“Casos simples devem ser resolvidos em postos de saúde e nos hospitais regionais”, diz diretor do HWG
Em entrevista ao Jornal 96, o diretor do Hospital Walfredo Gurgel, José Renato Machado, explicou os motivos dos atendimentos de pequena complexidade.
Por Gabriela Duarte
Karla Larissa
Dos 1.000 atendimentos diários realizados pelo HWG, 800 chegam a ser de casos simples .
Parasitismo. Foi assim que o diretor do Hospital Walfredo Gurgel, José Renato Machado, classificou a relação dos hospitais do interior do estado com o HWG, principalmente no atendimento ambulatorial à população. “Esses casos poderiam ser resolvidos em postos de saúde e nos hospitais regionais”, defendeu o médico.
E vai mais além: “Falta vontade política das prefeituras que têm condições de fazer esse atendimento básico para descentralizar do Walfredo. Associado a isso tem também a questão que, ao longo da história da Saúde Pública do Rio Grande do Norte, se formou um certo parasitismo dentro dos hospitais estaduais, porque é uma conta que só quem paga é o governo do Estado e a Secretaria Estadual de Saúde”, explicou.
A declaração foi dada na manhã desta quarta-feira (10), ao Jornal 96. Durante a entrevista ele explicou o motivo da superlotação do HWG, onde 80% dos casos atendidos são de pequena complexidade.
O diretor do HWG explicou que, dos mil atendimentos diários realizados pelo hospital, 800 chegam a ser de casos simples como virose, febre, torção de pé ou para tomar glicose. Esses pacientes vêm, na maioria, da Grande Natal.
José Renato ainda explicou que, das 17.249 pessoas que chegaram ao HWG em setembro, 1.042 foram internadas. Isso mostra que a maioria dos pacientes não está com graves problemas de saúde, quando o Hospital Walfredo Gurgel deveria atender apenas casos graves e de urgência.
Grande Natal
Segundo José Renato, 74% dos pacientes encaminhados em setembro saíram da periferia da capital, já que não há em Natal outro atendimento 24 horas. “As pessoas não vão ao posto de saúde porque nunca encontram médicos de plantão. Aí, acabam indo para o Walfredo, já que lá eles têm certeza que serão atendidos”, explicou.
“Os municípios da grande Natal são os que mais encaminham pacientes com pouca necessidade. Não há um atendimento de qualidade 24 horas nesses municípios. O Hospital Deoclécio Marques, em Parnamirim, não tem especialistas de plantão, como oftalmologista e ortopedista. Em Macaíba, há um hospital completamente subutilizado. Eles falam que não tem leito, mas tem. A questão é que é mais fácil enviar para cá do que garantir um profissional preparado”, afirma José Renato.
Outro motivo apresentado por José Renato é a falta de vontade política nas cidades no entorno de Natal. “As cidades possuem uma autonomia financeira para aplicar na saúde os recursos transferidos, fundo a fundo, da conta do Ministério da Saúde. As cidade de menor porte, que são financiadas pelo governo do Estado, recebem os repasses, mas não aplicam em recursos para o atendimento de média complexidade.”
Largados
Outra questão é que muitos pacientes recebem alta, mas não tem como voltar para o município de origem. Alguns acabam esperando por dias, até que a ambulância da cidade traga outro paciente para que ele possa voltar para casa.
“Tem casos em que o paciente chega ao hospital apenas com um encaminhamento por escrito. O hospital sequer sabe que essa pessoa está vindo. Em outros casos, a situação do paciente se complica, porque ele não recebeu atendimento na hora, nem no trajeto de horas dentro da ambulância para chegar aqui”, explica o diretor.
Audiência pública
O diretor do HWG também citou a audiência pública que será realizada no dia 31, às 8h30, no auditório da Procuradoria Geral de Justiça, devido à alta demanda de atendimento ambulatorial no Hospital, que deveria ser voltado para urgência e emergência. “Essa demanda levou o Ministério Público a instaurar um inquérito civil para investigar as causas e as possíveis soluções para o problema, que é responsável pela superlotação do hospital”, disse.
O inquérito foi instaurado pela promotora da saúde Elaine Cardoso, baseado em dados levantados junto à Secretaria de Saúde Pública do RN (Sesap), apresentados pelo deputado estadual Fernando Mineiro (PT).
Segundo os dados, que correspondem ao período de janeiro a julho de 2007, foram feitos 123.974 atendimentos simples, sendo que 107.682 foram na Grande Natal e, somente em Natal, foram 96.425, ou 77,78% do total.