No Divã
alvaro@nominuto.com

No divã... e na TV também!

Olá, pessoal.

A partir de sexta-feira (7), tem novidade na programação da TV Nominuto. É a estreia do programa No Divã. Como não poderia ser diferente, eu estarei abordando temas ligados à psicologia e áreas afins, dando uma visão diferenciada sobre temas do seu interesse. Assim como acontece aqui no nosso blog, você também pode ajudar a fazer o programa, sugerindo temas e enviando dúvidas, críticas ou elogios.

Não se esqueça do nosso horário: toda sexta às 10h da manhã na TV Nominuto (canal 27 da Cabo Telecom). Desde já conto com a sua audiência.

Até amanhã!
 
Não há tags relacionadas.
1 comentários enviados   |   Envie seu comentário

Quando a timidez se torna um problema maior

Olá.

Creio que o tema de hoje vai ser útil para muitas pessoas, não só pelo aspecto técnico mas também pelo fato de ser algo bastante comum de encontrarmos no dia-a-dia.

Falarei um pouco sobre a timidez e como ela pode se transformar em um problema mais sério, chegando ao extremo de ser classificada como um transtorno do comportamento.

Algumas pessoas são, naturalmente, mais introvertidas do que outra, são mais “na sua”, como se diz no popular. Isso é completamente normal e não significa que existe uma patologia ou algo do gênero. Aliás, a grande variabilidade comportamental do ser humano é o que lhe confere tamanha beleza. No caso dos transtornos do comportamento é importante sempre levarmos em consideração duas questões básicas: a intensidade e a frequência dos sintomas e sinais. Nesse sentido, se o indivíduo for extremamente tímido em várias situações, podemos estar diante de um transtorno real: o Transtorno de Ansiedade Social (TAS), também conhecido por Fobia Social.

A pessoa que sofre com esse tipo de problema está diante de um tipo de transtorno de ansiedade que traz sérias limitações no que diz respeito ao convívio social. O ansioso social/fóbico social apresenta um medo irracional diante de situações em que possa ser avaliado pelos outros. Esse medo vai desde situações onde a pessoa pode estar sendo realmente avaliada em algum aspecto (como ao apresentar um trabalho na empresa ou na escola, ao iniciar uma conversa com algum desconhecido, caminhar dentro do ônibus até uma cadeira vazia, fazer perguntas durante a aula) até casos mais peculiares, em que o indivíduo sequer consegue assinar um documento perante outra pessoa.

Como se trata de um transtorno de ansiedade, os sinais de medo que aparecem na pessoa são sinais de ansiedade: coração acelerado, tremores, suor frio, tontura, mal-estar torácico e abdominal, respiração ofegante, formigamento nos membros, rubor facial, dentre outros. Esses sinais são exacerbados pelo fato de o indivíduo achar que os outros estão percebendo que ele está nervoso e que seu desempenho vai ser um fracasso, aumentando ainda mais a ansiedade, que faz os sinais ficarem mais fortes e assim sucessivamente, como numa bola de neve.

Com o passar do tempo o fóbico/ansioso social começa a adotar comportamentos evitativos, ou seja, ele literalmente evita as situações nas quais se sente ansioso. Isso, ao invés de ser benéfico para o tímido, se transforma em um grande entrave à sua melhora, uma vez que sem enfrentar as situações ansiogênicas (causadoras de ansiedade) ele nunca vai poder “tirar a prova” de que as ocasiões temidas, na verdade, não oferecem risco algum. Além disso, o indivíduo que sofre com esse problema se coloca para os outros, digamos, como um “objeto social”. A idéia de que os outros estão olhando para ele, avaliando-o constante e negativamente, de que ele será incapaz de ter bons desempenhos perante os outros, acaba ficando cada vez mais forte, uma vez que as oportunidades de contradizer tais crenças são evitadas.

Nessas alturas do campeonato o leitor pode estar se perguntando: “O que devo fazer se eu for um fóbico/ansioso social ou conhecer alguém que é?”. Segundo o Dr. Diego Gonçalves (psicólogo, terapeuta e professor universitário), o tratamento de preferência deve ser feito com psicoterapia cognitivo-comportamental e, dependendo do caso, acompanhamento psiquiátrico (uso de medicamentos).

Esse modelo de terapia tem dois focos de ação: (1) tentar promover a mudança no auto-conceito do indivíduo, buscando juntamente com a pessoa um modo mais realista e racional de ver a si mesmo e o mundo a sua volta. A esse processo damos o nome de reestruturação cognitiva, pois a intenção é reestruturar as interpretações do sujeito sobre si mesmo e o mundo a sua volta. Pode-se dizer que tentamos trocar as lentes dos óculos pelos quais o indivíduo enxerga sua vida; (2) realizar experiências comportamentais para que o sujeito possa testar suas crenças negativas, como a de que ele é incompetente e a de que os outros estão constantemente julgando-o. Aos poucos o paciente vai se (re)inserindo nos contextos que passou a evitar, se aproximando cada vez mais do contexto ansiogênico original.

Adicionalmente, tratamos a ansiedade gerada pela situação, em si, através de técnicas de relaxamento e controle respiratório. Essa abordagem é necessária, pois o tímido acredita que o seu nervosismo é aparente e contribui para o julgamento negativo das outras pessoas sobre ele.

Ainda do ponto de vista comportamental, durante a terapia pode-se fazer um treino de habilidades sociais, a partir do qual o paciente aprenderá a obter melhores desempenhos em interações sociais. Entram em cena questões como iniciar uma conversação, fazer perguntas de modo aberto (que ensejam respostas mais complexas e dão melhor andamento ao bate-papo), tom e intensidade da voz, postura física, dentre outras coisas.

Então, caros leitores, a timidez não necessariamente é uma doença, mas pode atingir níveis realmente patológicos que chegam a atrapalhar muito a vida da pessoa, trazendo uma carga significante de sofrimento psicológico. Se for este o caso, tente (pelo menos tente, já é grande coisa, acredite) buscar apoio de um profissional de sua confiança, seja ele psicólogo ou psiquiatra. Tanto um quanto o outro deverão reconhecer a necessidade de encaminhamento para o tratamento complementar adequado.


Por hoje é só. Até a próxima.
 
Não há tags relacionadas.
5 comentários enviados   |   Envie seu comentário

O caso Isabela: comoção social e espetacularização midiática

O caso Isabela: comoção social e espetacularização midiática

Na madrugada de 27/03 (sábado), dois anos depois do crime que chocou o país, finalmente chegou-se a um desfecho: Alexandre Nardoni e Ana Carolina Jatobá foram condenados a 31 e 26 anos de prisão, respectivamente, pela morte de Isabella Nardoni, filha de Alexandre e Ana Carolina Oliveira.

Para além do crime cometido por eles, em si, outra coisa que chamou atenção neste caso foi o engajamento da sociedade, com as pessoas se comportando como se todos fossem igualmente juízes ou promotores. Quando a condenação foi anunciada, viam-se pessoas comemorando e pulando de alegria, mesmo não tendo coisa alguma com o caso. Para matar a curiosidade do público, foi instalado um sistema de som do lado de fora do tribunal para divulgação da sentença. A televisão, é claro, não poderia deixar de transmitir o “espetáculo” ao vivo – num mundo cada vez mais audiovisual, a vida vira uma paródia do cotidiano traduzida em imagem (até mesmo quando o horror é a única coisa que se tem para servir).
Mas por que o caso Isabela gerou tamanha comoção? Pessoas que não são parentes, sequer conhecidas da família ficaram intensa e genuinamente chocadas com o ocorrido.

Qual a razão desse fenômeno?

Existe um mecanismo psicológico que permite à pessoa se colocar no lugar da outra. Isso possibilita ter idéia do que o seu interlocutor está pensando ou sentindo. A essa habilidade cognitiva damos o nome de "empatia", o que é diferente de simpatia: a primeira, como já foi dito, é a capacidade de se colocar no lugar de outrem e sentir/pensar como ele(a); quanto a segunda, ela é apenas um modo agradável de conduta social, não implica diretamente em ser no lugar do outro.

Desde a divulgação do crime pela mídia, há poucos anos, quantas e quantas vezes não nos perguntamos algo do tipo: "Nossa, o que será que essa mãe não está sentindo?". Ou: "Perder uma filha é um sofrimento terrível". E ainda: "Eu não queria estar no lugar dela (da mãe)". Se não fossemos dotados dessa capacidade de ver a coisa pela perspectiva do outro provavelmente todo esse sentimento de solidariedade não existiria. Mesmo quando o evento ocorre com terceiros nós conseguimos ensaiar aquela emoção e experienciar, de algum modo, o sofrimento alheio.

Ao que tudo indica, a empatia se desenvolve na infância. Diz-se, tradicionalmente, que ela está plenamente estabelecida por volta dos cinco anos de idade, mas há quem diga que ela começa a aparecer ainda mais cedo. Outro nome pelo qual a empatia é conhecida é Teoria da Mente, referindo-se justamente à capacidade de "ler a mente" de outra pessoa.

Além dos vários aspectos emocionais envolvidos no processo empático, uma descoberta que se destaca é a dos neurônios espelhos. Existem, no nosso cérebro, células nervosas que são ativadas especificamente em situações de simulação emocional, ou seja, quando elas se ativam é sinal de que estamos nos colocando no lugar de outra pessoa, tentando pensar/sentir a mesma coisa. Esses neurônios também facilitam a aprendizagem por meio da imitação (modelação), uma vez que servem de espelho para ações motoras com objetivo definido (essa classe de neurônios é ativada ao vermos uma pessoa chutando uma bola, por exemplo, mas não é ativada pela mera contração aleatória dos mesmos grupos musculares). Quando vemos alguém se movimentando, por exemplo, nós podemos simular tais movimentos na nossa cabeça, mas áreas inibitórias nos impedem de repetí-los despropositadamente.

Vale dizer que esse processo é algo natural, não sendo, portanto, falsidade ou mentira. Automaticamente nós franzimos o cenho quando vemos, por exemplo, alguém receber uma pancada (como se nós estivéssemos sentido a dor). Também ficamos emocionados quando vemos/ouvimos falar do caso Isabela ou mesmo de outros casos igualmente chocantes.


Crítica pessoal

A espetacularização da mídia sobre o caso não pode deixar de ser ressaltada. A constante exposição da informação literalmente bombardeia a cabeça das pessoas, fazendo com que sejamos quase que obrigados a pensar no assunto. Não me surpreenderia se, daqui a alguns anos, a mídia se auto-intitulasse a "Justiceira do caso Isabela", querendo assumir uma responsabilidade social imparcial. É importante a peculiaridade do caso, uma vez que dia após dia crianças morrem no mundo inteiro, mas continuam no anonimato. O que falta a essas famílias? O sofrimento não é o mesmo? A vida delas vale menos? Por algum motivo a mídia achou que este caso poderia dar a devida audiência... digo, poderia ser emblemático dos vários outros casos bizarros que acontecem todo santo dia.

Talvez o fato de a família Nardoni pertencer às camadas mais privilegiadas da sociedade tenha tido alguma coisa a ver, não sei (será que um sobrenome “Silva”, “Oliveira”, “Costa”, “Nascimento” ou “Santos” despertaria o mesmo interesse da televisão?).

Mais incrível ainda é ver as pessoas comemorando a condenação do casal. Todavia, como poderia ser diferente? A imprensa veiculou a coisa de modo tão maniqueísta que realmente existia um jogo de forças entre as partes. Ninguém estava nem aí para o que constava dos autos processuais, mas sim para o que os repórteres podiam ver de dentro dos tribunais. Comemorar alguma coisa que possa ser fruto de um caso tão hediondo é no mínimo estranho. Observando bem, pelo menos três famílias foram destruídas e muita gente que não teve culpa vai sofrer profundamente.
Uma condenação judicial não é vitória alguma, tampouco muda os fatos ou recupera o que já foi perdido. Condenações judiciais são apenas retalhos que tentam cobrir a nossa impostura social. Creio que uma sentença nunca deve ser comemorada, mas sempre lamentada.

Até a próxima.
 
Não há tags relacionadas.
6 comentários enviados   |   Envie seu comentário

Síndrome do Macho Jovem

Entre as imagens frequentemente usadas para descrever o comportamento dos jovens, uma das mais comuns é a figura do “inconsequente”. Em “Dezesseis”, faixa do último CD lançado pela “Legião Urbana”, Renato Russo deu um bom exemplo desse tipo de jovem. A letra da canção dizia assim: “João Roberto era o maioral / O nosso Johnny era um cara legal / Ele tinha um Opala metálico azul / Era o rei dos pegas na Asa Sul”. No final da música, ficamos sabendo que “o pega” não teve um final dos mais felizes para João Roberto.

Mesmo sendo só personagem de uma música adolescente, a gente sempre esbarra com um “João Roberto” por aí, alguém que, movido pelo espírito aventureiro característico da idade, acredita ser indestrutível. Numa busca constante por emoções cada vez mais fortes, se lançam em novas peripécias sem se importar com eventuais riscos. Por que o perigo parece exercer tanto fascínio sobre esse público?

É bem provável que você tenha algum(a) amigo(a) ou conheça alguém que gosta de praticar, por exemplo, os chamados esportes radicais, como alpinismo, corrida de aventura, salto de paraquedas, mountain bike, rafting, surf, entre outros. Por que essas modalidades esportivas, a despeito dos perigos, continuam atraindo tantos adeptos? Isso sem falar nas práticas ilegais, como os “rachas” de carros nas avenidas da cidade.

Vamos, então, ver alguns padrões interessantes: sem muito esforço, percebe-se que os homens compõem a maior parte dos adeptos daqueles esportes; também são os principais indiciados por fazerem “rachas” de carro (particularmente, nunca ouvi falar de uma mulher fazendo “pega”, o que não quer dizer que não exista, é claro); os homens se envolvem mais frequentemente em acidentes de trânsito (um fato que reforça essa tese é o preço dos seguros de veículos: se você é um homem de 22 anos, pesquise os valores dos seguros para o seu carro e, em seguida, mande sua mãe de 48 anos fazer o mesmo); as mulheres vão ao médico mais vezes do que nós; grandes líderes revolucionários e idealistas são ou foram homens; é muito mais comum vermos, em uma festa, por exemplo, dois (ou mais) homens brigando do que duas mulheres. Caso prestemos um pouco mais de atenção vamos nos dar conta de que esses homens não são senhores idosos, pais de família. Pelo contrário, são adultos jovens ou até mesmo adolescentes. Os homens jovens são os protagonistas no teatro do perigo.

Mas por quê? Temos explicações em vários níveis.

Do ponto de vista social, é inegável a valorização da cultura em relação ao ideal de homem forte, heróico, destemido. Além da forte pressão a que são submetidas as gerações mais novas (estudos, trabalho, futuro), a constante (e crescente) exposição de situações perigosas, por parte da mídia, pode exacerbar e/ou banalizar determinados comportamentos, de modo que a pessoa passa a não mais interpretá-los como arriscados, como se já estivesse acostumado a isso.

Do ponto de vista psicológico, o homem jovem tem muito menos a perder (em termos de investimentos já feitos ao longo da vida) do que alguém de mais idade. É menos provável quem um rapaz de 20 anos já tenha família e filhos do que um senhor de 53, por exemplo. As possíveis perdas ocasionadas não parecem tão grandes assim para os mais jovens.

Como se costuma dizer: o jovem não sabe esperar. O conceito de “desconto de futuro” diz que quando alguém prefere uma recompensa mais imediata (porém menor) ao invés de uma mais demorada (de maior valor) a pessoa fez um desconto temporal. Parece que, de modo geral, os seres humanos apresentam certa tendência ao desconto, sendo esta mais fortemente identificada nas crianças, decrescendo ao longo das fases da vida (adolescência, adultez, velhice).

Dessa maneira, os sujeitos podem se envolver em atividades perigosas e/ou ilícitas apenas para desfrutar do lacônico prazer gerado pelo afã da emoção. Outro fator que pode aumentar a probabilidade de desconto temporal por parte dos mais jovens é a incerteza do amanhã: quanto mais novo você for, menos probabilidade tem de envelhecer. Daí não ser de todo irracional aproveitar certas coisas intensamente, no melhor estilo carpe diem.

Do ponto de vista biológico, os índices hormonais são mais elevados em certos períodos da juventude. O hormônio masculino testosterona é abundante na corrente sanguínea dos homens da metade da adolescência até os 25 anos, aproximadamente (essa faixa de idade não é exata, havendo variações, mas vale como regra geral). Tudo o mais sendo igual, quanto mais altas as taxas de testosterona, mais agressivos ficamos. Uma curiosidade é que quando nos aproximamos de bebês o nível circulante desse hormônio é reduzido, o que parece ser uma característica moldada ao longo do nosso passado evolutivo para diminuir as chances de agressão contra crianças (que poderiam até mesmo ser nossos filhos).

Ainda no âmbito biológico, quando ficamos estressados ou ansiosos há a liberação de adrenalina dentro do nosso corpo. Essa substância nos prepara, naturalmente, para respostas de “luta ou fuga” por meio de diversas reações: nossos órgãos sensoriais ficam mais sensíveis para percebermos riscos no ambiente, o coração trabalha em ritmo acelerado, a respiração também, quantidade adicional de sangue é levada para as extremidades do corpo (irrigando músculos dos braços e das pernas, para que você possa lutar ou fugir) e dispensada de órgãos como intestino e de algumas regiões do cérebro. Juntamente com a adrenalina, porém, há a liberação de endorfinas no cérebro, que são os nossos analgésicos naturais e proporcionam uma sensação de prazer e bem-estar. As pessoas que gostam de se arriscar, portanto, podem acabar recebendo uma dose extra de endorfinas ou simplesmente serem mais sensíveis a elas.

A testosterona tem um efeito adicional no organismo, que é o de debilitar o sistema imunológico, fazendo com que homens sejam ligeiramente mais suscetíveis a doenças infecto-contagiosas, o que acarreta numa diminuição da expectativa de vida média, em relação às mulheres. Isso traz consequências psicológicas: se o sujeito vive menos, pode ser mais vantajoso colher frutos verdes ao invés de esperar pelos maduros, uma vez que a expectativa de vida é naturalmente reduzida no caso dos homens, ensejando comportamentos do tipo carpe diem.

A característica tipicamente juvenil de assumir riscos recebeu o nome de Síndrome do Macho Jovem. Vale dizer que isso não é uma doença, mas sim uma fase que, como qualquer outra, é mais intensa e duradoura em uns indivíduos do que em outros. Com o passar do tempo ela vai sendo abrandada normalmente, sem mistérios.

Como último comentário, a expressão “Síndrome do Macho Jovem” não é um termo técnico amplamente difundido dentro da psicologia, é uma expressão utilizada principalmente pelos estudiosos da psicologia evolucionista (uma tendência específica dentro da tão variada ciência psicológica).

Por hoje é só. Até a próxima.
 
Não há tags relacionadas.
7 comentários enviados   |   Envie seu comentário

O sofrimento faz parte da vida

Olá, pessoal.

Quem nunca se emocionou com o ‘rei’ Roberto Carlos cantando “se chorei ou se sorri, o importante é que emoções eu vivi”? As emoções fazem mesmo parte da nossa vida e, por isso, vamos falar um pouco sobre essa face da condição humana, mais especificamente naquilo que chamo de “modismos diagnósticos”.

Muito já se falou, na última década, que a depressão é a doença da modernidade. Depois, entrou em moda o diagnóstico de transtorno/síndrome do pânico e, mais recentemente, começa a surgir a nova “moda” do transtorno bipolar. Não descarto a possibilidade de haver um aumento recente no número de casos dessas doenças, mas o que chama a atenção é como as pessoas (e até mesmo alguns profissionais) podem estar usando esses termos de forma inadequada.

Parece que cada vez mais a nossa sociedade preza pelos prazeres absolutos, esquecendo-se de que sentir tristeza e dor, às vezes, é completamente normal, esperado e até saudável. A intolerância ao sofrimento, por menor que seja, esta cada vez mais presente. É importante, todavia, conhecermos um pouco mais sobre as variações emocionais normais.

Existem basicamente seis emoções universais, comuns da espécie humana, independentemente da cultura (o modo como essas emoções são expressas podem variar de uma cultura para outra, mas elas, em si, são invariáveis): raiva, alegria, nojo, surpresa, medo e tristeza. Sentir-se mal diante de situações desgastantes, portanto, é normal. Não é uma tristeza (mesmo que um pouco mais intensa) aleatória que caracteriza, por exemplo, a depressão. Esta última é uma síndrome, com uma série de características específicas que a definem e a identificam como tal. O mesmo vale para o transtorno de pânico e a nova moda do transtorno bipolar. Todos esses problemas psiquiátricos só devem ser cogitados quando preencherem os critérios necessários para isso.

Então, lembre-se disso: ter um acesso de raiva, às vezes, é normal (não é por isso que você é um psicopata desequilibrado e desumano); ficar eufórico depois de receber uma notícia boa também é (não é por isso que você está em uma fase maníaca típica de transtorno bipolar), mesmo que, mais tarde, você possa se sentir pra baixo por causa de alguma outra coisa; ficar triste após um evento desagradável também é completamente normal e esperado, e assim por diante.

Em algumas ocasiões nós acabamos por exagerar no nome que damos às emoções que estamos sentindo no momento. Mas é importante distinguir uma reação psicológica comum de um fenômeno patológico. A tristeza, por exemplo, serve para sinalizar que alguma coisa não vai bem (tem a mesma função da dor física, fazendo com que evitemos estímulos prejudiciais ao corpo). Nesse sentido, pode ser proveitoso analisar o porquê de este sentimento estar se manifestando para, se for o caso, promover alguma mudança significativa na sua vida.

Por hoje é só. Até a próxima.
 
Não há tags relacionadas.
7 comentários enviados   |   Envie seu comentário

Carnaval e o espírito Tribalista

Uma das imagens mais usadas para descrever o Brasil, principalmente no exterior, é a figura do país do carnaval. Dizem que o ano novo por aqui só começa pra valer depois da folia momesca. Noves fora esses e outros clichês, o fato é que o carnaval mobiliza milhões de pessoas. Para muitos, graças ao apelo sexista da festa, essa é a época de vestir a fantasia tribalista e sair cantando por aí "eu sou de ninguém, eu sou de todo mundo e todo mundo é meu também".

É muito comum ouvirmos dos(as) amigos(as) que, em épocas como carnaval, micaretas e afins, "tá tudo liberado". Durante a comemoração tudo (ou quase tudo) parece ser válido para se divertir: quem não fuma, fuma; quem não bebe, bebe; dentre "otras cositas mas". Mesmo os tidos como mais conservadores, por vezes, procuram se soltar e acabam caindo na folia. A mulher/o homem que diz ser "difícil" beija cinco ou seis (ou mais) pessoas na mesma noite sem ao menos saber o nome da contraparte. No dia-a-dia, porém, tal atitude é execrada pela maioria das pessoas. Por que será que no carnaval muita gente cai na farra sem remorso algum?

Existe uma coisa chamada de "dissonância cognitiva", que é justamente aquela sensação de estranheza que o indivíduo sente a respeito de si mesmo quando faz alguma coisa que lhe parece errada ou irracional. Um bom exemplo disso é quando um fumante, que conhece os malefícios do cigarro, diz: "Só esse não faz mal"; "É o último do dia"; "Fulano fuma há 30 anos e nunca teve nada". O que ele está fazendo, na verdade, é adicionar elementos que não destoem do seu comportamento e que, até certo ponto, o justificam. Em outras palavras, ele sabe que o cigarro faz mal e, mesmo assim, continua fumando, o que gera dissonância. O que acontece, então, é que o sujeito adiciona informações que reduzam seu desconforto psicológico gerado pelo conflito existente entre a razão (o mal causado pelo fumo) e a vontade gerada pelo vício (fumar).

O processo psicológico que autoriza as pessoas a fazerem determinadas coisas no carnaval é semelhante. Ora, se ficar com cinco garotos numa festa qualquer parece coisa de mulher "fácil", no carnaval essa regra não existe, afinal de contas, é carnaval! O festival da carne é uma legitimação sócio-cultural que reduz drasticamente o conflito gerado entre a vontade de ficar com várias pessoas numa noite e o ato, em si. Creio que um dos pensamentos mais comuns na cabeça do ressacado, nessa época, ao lembrar do que fez na noite passada (se é que ainda se lembra) é: "Ah... mas era carnaval!". Assim, a dissonância é praticamente eliminada e todos os valores morais e éticos que tanto podam o indivíduo retornam na quarta-feira de cinzas.

Então, meus amigos leitores e foliões, nunca se esqueçam de adicionar este elemento de consonância (para reduzir o desconforto psicológico gerado pelo contraste entre o que se faz e o que se diz, chamado dissonância cognitiva) aos seus pensamentos, no dia seguinte: "Ah, era carnaval!". A cultura permite.

Por hoje é só. Desejo a todos uma ótima semana de muita folia e o mínimo possível de dissonância cognitiva (afinal, ninguém gosta de ficar com a consciência pesada).

Até a próxima.
 
Não há tags relacionadas.
3 comentários enviados   |   Envie seu comentário

"Deu branco, e agora?". Para os vestibulandos da UERN.

Olá, pessoal.

Aqui estou, mais uma vez. O texto de hoje será voltado para você, vestibulando da UERN, que realizará as provas nos dias 07/02 e 08/02.

É muito comum que em épocas de grande expectativa seja gerada, também, grande ansiedade. Os medos e os pensamentos negativos são vários: “E se eu não passar, o que vão pensar de mim?”, “Tenho que passar!!!”, “Se eu for reprovado é sinal de que sou burro e todo o investimento dos meus pais foi em vão...”, “Vou decepcionar as pessoas”, “Como vai ficar meu futuro?”. Esses são apenas alguns exemplos.

De vez em quando ouvimos pessoas extremamente estudiosas dizerem que foram mal na prova por que “deu branco”! Mas o que é mesmo esse tal de “branco”?

Quando estamos muito ansiosos/com medo é sinal de que estruturas específicas do nosso cérebro estão em funcionamento. Uma dessas estruturas é conhecida por amígdala (um pequeno aglomerado de núcleos nervosos em uma região interna do cérebro, e não aquela parte da garganta...) e tem participação importante nas reações de medo e ansiedade. O problema é que essa pequena estrutura se conecta diretamente com a região frontal do cérebro, responsável pela integração das diversas informações ambientais/sensoriais que chegam ao nosso sistema nervoso central. Além disso, a região frontal comanda o nosso raciocínio consciente e, como não poderia deixar de ser, exerce grande influencia nas decisões que tomamos. Quando a amígdala se encontra hiperativada (em situações de grande estresse/medo/ansiedade) ela “rouba a cena” e se sobrepõe ao pré-frontal, meio que desativando-o temporariamente.

Em resumo, como a ansiedade toma conta da gente o nosso pré-frontal fica “apagado” e não conseguimos processar direito as informações que estamos puxando da memória. Resultado? Deu branco!

Bom, aqui vai uma dica para ajudar você, vestibulando, a se tranqüilizar na hora da prova: a estratégia A.C.A.L.M.E.-S.E. Ela consta de oito passos, sendo que cada letra representa uma etapa. É bem simples e pode ser utilizada em qualquer local e a qualquer hora. Vamos a ela...


A - Aceite a sua ansiedade. Não queira ser um(a) super-herói(heroína) que se julga impossível de sofrer a influência das emoções. Elas estão sempre lá (e sempre estarão). Aceite-a, mesmo que possa parecer absurdo e indesejável, no momento. A aceitação é o primeiro passo para a mudança.

C - Contemple as coisas em sua volta. Não olhe tanto assim para dentro de si; após aceitar o seu sentimento, não lhe dê tanta importância ao ponto de ser consumido por ele. Olhe para as coisas, distraia-se, descreva o ambiente em seus mínimos detalhes. Ok, você está com ansiedade, mas você é mais do que ela. Já dizia aquele velho ditado: “mente vazia, oficina do diabo”.

A - Aja com a sua ansiedade. Procure não se deixar paralisar, como se tudo no mundo fosse dar errado e não adiantasse fazer nada. Mesmo ansioso, continue fazendo suas coisas. Se necessário, diminua o ritmo. O importante é não parar. Faça as coisas, mesmo que mais lentamente. Afinal, alguma coisa é sempre melhor do que nada.

L - Libere o ar de seus pulmões, bem devagar! Respire bem devagar, calmamente, inspirando pouco ar pelo nariz e expirando longa e suavemente pela boca. Quando estiver inspirando (puxando o ar), conte três segundos. Em seguida, prenda um pouco a respiração por não mais do que sete segundos. Quando for soltar o ar deixe-o sair ao longo de uns seis segundos. É importante que você respire “pela barriga”, ou seja, não encha o pulmão de ar; faça uma respiração diafragmática. Pode ser útil realizar um treino quando você estiver deitado(a): coloque um pequeno livro ou caderno sobre a barriga e veja se, quando você respira, ele sobe e desce junto com seu abdômen. Se for o caso, sinal de que a técnica está sendo realizada corretamente. Encontre o seu ritmo mais confortável e você verá como isso é relaxante.

M - Mantenha os passos anteriores. Continue (1) aceitando sua ansiedade, (2) contemplando as coisas em sua volta, (3) agindo com sua emoção e (4) liberando o ar de seus pulmões. Fazendo isso você poderá perceber que sua ansiedade está diminuindo, aos poucos.

E - Examine seus pensamentos. Talvez você esteja com um daqueles pensamentos, digamos, catastróficos: “E se eu não passar, o que vão pensar de mim?”, “Não sou bom(boa) o suficiente.”, etc. Veja se isso realmente tem fundamento. Procure trazer para a memória os seus sucessos, como o fato de ter passado por media, ou de ter conseguido chamar aquela pessoa desejada para sair, enfim. Mostre a si mesmo que você já conseguiu realizar coisas importantes e que o vestibular é apenas mais uma dessas coisas. Não deixe o vestibular ser maior do que você. A relação real é a inversa: você é maior do que o vestibular.

S - Sorria, você conseguiu! A ansiedade diminui e agora seus pensamentos podem fluir mais facilmente. O sucesso dependeu única e exclusivamente de você. Orgulhe-se de sua competência.

E - Espere o futuro com aceitação. Não ache que esta imune a qualquer emoção negativa. E normal sentir-se mal de vez em quando. Apesar disso, o importante e que agora você tem como lidar com isso de modo eficaz. Não seja exigente com o futuro, mas prepare-se para receber o que ele mandar: se forem coisas boas, aproveite-as; se forem coisas ruins, enfrente-as.


Bom, pessoal, por hoje é só. Espero que o maior entendimento acerca do branco e a estratégia A.C.A.L.M.E.-S.E. possam ser úteis para qualquer um que venha a sofrer com problemas de ansiedade, em especial os futuros universitários da UERN. Boa sorte pra vocês.

Até a próxima.
 
Não há tags relacionadas.
1 comentários enviados   |   Envie seu comentário

Post especial: o caso Cabañas

UOL
Radiografia da cabeça de Cabañas, mostrando a trajetória da bala.
Olá, pessoal.

Não estranhem, mas este post vai ser mais técnico, por se tratar de um tópico especial, mais exatamente da tragédia noticiada há poucos dias pela mídia, com repercussão mundial: o caso do jogador paraguaio Salvador Cabañas.

Como boa parte de vocês deve saber, o atacante do América (do México) levou um tiro na cabeça, no banheiro de um bar da Cidade do México, capital do país. A bala penetrou por entre as sobrancelhas do atleta, alojando-se na parte de trás da cabeça. Quais as consequências que este incidente pode ocasionar para o jogador? É disso que tratarei a seguir.

A imagem ao lado mostra a radiografia de Cabañas e o caminho percorrido pela bala dentro de sua caixa craniana.

A parte da frente do cérebro se chama “lobo frontal” e, considerando o diâmetro da bala, parece ter sido pouco atingida. O lobo frontal é a parte do cérebro responsável por várias de nossas funções mentais mais complexas, tais como a autoconsciência, percepção da realidade, linguagem, um tipo específico de memória, algumas funções motoras e, em menor medida, as emoções (dentre outras coisas...). Além disso, essa região recebe informações (visuais, auditivas, motoras, olfativas, dentre outras) de muitas outras partes do cérebro, integrando-as em um todo coerente. Ela também exerce uma função inibitória sobre o nosso comportamento (é o caso quando “nos seguramos” para não bater em alguém, ou quando seguramos uma reação impulsiva qualquer). Pelas notícias divulgadas sobre o caso, parece que o dano causado a essa região não foi tão grande por causa do diâmetro do projétil.

Mais adiante vemos que a bala passou “por dentro” do cérebro, até chegar à parte de trás, quando finalmente parou. Essa parte “do meio/abaixo” e mais interna do cérebro guarda uma série de estruturas nervosas (chamadas de “núcleos da base”) que influenciam parte da nossa motricidade. É possível supor, então, que Cabañas desenvolva algum déficit motor, embora o projétil não tenha atingido o “miolo” do cérebro, o que aumentaria a chance de problemas motores. Aliás, a “sorte” do jogador foi que a bala percorreu uma trajetória ascendente. Caso ela tivesse se dirigido mais para baixo, como se fosse descer para o pescoço, talvez ela atingisse regiões mais vitais, responsáveis, por exemplo, pelo controle nervoso da função cardiorrespiratória.

Por fim, a bala se alojou na região posterior do cérebro. Essa área é chamada de “córtex occipital” e é a primeira região de processamento das informações visuais. Quando a luz penetra no olho e atinge a retina, o estímulo é transmitido diretamente para o córtex occipital e, de lá, vai para outras áreas a fim de que seja realizado o processamento mais refinado. Por essa razão é possível que o atleta sofra algum tipo de prejuízo visual.

Gostaria de lembrar que todas as informações foram retiradas de sites, portais e afins, de modo que não são informações “em primeira mão”, sendo possível haver algum erro para o qual eu não tenha atentado.

Apesar de todas as possibilidades de dano acima discutidas serem reais, é claro que todos estamos torcendo pelo contrário. Estamos esperançosos de que o grande atacante Salvador Cabañas possa, em breve, estar de volta aos gramados, presenteando os torcedores com suas jogadas incríveis (mesmo quando elas eliminam times brasileiros da Libertadores...) e fortalecendo a seleção paraguaia para a Copa do Mundo da África do Sul. Força, Cabañas, estamos torcendo por você!

 
Não há tags relacionadas.
2 comentários enviados   |   Envie seu comentário

Medo de dirigir: possíveis causas

Olá, pessoal.

Em uma postagem anterior a leitora Lúcia sugeriu que eu falasse sobre a questão do medo de dirigir. Acatando a sua sugestão, o post de hoje será sobre isso. Acho que este é um tema que pode interessar a muitas pessoas, seja pela natureza do assunto, seja pelo fato de alguém sofrer com este tipo de problema.

Existem três caminhos pelos quais podemos explicar o problema.

O primeiro se chama “fobia”. A pessoa com fobia a qualquer coisa relacionada ao trânsito pode ficar travada quando entra no carro, apresentando vários sintomas de ansiedade.

O que caracteriza a fobia não é uma leve ansiedade, mas um medo exagerado que vai muito além do perigo real representado pelo carro/moto/trânsito e afins.

É possível que você esteja pensando: “Mas eu também fico extremamente ansioso e/ou tenho verdadeiro pavor de aranhas” (por exemplo...). De fato, as fobias não se restringem aos carros. Elas podem estar relacionadas a animais, altura, elevador, objetos e assim por diante.

O segundo se chama “estresse pós-traumático”. Esse é o termo técnico para o que chamamos, no dia-a-dia, de trauma. O indivíduo pode ter trauma de dirigir porque já sofreu um grave acidente de trânsito, sentindo-se ansioso e altamente estressado sempre que tenta se lembrar do assunto ou mesmo de alguma coisa que tenha a ver com ele (o fato de estar dirigindo ou mesmo o simples fato de entrar em um carro). Assim como no caso das fobias, os traumas podem se desenvolver a partir de várias situações: assalto, estupro, acidentes quaisquer, interações sociais muito negativas, dentre outras.

Embora seja menos comum, o indivíduo pode se traumatizar “por tabela”, apenas presenciando alguma coisa que lhe marque profundamente, trazendo à tona uma emoção negativa muito forte.

Por fim, pode ser que a pessoa apenas tenha certa insegurança por falta de experiência ou conhecimento, de modo que ela se acha incapaz de ser uma boa motorista. Nesse caso, paciência e um bom curso de formação de condutores deverão ajudar.

A boa notícia é que existem tratamentos eficientes para todos os casos. Eu recomendo que se procure ajuda profissional quando o medo de dirigir estiver sugerindo uma fobia ou um estresse pós-traumático.

Por hoje é só. Até a próxima.
 
Não há tags relacionadas.
8 comentários enviados   |   Envie seu comentário

"Eu quero levar uma vida moderninha, deixar minha menininha sair sozinha... mas eu me mordo de ciúmes."

No texto de hoje abordarei um tema bastante polêmico e velho conhecido de todos nós: o ciúme. Sim, ele é um velho conhecido. Afinal, quem nunca sentiu uma ponta de ciúmes da pessoa amada, por exemplo. Esse é um tipo de sentimento desagradável que, se for mal administrado, pode gerar conflitos em qualquer relação. Mas por que sentimos ciúmes? A culpa será da(o) nossa(o) parceira(o) que é sempre muito atirada(o) ou gosta de usar roupas mais chamativas? Ou tudo isso tem mais a ver com uma insegurança (talvez até doentia) de nossa parte? Vamos discutir a questão...

Antes de tudo é importante dizer: sentir ciúmes é absolutamente normal! O ciúme é conseqüência de um certo zelo que temos pela(o) nossa(o) parceira(o) e não pode ser considerado doença. A sua função é manter a pessoa amada. Porém, como toda moeda tem dois lados, não poderia ser diferente com o ciúme.

Olhando pelo lado positivo: graças a ele nós desenvolvemos estratégias de sedução que visam a aumentar o vínculo afetivo, evitando (ou pelo menos diminuindo as chances...) que a(o) amada(o) se interesse por outro(a). Se não nos preocupássemos com a(o) parceira(o) os relacionamentos estariam fadados ao fracasso.

Olhando pelo lado negativo: ele pode se tornar exagerado e refletir algum tipo de problema no relacionamento. Talvez alguém esteja dando motivos para que o ciúme ocorra, comportando-se de forma que a(o) parceira(o) julga inadequada; por outro lado, a(o) parceira(o) pode estar exagerando no grau de controle que quer possuir sobre a vida da pessoa. Em ambos os casos é bom refletir sobre o próprio comportamento.

Uma curiosidade sobre o ciúme é que ele parece ser diferente para homens e para mulheres. Estudos indicam que o sexo masculino se sente mais enciumado quando a situação envolve o ato sexual de sua parceira com outro homem; já o sexo feminino sente ciúmes mais fortemente quando a ocasião sugere algum tipo de envolvimento afetivo de seu parceiro com outra mulher. Deixem-me lembrar a vocês que isso não quer dizer que homens e mulheres não sintam ciúmes em ambas as situações, é apenas uma questão de qual é mais forte (afinal, ninguém gosta de ser traído de jeito nenhum).

Gostaria de lembrar, por fim, que o ciúme não é uma doença. Se alguém toma algum tipo de atitude extrema para com a(o) sua(seu) parceira(o), mesmo que inicialmente motivado por ciúmes, é possível que isso seja evidência de que existe um problema psicológico mais sério. Nesse caso o ciúme seria apenas a “ponta do iceberg”.

Por hoje é só. Até a próxima.
 
Não há tags relacionadas.
6 comentários enviados   |   Envie seu comentário

Psicólogo: pra que serve isso?

Não é tão raro vermos estampada no rosto das pessoas uma expressão de "Hum... sei...", quando você diz ser psicólogo. Isso é até um pouco engraçado, pois elas ficam meio que esperando algum tipo de complemento ou explicação a respeito do que você REALMENTE faz. Todo mundo sabe que existe o curso superior de psicologia, mas nem todos sabem com o que, de fato, um profissional em psicologia trabalha. Tentarei, nas próximas linhas, esclarecer um pouco do mundo profissional da psicologia.

Para além da formação em Psicologia, existem várias áreas nas quais um psicólogo pode trabalhar. Dentre delas, as mais conhecidas no meio psicológico são: clínica (talvez a mais popular), organizacional, escolar, hospitalar.

O psicólogo clínico é aquele que trabalha com psicoterapia, acolhendo pessoas que estão atravessando algum momento difícil ou que já possuem algum tipo de transtorno mental já identificado. O psicoterapeuta trata de problemas como depressão, síndrome do pânico, trasntorno bipolar, fobia (de qualquer tipo: à altura, a animais, etc), transtorno obsessivo -compulsivo, dentre vários outros. Além disso, discutem-se questões como as famosas "crises existencias", que na verdade podem refletir dificuldades de ajustamento à alguma esfera da vida. Alguns profissionais também trabalham com orientação profissional.

Trabalhar em empresas e organizações é função do psicólogo organizacional. Ele pode desenvolver atividades tanto de gestão, análise e gerência de Recursos Humanos como de consultoria nos mais diversos âmbitos da empresa, conforme seja necessário. As organizações de maior porte geralmente mantêm um setor próprio de Recursos Humanos e o psicólogo é contratado dessa empresa; em outros casos contratam-se empresas especializadas em consultoria, que prestam serviços de recrutamento e seleção de funcionários, pesquisas, dentre outros.

As escolas podem contar com o psicólogo escolar. Suas atribuições, nesse tipo de instiuição, giram em torno de acompanhamento junto aos alunos, apoio pedagógico aos professores. É possível que a escola requisite um programa especial de orientação profissional para as turmas do ensino médio, por exemplo, o que também pode ser proposto pelo psicólogo.

Por último (nesta postagem), mas não menos importante, temos o psicólogo hospitalar. Este profissinal atua em hospitais, podendo trabalhar com pacientes internados em UTIs e/ou enfermarias. Geralmente trabalha-se com um tipo específico de terapia, que é a terapia breve. Busca-se acolher o paciente e compreender como suas emoções estão influenciando o seu sofrimento tanto físico quanto psicológico, visando a alta do paciente.

Bom, pessoal, gostaria de pedir desculpas aos outros profissionais de psicologia que trabalham em várias outras áreas que certamente existem e que, sem dúvida, são igualmente fascinantes. Mas minha idéia, aqui, era passar, em linhas gerais, o que nós podemos fazer profissionalmente. Espero ter esclarecido um pouco essa questão.

Por hoje é só. Até a próxima.
 
Não há tags relacionadas.
3 comentários enviados   |   Envie seu comentário

Para início de história, um pouco de história: as três forças em psicologia

Oficialmente a psicologia nasceu em 1879, em Leipzig, Alemanha, no laboratório de Wilhelm Wundt. Os seus estudos eram marcados por rigoroso controle metodológico e eram basicamente experimentais. Ele buscava compreender, de modo geral, como os estímulos físicos oriundos do ambiente eram percebidos pelo sujeito. Assim, eram registradas variáveis como intensidade de determinado estímulo (frequência da luz dentro do espectro visível, por exemplo), tempo de estimulação, peso, frequência e assim por diante.

Wundt deixou um eminente seguidor, conhecido por Titchener, que refinou seus métodos e focalizou ainda mais no controle dos estímulos, visando chegar a uma genuína ciência da mente. Esse primeiro momento da Psicologia cientifica ficou conhecido por Estruturalismo, pois seus representantes queriam identificar uma estrutura de funcionamento da mente por meio de métodos experimentais e controle sistemático de variáveis.

Depois do apogeu desta escola, surgiram, mais ou menos paralelamente, duas outras, ambas com enfoque cientificista: psicologia da Gestalt (na Europa, tendo em Max Wertheimer, Wolfgang Köhler e Kurt Kofka seus principais representantes) e Behaviorismo (nos EUA, tendo em John Watson e B. F. Skinner seus principais representantes).
O carro-chefe da primeira era o estudo da percepção (embora não fosse o seu único tema, como muitos pensam, erroneamente) e seu bordão mais conhecido é "o todo é mais do que a soma das partes". Seguindo este raciocínio, a escola da Gestalt (ou psicologia da forma) pregava o não-reducionismo e focalizava as relações complexas muito mais do que as partes isoladas de determinado fenômeno mental.

O Behaviorismo, por sua vez, defendia que o comportamento observável deveria ser, por excelência, o objetivo de estudo da Psicologia, não lhe cabendo outro. Termos e explicações que evocassem instâncias metafísicas (termos mentalistas) como causa do comportamento deveriam ser banidos. Dessa maneira, os behavioristas se preocupavam com os determinantes ambientais do comportamento, bem como suas relações com o organismo. A idéia era compreender a relação causal existente entre uma determinada resposta comportamental e o seu estímulo causador, assumindo que esta causa é sempre um estímulo físico e nunca algo imaterial (como "força de vontade", "mente", "desejo" e afins).

Tanto a Psicologia da Gestalt quanto o Behaviorismo (do inglês "behaviorism", comportamento) emergiram mais sistematicamente por volta de 1912, sendo que a primeira teve seu declínio (prematuro) influenciado pela II Grande Guerra, enquanto o Behaviorismo praticamente dominou a psicologia até meados da década de 1960. Nessa década ocorreu a chamada "revolução cogntiva" e o estudo científico da mente foi retomado e os chavões subjetivistas voltaram a fazer parte do cenário psicológico.

Fora do meio psicológico propriamente dito outra corrente se desenvolvia, tendo seu quartel general também na Europa. A psicanálise de Sigmund Freud, já em construção desde o fim do século XIX, teve seus desdobramentos continuamente revistos pelo criador até o ano de sua morte, em 1939. Diferentemente das outras, é uma abordagem não-cientificista baseada na experiência clínica e pessoal do seu criador. Foi o primeiro grande sistema teórico a tratar explicitamente da influência da sexualidade infantil (em seu sentido mais abrangente, para além do conceito de sexo/relação sexual) para a constituição psicológica do sujeito adulto. Freud se preocupava principalmente com as motivações inconscientes e seus modos de ação.

Depois de Freud o principal teórico da psicanálise foi Jacques Lacan, que revisou alguns conceitos originais e acrescentou outros. Até hoje esse sistema teórico exerce grande influência na prática clínica de vários profissionais que trabalham com psicoterapia e, talvez, seja o menos alterado desde a sua concepção original (o que alguns veem como falha, outros veem como sinal de qualidade...).

Em meados da década de 1940, mais fortemente no pós-guerra, torna-se crescente a preocupação com a figura da pessoa humana. A partir dessa nova preocupação, claramente reforçada pelos horrores da segunda grande guerra, vai se configurando a escola humanista-existencial. Tendo seu alicerce teórico firmado sobre a filosofia existencialista (de autores mais conhecidos, como Sartre, Heidegger e Kierkegaard, e de outros, como Büber e Merleau-Ponty) e sobre os ensinamentos humanistas (a partir dos quais o ser humano deve ser o centro de suas próprias ações, bem como o único responsável por sua vida, incluindo o seu sofrimento), o maior teórico e divulgador desta escola foi Carl Rogers. A psicologia humanista-existencial, assim como a psicanálise, também é um paradigma psicológico mais identificado com a prática clínica, embora tenha feito suas contribuições para outras áreas da psicologia, como a das organizações (principalmente a partir dos trabalhos de Abraham Maslow sobre motivação humana).

Com o passar do tempo, alguns sistemas psicológicos foram desaparecendo, sendo importantes apenas do ponto de vista histórico. Dos citados aqui, a escola estruturalista desapareceu por completo e a escola da Gestalt teve quase o mesmo destino. A diferença é que alguns dos seus achados científicos permanecem válidos e até os dias atuais.
O Behaviorismo, a Psicanálise e a Psicologia Humanista-Existencial foram as que mais influência exerceram (e ainda exercem) no pensar e no fazer psicológico, ficando conhecidas tradicionalmente, portanto, como as três forças em psicologia.
 
Não há tags relacionadas.
4 comentários enviados   |   Envie seu comentário

Aviso aos navegantes

Olá, caros internautas.

Eu sou Álvaro Guedes, psicólogo, psicoterapeuta e também o mais novo colunista do portal Nominuto.com. Como o nome sugere, esta é uma coluna dedicada à discussão de temas relacionados à psicologia e demais áreas que estudam o comportamento. Aqui vou postar textos sobre os aspectos históricos, técnicos e científicos desta ciência tão complexa. Também discuterei alguns assuntos relacionados ao nosso dia-a-dia, de interesse mais geral, evidenciando o ponto de vista da psicologia (e, por que não, o meu próprio).

Os leitores poderão participar através da seção de comentários, deixando suas perguntas sobre algum tema passado e/ou sugerindo temas para postagens futuras.

Por enquanto é isso. Amanhã  você poderá conferir o primeiro texto desta saga psicológica que se inicia agora.

Até lá.
 
Não há tags relacionadas.
7 comentários enviados   |   Envie seu comentário

Plantão de Notícias Nominuto