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Enviada em 02/11/2008 às 11h46min

Quem ama, mata?

Morte de jovem em Santo André chama atenção para crimes passionais, que vitimam principalmente mulheres.
Ilustração: Marcelo Antunes
Morte de jovem em Santo André chama atenção para crimes passionais.
Quem ama, mata? Essa é a pergunta que muitos fazem desde o fim trágico do mais longo caso de cárcere privado do estado de São Paulo. Uma jovem de apenas 15 anos de idade foi mantida refém em seu apartamento pelo ex-namorado da segunda-feira (13) até a sexta (17). O ex-namorado atirou na cabeça e na virilha da vítima, matando-a. O rapaz, de 22 anos, não admitia o fim do namoro. 

Mas, até que ponto o sentimento de amor se transforma e passa a ser encarado como ciúme, obsessão, posse? “É tênue a linha que divide essas coisas, por causa da cultura machista. O amor é confundido com o sentimento de posse, rejeição e até mesmo honra”, declara a antropóloga Analba Brasão, coordenadora da Coletivo Leila Diniz.

O Coletivo Leila Diniz é uma organização civil feminista fundada em 2002, em Natal, por um grupo de lideranças com trajetória reconhecida nacionalmente. 

Analba Brasão explica que na maioria dos casos das relações afetivas conjugais o ponto crucial é quando um dos dois resolve romper a relação. “Em nossos estudos observamos que são recorrentes esses homicídios quando apenas um deseja pôr fim ao relacionamento”.

Outro detalhe apontado pela antropóloga é a questão da simbologia. “Normalmente os tiros são dados no rosto e na região da virilha. Isso acontece porque eles tentam aniquilar as partes do desejo do corpo”, esclarece. 

Ela questiona: “Por que nos casos de crimes passionais o criminoso muitas vezes é tido como possuidor de uma patologia ou até mesmo desvio psicológico? Para o feminismo, isso é tido como perda de posse e não doença ou transtorno psicológico”. 

No Rio Grande do Norte, somente no primeiro semestre deste ano, a Organização Coletivo Leila Diniz registrou 25 crimes passionais.

Um dos casos emblemáticos ocorreu em 2003 quando uma professora da Universidade Estadual do Rio Grande do Norte (UERN) foi assassinada pelo companheiro após ela optar pelo fim da união, atirando-a do quinto andar de um edifício.

Outro caso aconteceu recentemente na Vila de Ponta Negra. Uma jovem foi assassinada com tiros nos pés e na cabeça pelo ex-namorado. Motivo do crime: a jovem havia terminado o relacionamento e o rapaz não aceitava. 

Apesar de a maioria dos crimes ser cometido por homens, a mulher também os comete. “Só para se ter idéia, fui atrás dele transtornada com uma faca na mão”, conta K. (nome fictício) sobre uma das confusões que teve com o namorado. No caso dela, a situação não foi levada ao extremo. K. afirma que seu temperamento é possessivo e que por esta razão procurou o auxílio de um psicólogo. “O tratamento ajuda a domesticar minha raiva”. 

No livro “A Paixão no Banco dos Réus”, a procuradora Luiza Nagib Eluf, do Ministério Público de São Paulo, afirma: “As mulheres, geralmente, não matam. Existem casos, mas são raros. Mulheres são menos afeitas à violência física. A história da humanidade registra poucos casos de esposas ou amantes que mataram por se sentirem traídas ou desprezadas. Essa conduta é tipicamente masculina”. 

Segundo a delegada Rossana Pinheiro, coordenadora estadual da Defesa dos Direitos da Mulher e Minorias, a média anual de crimes passionais contra a mulher no estado é de 10.300 casos. Desses, 80% dos casos são registrados nas cinco Delegacias da Mulher espalhadas pelo Rio Grande do Norte. 

Em Natal, até junho, foram 3.900 registros. “Esse é um número bem significativo. Apesar de a mulher ocupar cada vez mais espaços importantes, nós vivemos ainda numa cultura machista, em que o espaço doméstico é dividido com o homem”, opina. 

A delegada acredita que o que mantém a mulher numa relação violenta é a dependência emocional, e alerta: “Se ela se sente prisioneira em casa, não toma decisões, está isolada da família e amigos, essas são situações que sinalizam que pode estar havendo violência”.

Dados da Secretaria Nacional de Políticas para Mulheres apontam que 70% dos crimes contra a mulher aconteceram por alguém com quem ela tem ou teve relação de afeto. Ainda segundo dados da Secretaria, geralmente é o homem o principal agressor passional.

“Quando a mulher chega a um caso extremo de matar é porque ela já entrou em um estágio de desespero e que só vê como último recurso destruir seu agressor para se proteger”, defende. 

Para a psicóloga do Centro de Referência Mulher Cidadã, Iara Lemos, existem dois padrões identificados em pessoas que cometem crimes passionais: o de dependência e o de possessão. Segundo ela, as pessoas que se encaixam no primeiro são inseguras e projetam no outro sua fonte de vitalidade.

O segundo perfil tem traços possessivos, obsessivos, com necessidades de controle e autoridade. Quando identificam a sensação de perda do objetivo de desejo, perdem o controle e agem com impulsividade. 

Ela afirma que, na maioria dos crimes passionais, o agente agressor costuma comportar-se de maneira a querer dominar e controlar a vítima, tratando o outro com possessividade. “Muitas vezes, esses indivíduos, por vários motivos, apresentam, dentre as características de personalidade, uma baixa tolerância à frustração e baixa auto-estima, o que numa situação de estresse crítica (um rompimento do vínculo amoroso, por exemplo) pode desencadear uma reação agressiva. 

Esta situação em grau exagerado e freqüente pode se constituir em um “problema de relacionamento” ou em um transtorno psicológico e, isto sim, é passível de intervenção e tratamento psicológico e, às vezes, aliado a um tratamento psiquiátrico”. 

Entretanto, Iara Lemos defende que não se pode responsabilizar, apenas, o transtorno mental de um indivíduo por todos os seus atos. “Acredito que, mesmo que comprovado o transtorno psicológico, esses indivíduos sejam passíveis de punição e, em alguns casos, de reabilitação social”, conclui.

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