ou naturalismo), que parece mesmo que aqueles personagens fazem parte ou compõe a própria personalidade do autor criador.
Penso ser desnecessário citar alguns desses grandes escritores e criadores. Na literatura em particular, temos centenas e centenas deles. E o estudo mesmo da literatura revela, sobremaneira, o desafio que é estudar o tema. Aliás, é possível dizer, seguindo as pegadas de um dos maiores estudiosos e críticos da literatura na atualidade, se não o maior, Harold Bloom (criador inclusive de uma teoria literária) que a arte da crítica também necessita de "engenho e arte".
Todo grande crítico e exegeta da literatura tem necessariamente que ser, além de um grande leitor, um artista na arte da interpretação. Compreender uma obra de arte não é tarefa fácil. O trabalho de análise (cujo significado ou etimologia da palavra remete a decompor) traduz-se como uma capacidade de separar os desdobramentos que a grande arte permite e revela. Traduz-se numa capacidade de perceber os movimentos construídos pelo autor na arte de propor enigmas. Mas não só isso.
A arte de analisar uma obra requer também um refino na compreensão da forma e do gênero escolhido pelo artista, e uma compreensão sutil da alma da humana e seus recônditos. Não é à toa que o estudo da literatura terminou se impondo e buscando ganhar ares de "ciência", ainda que para muitos não seja.
O incrível é percebermos também, em vários dos grandes artistas criadores, uma junção nas funções de artista e critico. E aqui podemos concluir citando dos dois grandes nomes nessa área, um nacional e outro estrangeiro: Machado de Assis e Edgar Allan Poe.
Ambos foram, em seu tempo, e em vários momentos de suas vastas obras, exímios criadores tanto na arte da criação pura quanto na arte da interpretação, chegando inclusive a oferecer tanto ao leitor interessado em ser um criador quanto ao leitor interessado especificamente na área da crítica literária, como deviam proceder. Resta pensar ao final, e diria mesmo com certo pesar, que infelizmente (alguns talvez dissessem "felizmente") que o talento parece transcender o aprendizado. No entanto, deixo como uma proposta aberta para reflexão essa última questão.
O que é melhor em Alex Nascimento? O escritor, o poeta, o genial fazedor de frases, o humorista, o jornalista, o cronista, a pessoa, o homem de vida despojada? Reluto. Um diplomata diria: tudo isso e mais alguma coisa. O próprio Alex talvez dissesse que não seria nada disso e sim outra coisa que não cabe a ninguém entender.Bom, Alex Nascimento é um artista, e como tal deve ser apreciado, lido, estudado, analisado. Autor de vários livros, nesta quinta feira faz o relançamento do livro "Recomendações a todos" exatamente o seu livro primeiro livro, livro com estreou no cenário literário do RN em 1982.
Depois vieram outros: "Quarta-feira de um país de cinzas", "Alma minha gentil", "A última estação" e "Almas de rapina", "Amor e outras mentiras", sem falar que "Recomendações a todos" foi transformado recentemente em peça teatral por um grupo local. E o que dizer da obra de Alex? Primeiro que é recomendável, pelo menos do meu ponto de vista. Segundo que se trata de uma obra aberta e sempre atual. Alguém pode dizer: "lugar comum". Não, não é lugar comum em se tratando de Alex. Há obras que são temporais, localizadas, frutos de um tempo e de um momento. Não é isso que ocorre com a obra do poeta em causa.
Difícil não perceber em sua prosa um convite à reflexão sobre os dilemas do homem, sobre sua passagem no mundo, sobre o cotidiano muitas vezes asfixiante, sobre as dores, os amores, os conflitos e os resultados desses conflitos na relação com os outros. O outro como bem percebeu Freud pode ser motivo de prazer ou desprazer. É dentro dessa linha que Alex na mesma direção (certamente ele não gostaria da comparação) de um Voltaire, de um Moliére, ou mesmo de um Swift mescla esse cotidiano com humor e o que sobressai é um redimensionamento do trágico.
Difícil também não reconhecer na sua poesia, por exemplo, um alto nível de linguagem, um rebuscamento, uma qualidade na composição dos versos, da mesma forma que é possível reconhecer as mesmas qualidades em toda grande obra de arte. Na verdade, o que define a grande obra, ou como querem alguns, a "alta literatura" é exatamente esse poder transcendente, que "diz hoje" o que foi dito "antes" ou quando de seu primeiro lançamento. É a perenidade na forma e no conteúdo que faz de uma produção artística uma grande obra de arte.
Uma pequena amostra talvez possa oferecer melhor ou dizer o grau e o alto nível desse escritor. "O meu país é quase um continente, Sem vulcões ou ciclones, terremotos, Não tem seres humanos, tem devotos, A quem os cientistas chamam gente".
Ainda um pouco mais: "Todos amaram aquela noite, a grande noite, Quando você fez o truque de mudar a água em vinho. Discreto e tímido perguntei no seu ouvido se aquilo não era pecado. Meu filho - assim você falou - Existe revertido um só pecado: De insano eu ter criado o homem, e de paga ter ele me criado".
"Recomendações a Todos" será lançado no dia 12 de abril, às 19h30, no restaurante Bella Napoli (Av. Hermes da Fonseca, 960, Tirol).
Um amigo dileto me ligou para dizer do seu entusiasmo com a leitura do livro "Nietzsche para estressados", me parece ser esse o título. Disse-lhe que não conhecia o livro, mas em se tratando de Nietzsche é sempre um bom sinal, em que pese as deturpações que seu estilo, meditações e aforismos ganharam em nosso tempo, em especial, após a vinculação do seu nome ao nazismo.Duvido que Nietzsche apoiasse aquela carnificina.
Nietzsche parte de um diagnóstico, para alguns extravagantes, sobre o homem médio e seus valores, pautados na herança judaico-cristã, o que para Nietzsche serviu como uma espécie de amortecedor para os verdadeiros interesses do homem em seu desejo de viver.
A pulsão de vida freudiana, um termo e conceito caro ao pai da psicanálise, talvez representasse toda a vontade de viver que Nietzsche queria expressar com uma parte de sua filosofia.
Interessante que esse conceito erguido por Freud, a partir da sua clinica, diga-se, foi bastante criticado e até mesmo rejeitado por muitos psicanalistas contemporâneo do médico vienense. Diante da resistência Freud usou um argumento bastante comum na psicanalise. Disse ele: "diante de uma verdade as criancinhas se portam negando-a".
Mas voltando a Nietzsche e sua filosofia, volto a afirmar que não acredito que ele acompanhasse aquela loucura e vulgaridade nazista. Nietzsche era culto e não vulgar. E admito que talvez diante da pobreza intelectual cada vez maior em nosso tempo, tão disposto a ceder a líderes demagógicos, o final trágico dele termine sendo compreensível, ainda que não aceitável.
O que é interessante e fato, isso sim, foi a adesão da irmã de Nietzsche ao nazismo, ao ponto dela oferecer a bengala do filósofo ao nazismo. Mas é correto dizer que o ideal ariano de Hitler e seus asseclas, nada tinha a ver com a teoria de Nietzsche, algo que certamente ele odiaria.
Bom não li "Nietzsche para estressados" e parece que se trata de um livro com os aforismos do filósofo. Fica a recomendação para quem quer mergulhar no universo deste que um dia escreveu, "O verdadeiro homem quer duas coisas: perigo e jogo. Por isso quer a mulher: o jogo mais perigoso".
Ainda como uma homenagem ao genial Millôr Fernandes publico uma entrevista que fiz com ele alguns anos atrás.
ENTREVISTA COM O JORNALISTA MILLÔR FERNANDES
Por Laurence Bittencourt
Era para se chamar Milton Viola Fernandes, mas por um erro do tabelião, foi batizado Millor Fernandes. Gostou. Ficou, acrescido do acento sobre o "o". Carioca nascido no bairro do Méier, Millôr Fernandes pode ser considerado, sem qualquer dúvida, como uma das raras unanimidades nacionais. Jornalista, humorista, artista plástico, dramaturgo, criador de frases geniais, Millôr iniciou sua carreira, aos 13 anos na revista "O Cruzeiro" onde ganhou seu primeiro salário profissionalmente e não mais parou.
Trabalhou na revista "Pif Paf", "Tribuna da Imprensa", fez programa de TV, isso em 1958, chamado "Treze lições de um ignorante", fundou com um grupo de jornalistas famosos, entre eles Paulo Francis, Jaguar, Ziraldo, Henfil, Tarso de Castro, Ivan Lessa, o irreverente "Pasquim" isso no final da década de 60 e que fez a cabeça de muita gente; trabalhou na revista Veja, Isto é, Jornal do Brasil, entre outros.
Com mais de 50 livros, 15 peças e 100 traduções de dramas, tragédias e comédias, aos 80 anos Millôr demonstra a mesma vitalidade de um garoto estreante. Isso para o nosso deleite. Recentemente lançou seu último livro chamado "Apresentações" onde reúne uma coleção de apresentações que fez para amigos os mais diversos. Hoje dispõe de uma das páginas (Site) mais procuradas e lidas da Internet, pela UOL, e depois de um longo tempo afastado, voltou a escrever semanalmente para a revista "Veja".
Nessa entrevista exclusiva, Millôr fala de jornalismo, política, censura, governo Lula, teatro, literatura e muito mais. É um banho de humor, inteligência e erudição, que os leitores têm o privilégio agora de acompanhar. Divirtam-se.
LBL - Para começar: jornalismo ainda é oposição e o resto é armazém de secos e molhados? MF- A primeira, sempre. A segunda, quase sempre. LBL - Millôr, você sofreu censura sob o governo do tão aclamado "liberal", Juscelino Kubitschek, quando fazia um programa para televisão, foi demitido da "Tribuna da Imprensa" em 1961 por escrever um artigo sobre corrupção na imprensa brasileira, e mesmo sua saída da revista Veja segundo o jornalista Mino Carta também sofreu contratempos com a ditadura militar. O Brasil da chamada "Nova Republica" é diferente em termos de liberdade de imprensa? MF - Os franceses já fizeram uma frase famosa; "Plus ça change..." Mas a mesma coisa tem sempre nuances divertidas.
MF - Eu estava me referindo a pessoas que acham que abrandando o que pretendem dizer não estão se autocensurando. E também a alguns colegas meus que iam dominar a censura nos áureos tempos. A verdade é que salvaram muitas situações. Eu não tinha inclinação pra isso. Minha atitude, na ocasião, não era decididamente a mais sábia.
MF - Tem muitos. Aquilo, o Nobel, é muito aleatório. Como é que eu vou saber que um poeta indiano é melhor do que um poeta chileno? Na ciência a coisa se aproxima mais de escolha justa.
MF - Pergunta prejudicada porque a resposta seria irônica.

O Brasil perde e muito com sua morte.
Ficarão suas obras, suas frases, suas charadas, suas idéias, para as futuras gerações.
Que as lições de Millôr nos seus livros, revistas, peças de teatro possam continuar sendo uma senha para a melhora ética e civilizatória deste país. Algo que talvez ele próprio não acreditasse.
Hoje é o dia nacional da POESIA.
A verdade aproxima-se.
CONHECIMENTO DO MORTO - Miguel Cirilo
Não sou quando me chamas ilha ou mar.
Amar é achar o tempo do não se,
Tempo-abismo de quando o despertar
Sabe a um tédio já sono de viver.
Sabe a não ser o ser que o ser é nada.
A porta é nada se ninguém me espera.
Sou hóspede e o chamar-te minha amada
Dorme na casa do não ser que eu era.
Morreu que sou mas quem não fui existe
Para amar e não ser sem onde e quando:
Desde um longe sem tempo (e tu não viste!)
Vivo morrendo de não ser te amando.
CONFIDÊNCIA DO ITABIRANO - Carlos Drummond de Andrade
Alguns anos vivi em Itabira.
A vontade de amar, que me paralisa o trabalho,
E o hábito de sofrer, que tanto me diverte,
De Itabira trouxe prendas diversas que ora te ofereço:
Tive ouro, tive gado, tive fazendas.
MAR PORTUGUEZ - Fernando Pessoa
Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lagrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão resaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!
Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quere passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abysmo deu,
Mas nelle é que espelhou o céu.
VIA LÁCTEA - Olavo Bilac
"Ora (direis) ouvir estrelas! Certo