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Enviada em 31/08/2008 às 08h00min

Na “cidade grande”, em busca de um futuro melhor

Diferente do que se imagina, os estudantes assumem uma rotina cheia de responsabilidades.
Vlademir Alexandre
Marcos Vinícius saiu de Coronel João Pessoa, a 460km de Natal .
Pegue cinco jovens de 19 a 21 anos que acabaram de ingressar na universidade, separe-os de suas famílias e peça para que dividam uma casa pelos próximos cinco anos. O resultado são festas até o amanhecer, rotina desvairada e dor de cabeça para a família. Certo? Errado. 

Os estudantes que vêm do interior em busca de um diploma estão preocupados com o futuro, adoram depender dos pais e suspiram entediados ao ouvir o trinômio 'sexo, drogas e rock'n'roll' que marcou gerações passadas. Rebeldia, definitivamente, não faz suas cabeças.
 
É assim com Victor Hugo, de Currais Novos, estudante de engenharia elétrica, que há dois anos divide o apartamento da família com mais quatro conterrâneos: Aryella, estudante de direito, Fernando Jackson, que cursa enfermagem, Anne Karoline, de administração, e um segundo Victor Hugo, também de direito.
 
Não há bagunça, louça suja na pia ou caixas de pizza entupindo a lixeira. Na porta da geladeira, uma lista de tarefas determina quem deve lavar a louça, limpar a casa ou fazer o almoço naquele dia. As atribuições, iguais para homens e mulheres, são organizadas num sistema de rodízio. 

A lista de tarefas, a feira quinzenal de mantimentos, a divisão dos custos da casa e assuntos extras são decididos em reuniões, geralmente mensais. Não há brigas. Tal qual uma família, almoçam juntos, fazem bolo de aniversário e vêem televisão à noite. Saem pouco, por "preguiça e falta de carro", e às vezes chamam amigos para festinhas. Nos sábados voltam à casa dos pais onde, a 153Km da capital, é lavada a roupa suja da semana. 

Marcos Vinicius, 18 anos, não tem a mesma sorte. Ele é de Coronel João Pessoa, distante 460Km de Natal. As visitas aos pais ficam restritas apenas às férias ou aos feriados prolongados. Saudades? "Só de vez em quando. Minha preocupação agora é com os estudos", diz, determinado. Ele mora num quarto-sala-cozinha de 70m² em frente à Universidade Potiguar, onde cursa odontologia. O espaço e a conta no restaurante ao lado, onde almoça, foram negociados pela mãe. 

Apesar de ter se mudado há apenas seis meses para Natal, Marcos não teve dificuldades em encontrar companhia. Seus amigos de Coronel João Pessoa, assim como boa parte dos jovens de classe média e alta das cidades do interior do estado, também migraram para a cidade em busca de estudos. 

São 43 alunos do interior, contra 7 da capital só em sua sala de aula. O número se repete nos cursos particulares de administração, direito e enfermagem dos curraisnovenses. Dos cinco moradores da república, apenas Victor Hugo conseguiu entrar na Universidade Federal do Rio Grande do Norte - e é o único do interior em sua sala. Os demais, a exemplo de Marcos, cursam UnP. 

Apenas 25% (1.010) das vagas oferecidas pela UFRN no ano passado foram preenchidas por estudantes vindos do interior, apesar de 7.377 deles terem se inscrito no concurso, representando 31% das vagas. Restam aos reprovados duas opções: ou ingressam numa faculdade ou universidade particular ou tentam mais uma vez a vaga na federal. Voltar para o interior, nem pensar. 

É uma roda viva: os jovens fogem da falta de infra-estrutura do interior, que fica menos competitivo e não atrai investimentos. A população, concentrada em crianças e idosos, se fragiliza. 

A solução seria descentralizar o ensino, distribuindo campus em cidades pólo do estado, ensina o economista José Ademir, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Essa é uma das intenções do Programa de Apoio ao Plano de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais - REUNI, lançado ano passado pelo Governo Federal. Foi através do REUNI que a UFRN criou, este ano, quatro novos cursos em Caicó, Currais Novos e Santa Cruz, abrindo 180 novas vagas na região. 

A iniciativa, no entanto, está longe de resolver a questão. Existem outros motivos, além da universidade, que devem manter esses jovens na capital ainda por muito tempo depois de formados. "A gente se acostuma com o que é bom", revela Ariela. "Lá não há mercado de trabalho", avalia Victor Hugo. "Gosto de lá, mas o futuro está aqui", prevê Marcos Vinicius. 

Enquanto o futuro não vem, os pais pagam as contas dos estudos, desembolsando cerca de 1.500 reais por mês para cada filho, inclusos os custos com a universidade. Para os jovens que vêm do interior, conquistar independência financeira antes de se formar também está fora de questão.

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