Muitas mulheres sofrem no período que antecede a menstruação; especialistas defendem diferentes formas de lidar com a TPM.
Por Luana Ferreira
Fotos: Vlademir Alexandre
A artesã Elizete Souto aprendeu a controlar a tensão pré-menstrual com exercícios e alimentação.
Você já perguntou à mulher ao lado qual hormônio está regendo a vida dela hoje? Ok, você corre o risco de ser encarado como alguém de outro mundo, afinal, ninguém fica prestando atenção ao vai e vem da maré hormonal que banha nossas mentes todos os dias. Mas deveria.
Para o ginecologista e homeopata paulista Eliezer Berenstein, dançar a "dança dos hormônios" com as mulheres, o que significa assumir atitudes diferentes em cada fase, significa ter inteligência hormonal interpessoal. É como se a "fase estrogênica", mais sensual, exigisse um tango, e na "progestogênica", maternal, caísse melhor uma valsa. Ou funk carioca e música clássica, depende do freguês.
Ele é autor do livro Inteligência Hormonal da Mulher e condena a supressão do ciclo menstrual, por considerar que o marasmo da estabilidade hormonal - como acontece nos homens - traz uma tremenda burrice. Por outro lado, a montanha russa dos hormônios da espécie feminina seria o "pulo do gato" que traria sensibilidade, capacidade de resolver problemas e o famoso "sexto sentido".
"Transformar mulheres em homens [interromper o ciclo menstrual] é tão machista quanto dizer que uma mulher não pode ter cargos de chefia numa empresa por ser diferente dos homens", avisa o ginecologista. A recomendação vai de encontro à atitude de milhares de mulheres que viram na opção de parar de menstruar uma possibilidade não de mudar de sexo, mas de ter liberdade.
"Minha vida parava quando menstruava", lembra a estudante Maiara Cruz, que, por indicação médica, resolveu interromper o ciclo (fazendo pausas a cada cinco meses) há 3 anos, quando tinha apenas 16. Ela sentia cólicas fortes, dores de cabeça, inchaço no corpo e alternava reações de agressividade com extrema sensibilidade emocional, sintomas típicos da TPM - Tensão Pré-Menstrual. A instabilidade gerava atritos em casa e atrapalhava os estudos.
O médico dela faz parte da corrente encabeçada pelo ginecologista baiano Elsimar Coutinho, autor de Menstruação: A Sangria Inútil, no qual questiona conceitos seculares para tenta provar que modernidade não combina com os desconfortos da TPM. "Menstruar não é normal, nem mesmo desejável", escreve ele a cada artigo ou livro que publica. Coutinho explica que, com o andar do bonde da história, a mulher parou de emendar uma gravidez na outra - quando ficava a maior parte do ano regida pelo maternal progestogênio - para ficar suscetível às imprevisibilidades do sobe-e-desce dos estrogênios.
Se para Coutinho livrar-se do sangramento "inútil" significa dar um passo à frente na evolução humana, para Berenstein, da "dança dos hormônios", seria mais uma forma de se submeter ao regime repressor capitalista. "Existem muitos interesses econômicos em suprimir a menstruação", escreveu o ginecologista, para quem a competitividade do mundo moderno não admite "perda de tempo" ou, para algumas, literalmente, a loucura dos sintomas da TPM.
"Já afrontei um guarda de trânsito depois de ultrapassar um sinal vermelho", conta a artesã Elizete Souto, que sofre de TPM "desde que se começou a se falar nisso". Ela fica irritada, agressiva e cai facilmente "no fundo do poço" nos dias que antecedem sua menstruação. Suprimir os hormônios, entretanto, está fora de cogitação. "As pessoas têm medo da dor", opina. Ela consegue "administrar" o período com exercícios físicos regulares e cuidado na alimentação. Seguindo o raciocínio dela, os sintomas são mais um reflexo do estilo de vida do mundo moderno do que propriamente uma fatalidade natural.
"Para muitas mulheres, o sangramento é sinônimo de feminilidade, de não gravidez e fertilidade."
Se Maiara e Elizete entrassem em seu consultório, a ginecologista Yacha Barros provavelmente indicaria tratamentos diferentes para as duas. "Procuro responder à questão: é bom para a mulher menstruar?" Ela não acredita que a interrupção do ciclo provoque alterações no comportamento feminino, e, respeitadas as contra-indicações, adia tranqüilamente "aqueles dias" para depois do aguardado fim de semana com o namorado em Fernando de Noronha, por exemplo. Por outro lado, não considera a menstruação uma sangria inútil: "Para muitas mulheres, o sangramento é sinônimo de feminilidade, de não gravidez e fertilidade."
Pelo jeito, optar ou não pela TPM tem mesmo a ver com a atitude diante de um salão: há os que nasceram para dançar, os que conseguem arriscar uns passinhos, os que passam uma tremenda vergonha e aqueles que, largados em uma cadeira qualquer, preferem manter distância dessa loucura - mais uma - humana.
Tipos de TPM
Tipo A: predomina a ansiedade, irritabilidade, agressividade, hostilidade e pavio curto. Tipo D: resulta em depressão, tristeza, desmotivação, sonolência e auto-estima baixa. Tipo C: compulsão por ordem, comida e doces. Tipo H: há retenção de líquido, dor de cabeça, sobrepeso, inchaço.
Para saber mais
A Inteligência Hormonal da Mulher Eliezer Berenstein Editora Objetiva 180 páginas R$ 30
Menstruação: a sangria inútil Elsimar Coutinho Editora Gente 177 páginas R$ 30
*Matéria publicada no jornal Nasemana (edição 32 - 1º a 7 de novembro).