De Alzira aos Dias Atuais: O Legado é a Liberdade

Lígia Limeira,

Este é o tema da Semana Alzira Soriano, instituída no Município de Lajes/RN pela Lei Municipal nº 509/2009, de autoria do então vereador Canindé Rocha, e que se presta a homenagear a primeira prefeita do Brasil e da América Latina, que dá nome ao evento, bem como a promover discussões sobre o papel da mulher na sociedade atual.

Viúva aos 22 anos, Alzira Soriano de Souza, mãe de três filhos pequenos, ao invés de se abater foi à luta: assumiu a administração da Fazenda Primavera, de propriedade do seu marido, localizada em Jardim de Angicos/RN, à época distrito do Município de Lajes, que contava com significativo número de vaqueiros e lavradores, num tempo em que a mulher tinha um papel eminentemente secundário, que sequer lhe assegurava o direito ao voto. Desenvolta, cumpriu o novo mister com maestria. Sob o comando da nova administradora, as terras prosperaram a ponto de lançar sobre ela uma aura de admiração e respeito, 

Em 1927, porém, ao disputar o cargo de Governador do Estado do Rio Grande do Norte, o advogado e jornalista Juvenal Lamartine lançou, dentre as propostas de sua plataforma de governo, uma bandeira de luta pelos direitos das mulheres, tanto no que tangia ao seu ato de votar quanto no que se referia a eventuais candidaturas. Eleito, o ilustre potiguar cumpriu a promessa de campanha e notabilizou-se pelo pioneirismo na concessão do direito de voto à mulher.

Diante desse cenário, Alzira, impelida pelos sufragistas da época e indicada pela advogada feminista Bertha Lutz, aceitou concorrer ao cargo de prefeito de Lajes pelo Partido Republicano nas eleições de 1928, disputando-o com Sérvulo Pires Neto Galvão. Saiu vencedora do pleito, com 60% dos votos, nada obstante as constantes chacotas e ofensas que recebeu, inclusive a de que mulher no comando de uma administração somente poderia ser prostituta.

Por todo contexto, e por lidar quase exclusivamente com um universo masculino, a norte-rio-grandense era conhecida por seu estilo duro, do tipo circunspecto e que não levava desaforo para casa, comportamento que destoava das mulheres da sua época e suficiente para lhe condenar a uma vida marcada pela intolerância e pelo preconceito.

Alzira tomou posse no cargo em 1º/1/1929, mas ali permaneceu por pouco tempo, devido à Revolução de 1930 e a sua dissensão quanto ao governo de Getúlio Vargas. Nos sete meses que permaneceu no cargo, com um secretariado 100% masculino e enfrentando toda a sorte de dificuldades, conseguiu construir estradas e escolas, otimizando, também, a iluminação pública a motor do Município de Lajes.

Com a redemocratização, em 1945, a valente potiguar retornou à vida pública, como vereadora do Município de Jardim de Angicos. Foi eleita para mais duas legislaturas, oportunidade em que esteve à frente do partido União Democrática Nacional, tendo assumido, inclusive, a presidência da Câmara dos Vereadores.

Alzira Soriano de Souza morreu em 28 de maio de 1963, aos 66 anos, vitimada pelo câncer. A casa em que nasceu, em Jardim de Angicos, transformou-se em um museu que expõe a memória de sua trajetória política.

O evento que acontece em Lajes, hoje e amanhã (28 e 29/4), não poderia ser melhor nominado. Alzira, uma mulher à frente do seu tempo, que, por sinal, nasceu em um 29/4, há exatos 119 anos, deixou um legado que aponta e sempre apontará para a liberdade. Mais precisamente para a liberdade da mulher, conquistada a duras penas, como as que ela, bravamente, enfrentou, de cabeça erguida, consciente do seu papel na sociedade.

Ainda falta muito para que o direito à igualdade entre os sexos se perfaça em sua plenitude, mas os caminhos poderão ser desbravados a partir de uma luta diuturna e incansável, como o que percorreu essa grande e valorosa mulher. Decerto, assim como aconteceu com ela, os avanços serão alcançados e figurarão na história do processo democrático deste país. Que as Alziras se unam em torno da sua efetiva libertação!


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