2016: O Ano da Misericórdia

Lígia Limeira,

O Papa Francisco, certamente por amor à humanidade, resolveu proclamar um ‘jubileu extraordinário’ pautado na Misericórdia de Deus, que se iniciou em dezembro do ano passado e se encerrará em novembro deste ano.

Convém ressaltar que os anos jubilares são considerados santos, ocorrendo a cada 25 anos, e que o próximo somente aconteceria em 2025. O Papa, valendo-se da autoridade que lhe é conferida, optou por abreviar o lapso temporal e por conclamar os fiéis a se voltarem mais para Deus, para o bem, para a união e para o perdão.

Segundo o pontífice, “os anos jubilares levam uma palavra e um gesto de consolação aos pobres; anunciam a libertação aos prisioneiros das novas escravidões da sociedade contemporânea; devolvem a vista aos que não conseguem ver porque vivem curvados sobre si mesmos; e restituem dignidade àqueles que dela se viram privados".

As palavras de Francisco denunciam a angústia por tantos experimentada, relacionada à degradação das famílias, ao individualismo crasso, à crescente disseminação do ódio, da intolerância e da violência, ao consumismo desenfreado, à suplantação do ‘ter’ pelo ‘ser’ e aos sentimentos de menos valia e de solidão, tão presentes num mundo dito globalizado.

E, de quebra, há as ferramentas tecnológicas, que tanto nos auxiliam no dia a dia, mas que causaram um natural e não menos progressivo afastamento entre as pessoas. Nesse contexto, um bom exemplo é o que foi divulgado pela ONG britânica ChildLine, que auxilia crianças e adolescentes quanto ao uso da Internet e às pressões modernas dela decorrentes.

De acordo com aquela instituição, que mantém um sistema de aconselhamento que funciona 24 horas por dia, as maiores queixas recebidas dizem respeito a dificuldades com familiares, à baixa autoestima, à infelicidade, ao bullying, ao cyberbulling e à automutilação. No campo das mídias sociais, a ChildLine verificou que a pressão para acompanhar amigos e ter a vida perfeita estão deixando profundamente infelizes e solitários a maioria dos jovens que buscam apoio junto à Organização.

Há mais um dado, tão alarmante quanto os demais: pelo menos um em cada dez adolescentes na Grã-Bretanha já participou ou produziu vídeos com sexo explícito. O estudo demonstrou que, ao tempo que tais adolescentes, com idades entre 12 e 13 anos, disseram-se chocados com as imagens explícitas veiculadas, demonstraram sentir necessidade de reproduzi-las para serem aceitos.

De fato, estamos vivendo dias estranhamente antagônicos. Há que se questionar se os incomensuráveis avanços que obtivemos ao longo dos anos se sobrepujam ao caos desestruturante que vem permeando as relações sociais. As sensações que ficam são as de desalento e desesperança.

Porém, sempre residirão em nós os poderes da restauração e da transformação. Que a sinergia emanada do Ano Santo da Misericórdia contamine a nós todos, humanos, para que voltemos as nossas faces para a verdade e os valores inerentes ao espírito, fazendo-nos acordar para a necessidade de revermos a nossa trajetória, refazermos a rota e avançarmos rumo a uma realidade que nos libertará, permitindo que vivamos como irmãos. Lembre-se: a maior das caminhadas começou pelo primeiro passo.


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