A Face Invisível da Moeda

Lígia Limeira,

Pesquisa realizada pela Confederação Nacional da Indústria e pelo Instituto Data Popular comprovou as fundadas suspeitas acerca da visão que o povo brasileiro tem da corrupção. O estudo, realizado durante a primeira quinzena de janeiro deste ano, contou com um contingente de 3.500 entrevistados, distribuídos em 146 cidades do país.

O levantamento revelou que a esmagadora maioria dos participantes considera a corrupção um dos  mais graves problemas que assola o país, declarando profundo repúdio à pratica, ao tempo que culpa o Governo e os políticos pela crise sem proporções na qual estamos imersos. Por outro lado, um número expressivo de entrevistados – 7 entre 10 – admitiu a prática diuturna de pequenas infrações, como adquirir meia-entrada se utilizando de carteira de estudante alheia, prestar informações falsas por ocasião do preenchimento da Declaração de Imposto de Renda e adquirir produtos piratas.

E a incoerência não para por aí. O mesmo estudo demonstrou que apenas 3% dos entrevistados se consideram agentes, ativos ou passivos, da corrupção. Isso somente reforça o quanto o brasileiro é incoerente quanto ao que defende e alardeia. Donos de uma visão míope e distorcida, homens e mulheres deste país se arvoram na condição de paladinos da justiça e da moralidade sem se aperceberem que muito pouco diferem daqueles que estão execrando. E isso, lamentavelmente, ocorre em todas as camadas sociais, independentemente de grau de escolaridade.

Na verdade, a corrupção tem sido utilizada como instrumento de manutenção do poder. Não raros são os casos em que o flagrante denuncismo que desde sempre vivenciamos objetiva apenas o enfraquecimento de quem está no exercício do poder, estando encoberto por aspirações pouco invejáveis, vez que o que se deseja é o mesmo poder que se ataca. Aliás, esse viés comportamental vem se proliferando de forma assustadora, desdobrando-se em cadeias complexas, até alcançar todas as esferas da vida em sociedade.

Mas, afinal, onde figuramos nesse cenário? Na maioria das vezes, não nos enxergamos ali. Sentimo-nos dissociados de tão odioso contexto. É que a nossa cultura condena com mais rigor os corrompidos, e não os corruptores. Assim, se um membro do Poder Judiciário, por exemplo, facilita a vida de alguém em troca de favores de qualquer espécie e isso é descoberto, este é condenado e hostilizado com veemência, mas pouco, muito pouco, fala-se do corruptor que, na verdade, é qualquer um de nós.

Outro ilícito muitíssimo comum em solo canarinho e que vem a ilustrar com maestria essa realidade é o recebimento de propinas por parte de agentes públicos. Aqueles que se beneficiam com os recursos - os corrompidos - são vistos como verdadeiros crápulas, enquanto que aqueles que repassam os mesmos recursos, frutos da corrupção em si - os corruptores -, são praticamente invisíveis, dignos de pouquíssima ou nenhuma atenção.

Um dos agentes que mais fortemente contribui para sedimentar essa cultura é a mídia parcial, aquela que propala meias verdades, omitindo detalhes e facetas que poderiam despertar o senso crítico comum, descortinando o véu que quase sempre encobre o equilíbrio e a lucidez.

Porém, é indiscutível que essa percepção, de cunho cultural, está fortemente arraigada em nosso meio e que qualquer mudança a ser operada nesse quadro está diretamente relacionada ao desejo e à ação com vistas a romper com tal paradigma. Como é algo que depende do coletivo, urge que despertemos para essa realidade. E que comecemos pelo começo. E onde está o começo? Uma boa pista se perfaz a partir da inscrição registrada no Oráculo de Delfos: “Ó homem, conhece-te a ti mesmo e conhecerás os deuses e o universo!” Ao nos conhecermos intimamente, reconheceremos a verdade. Ao reconhecermos a verdade, reconheceremos o caminho que deveremos tomar para nos posicionarmos como verdadeiros concidadãos. E isto nos libertará. Alguém ousa começar?  


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