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Cavaleiro das Trevas

Freak. Essa era a palavra que fiquei caçando durante um bom tempo após assistir a Batman – Cavaleiro das Trevas na última sexta, apesar de ela ter estado todo o tempo logo ali, na minha cara. É como um freak que o Coringa de Ledger é classificado pelos bandidos de Gotham. É também como freak que ele busca comparar-se ao herói do filme.

A palavrinha amarra bem algumas idéias trabalhadas pelo diretor Christopher Nolan no longa, que retoma a visão sombria elaborada para o personagem em Batman Begins. Alguns amigos se apressaram logo em dizer que o filme era muito superior à primeira adaptação de Tim Burton, com Jack Nicholson.

De fato, Cavaleiro das Trevas é um grande filme. Principalmente se levarmos em conta o diálogo com o longo e confuso amadurecimento da ‘personalidade’ do homem-morcego em mais de 70 anos de publicação. Mas isso não o torna ‘maior’ ou ‘melhor’ que a película de Burton, são apenas filmes diferentes.

O freak é o diferente, o excêntrico. O Coringa de Nolan, em sua escalada homicida contra a metrópole corrupta e sombria de Gotham, quer ver o circo pegar fogo. Batman, diz ele, é o outro freak, o que acha que vai salvar alguma coisa. A diferença supõe sempre um outro, qualquer filósofo de boteco sabe.

Também quer dizer aberração. Logo, o jogo de espelho em que Batman e Coringa se enxergam é distorcido. Aos olhos dos outros, das pessoas comuns, os dois são monstros esquisitões que devem ser evitados. São pirados o suficiente para fazer o que fazem e se vestirem daquele jeito.

É nesta equação que se mete o promotor Harvey Dent, catalisando a disputa entre os dois personagens. (Neste caso, é bom frisar que o personagem de Aaron Eckart, este sim, está anos-luz à frente do interpretado por Tommy Lee Jones.) E quem conhece um mínimo sobre as histórias de Batman, sabe quem Harvey Dent está fadado a se tornar – e no que Gotham pode transforma quem mexe com ela.

Aí está uma diferença crucial entre os filmes de Burton e Nolan: a cidade e como ela aparece na tela. Esse cenário vai definir a maneira como os personagens surgem na tela. E aí, poderemos comparar, por exemplo, as interpretações de Nicholson e Ledger para o Coringa.

A Gotham de 1989 resgata visualmente o gótico que o nome alude, criando uma geografia urbana que só podia ser falsa, criada em estúdio, para ressaltar esse traço impossível de se verificar numa metrópole verdadeira. Essa atmosfera surreal indica como será o tratamento estético do filme, traduzindo-se plasticamente (nos figurinos, cenários e outros elementos visuais) e dando a medida da caracterização dos atores. Há um toque de fantasia que Nicholson empregou magistralmente no seu palhaço do crime.

A cidade em Cavaleiro das Trevas é de verdade – o filme foi rodado em Chicago. Assim, Gotham se mostra de outra forma, diferente até de Batman Begins (e acho que no final foi isso que me fez não gostar tanto assim desse filme). O gótico, o horror sombrio da cidade, é uma presença invisível e opressora e que se manifesta muito mais no tipo de gente que vive por lá. Por outro lado, ao usar locações reais, Nolan reforça um diálogo da Gotham fictícia com o nosso mundo. É impossível não pensar no terror social norte-americano após o 11 de setembro. Os prédios explodem de verdade (é sério, não dava para repetir o take).

O Coringa de Ledger é de dar medo, o riso dele é nervoso como o do espectador. O niilismo dele é um outro espelho: o dos nossos tempos. Foi o que me angustiou no filme e me fez pensar em Sobre Meninos e Lobos e como me passa essa mesma atmosfera.

O mérito para Nolan está na tentativa de conciliar este encadeamento trágico com uma dualidade mais maniqueísta dos próprios quadrinhos e da indústria de Hollywood: a da vitória do bem sobre o mal, que exige o happy end. Para não entregar muito o filme, o diretor, mesmo atualizando o personagem , o faz retornar a uma fase que marcou sua trajetória inicial nos quadrinhos. A vitória de Batman é chocha.

Por fim, resta dizer que antigamente freak também era um termo usado para homossexuais. Essa é uma leitura antiga de Batman feita por estudiosos dos quadrinhos, não preciso me estender sobre ela. Há, aí, um jogo entre Bale e Ledger que rende também uma interpretação muito interessante dos embates entre Coringa e Batman. Basta reparar na maneira como soa agressivo para os personagens quando o Coringa é chamado de freak por um dos chefões do crime de Gotham e como Batman reage a ser chamado assim pelo vilão.

Se nada disso lhe convenceu a assistir o filme, bom, lá vai a última tentativa. Logo no começo do filme, Ledger/Coringa faz um dos truques de mágica mais invocados da história do cinema.

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Comentários enviados

vai sair Spirit...
Gabi (postado no dia 25 de julho de 2008, às 16h54min)

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