O Começo, o Meio e o Fim

Lígia Limeira,

Segundo Aristóteles, o homem é um animal político. O filósofo grego, preceptor de Alexandre, o Grande, defendia, de forma ardorosa, que nem todos os membros de uma sociedade podem ser considerados cidadãos, assim concebidos como aqueles que participam ativamente da elaboração e da execução das leis, monitorando-as e fiscalizando-as, garantido o seu espaço nos poderes Legislativo, Executivo e Judiciário.

Para ele, quem não viesse a cumprir esse honroso papel, traduzir-se-ia em mero morador de uma localidade, estando condenado a suportar o que lhes fosse carreado pelo destino, excetuando-se, nesta seara, as crianças e os idosos, estes por já terem cumprido o seu papel na coletividade e, em virtude da avançada idade, estarem isentos de qualquer mister;  aqueles, por não estarem aptos ao exercício das funções cívicas, considerando-se a sua parca maturidade.

Em sua tese, o filósofo sustentava que a comunidade política era soberana, inclinando-se à busca de um fim como meta. Para tanto, necessário seria que o homem fosse livre, dotado de inteligência e usufruísse direitos naturais, que o habilitariam ao comando.

Dúvidas não persistem quanto à acuidade desse grande homem, que viveu em meados dos anos 300 a.C, de acordo com o calendário gregoriano, e que, aos 18 anos de idade, já questionava as teorias do seu mestre, Platão. Tanto o é que a sua tese não apenas permanece atual, mas bafeja ares futuristas.

Ora, se em pleno século XXI ainda não conseguimos eleger critérios para estabelecer a nossa meta principal enquanto povo, o que dizer dos meios adequados para atingi-la? É bem verdade que buscamos melhorias para o país, como saúde, educação de qualidade, moradia e segurança. Porém, tais aspirações estão mergulhadas num todo e as lutas que temos travado ao longo do tempo são sectárias, enfraquecendo os resultados.

O momento atribulado que vivenciamos, onde sobejam delações, corrupção, sujeira e lama, gerou uma indignação coletiva, que resvalou em desavença, fúria e intolerância, não apenas contra o sistema, mas principalmente contra grupos de pessoas considerados oponentes, por defenderem ideias contrapostas. Isso, por si só, comprova que não há um plano geral pré-concebido ou, que seja, uma meta traçada para se chegar a um determinado fim.

As pessoas, paradoxalmente à racionalidade que ostentam, comportam-se de modo sistematizado, pautando-se, infelizmente, pelo pior modelo: o da verdade absoluta, apreendida do ouvir dizer, quer seja a partir da mídia veiculada, indiscutivelmente limitada e tendenciosa, ou dos grupos a que pertencem. Poucos se dão ao trabalho de refletir, pesquisar ou discutir os fatos, os porquês e possíveis saídas para os problemas apresentados. Muito ao contrário. Normalmente, municiam-se dos argumentos que acompanham as ‘verdades’ em que querem acreditar e as reproduzem, sem se importarem com as inexoráveis consequências da sua leviandade.

Daí, inicia-se um ciclo vicioso, caracterizado por desrespeito, achaques e violência. Isto simplesmente porque grupos divergem entre si, quando, na verdade, a dialética é o caminho para a formação de uma visão crítica e emocionalmente saudável.

E, por falar em dialética, partiu de Platão a ideia embrionária para a construção da tese aristotélica no que diz respeito à verdadeira cidadania. O mestre ensinou ao discípulo que o método dialético de perguntas e respostas seria o único caminho para conduzir o indivíduo à verdade e, por via racional, ao conhecimento.  

Partindo dessa máxima, Aristóteles construiu outro axioma, qual seja, o de que a cidadania não pode se dissociar da liberdade (“A cidade é soberana porque visa o bem comum, soberano. O homem livre é soberano porque é senhor de si.”).

Estamos caminhando nesse sentido? Comecemos pelo começo: duas das notícias mais acessadas no Portal UOL nos últimos dias versam sobre a final do Big Brother Brasil e o preenchimento de lábios da cantora Anitta. Sem mais comentários... 


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