Cidades Enviada em 24/08/2008 às 13h45min
O peso da mão que amedronta
Em seis meses, pelo menos 426 crianças foram vítimas de maus tratos dentro da própria família. Geralmente, a agressão parte das mães e, mesmo assim, o filho anseia conquistar o amor materno.
Vlademir Alexandre


Em seis meses, 223 casos de maus tratos foram cometidos pelas próprias mães.

"Pare doutora, senão ela vai sair do papel e vem me pegar”. Essa frase foi dita por uma criança de apenas quatro anos de idade, quando uma psicóloga pediu que ela desenhasse a figura da mãe em um pedaço de papel. O motivo do pavor é um só: maus tratos. Diariamente, são registrados, em média, 12 casos de violência contra crianças só na capital do Estado.
De acordo com dados do SOS Criança, programa de apoio às vitimas da violência doméstica, de janeiro a junho deste ano foram registrados 426 atendimentos por maus tratos, 558 por negligência e 140 por espancamento, que, para os assistentes sociais do programa, são casos em que as vítimas sofrem lesões corporais graves.
Para a psicóloga Rosana Ferreira Guedes Marinho, os maus tratos são constantes na maioria das famílias, principalmente, nas classes menos favorecidas. “No entanto, na classe alta o problema também existe, mas as pessoas escondem”, ressalta Rosana, que atende crianças no Instituto Técnico-Científico de Polícia Civil (Itep), explicou alguns dos motivos que levam pais ou parentes a agredirem meninos e meninas indefesos.
“Às vezes falta dinheiro, às vezes falta comida ou estrutura familiar. Com isso, o ambiente doméstico se torna estressado e os pais acabam descontando a raiva nos mais fracos, no caso as crianças. Mas, claro, nada justifica a violência. Uma família em que os filhos são maltratados, nós classificamos como uma família doente”, comenta.
A psicóloga frisa que violência na infância resulta em violência na fase adulta. Segundo Rosana Guedes, pais que batem são pais que apanharam no passado. “Se eles agridem os filhos, esses carregarão em sua formação o peso da violência e, caso não haja um acompanhamento psicológico, poderão se tornar pessoas agressivas”, diz.
Como a maioria dos casos de maus tratos é cometido dentro da própria casa e nenhum pai quer admitir que agride seu filho, são as pessoas de fora, mas que participam do dia-a-dia das crianças, que devem observar o comportamento e denunciar os abusos, seja um vizinho, um parente ou até mesmo na escola, onde são notadas as principais características expressadas pelas vitimas de violência.
“Crianças que sofrem maus tratos são retraídas. A auto-estima é baixíssima, geralmente os olhos estão sempre baixos. Elas ficam quietas e tem rendimento escolar inferior à média. Ou seja, são meninos e meninas que desejam muito pouco da vida. Então, são pessoas do convívio dessas vitimas que devem ficar atentas aos sinais”, afirma Rosana Guedes.
De acordo com a psicóloga, o medo expressado pela criança de quatro anos durante o exercício simples de desenhar em um papel representa a forma submissa com que ela se coloca frente à figura de um adulto, principalmente, tratando-se de um agressor. “Até por uma questão física, a criança já tem no adulto a imagem de uma pessoa poderosa. A partir do momento em que a criança passa a sofrer literalmente com a ‘força’ dos agressores, ela se vê acuada e sem nenhuma expressão”, frisa.
As estatísticas do SOS Criança apontam ainda para uma situação que pode parecer absurda para a maioria das pessoas. Dos 426 casos de maus tratos registrados nos seis primeiros meses deste ano, 223 foram cometidos pelas próprias mães. A coordenadora do programa, Genilda Araújo, explica que isso acontece devido ao fato da figura materna ser muito mais presente na vida dos filhos.
“Na maioria desses casos, a mãe já foi abandonada pelo companheiro e tem que cuidar dos filhos sozinha. A gente observa que dos 558 casos de negligência, 434 são referentes às mães, mas é importante ressalvar que isso acontece justamente pelo fato delas precisarem sair de casa para trabalhar e acabam deixando os filhos de lado”, afirma.
De acordo com a psicóloga Rosana Guedes, apesar dos números apontarem que as mães são as principais responsáveis pela negligência e maus tratos, o amor que os filhos têm por elas é incondicional.
“A mãe pode passar o dia fora de casa, não se preocupar com a saúde dele, com a educação e sequer expressar algum gesto de carinho pela criança, mas mesmo assim o filho continua amando a mãe. É uma espécie de luta pela conquista, quanto mais ele é rejeitado, mais ele sente necessidade de alcançar o amor da figura materna”.
SOS Criança
O programa SOS Criança funciona 24 horas por dia recebendo denúncias e visitando crianças vítimas da violência doméstica. A coordenadora Genilda Araújo destaca que a instituição registra uma média de 12 denúncias por dia.
“Nós recebemos a informação, vamos até o local e, após constatada a situação de maus tratos, encaminhamos as crianças para abrigos, para a delegacia ou até mesmo para o hospital, devido à gravidade das agressões”, diz.
As pessoas que tiverem conhecimento de casos de abusos podem realizar denuncia anônima através do telefone 0800-84-2000. O endereço do SOS Criança é rua Cristal da Rocha, 16, Potilândia.
*Matéria publicada no jornal Nasemana em 16/08/2008.
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