Todo mundo tem direito a ser um pouco cachorro. Seja onde for, em Fortaleza ou Memphis, a saga e a ruína daqueles que amaram demais e viveram demais e beberam demais guardam alguma semelhança.
A maneira como Patrícia Pillar captou isso em Waldick – Sempre no Meu Coração mostra ser a vida mais cruel que qualquer vilã de novela das oito. Porque a moça é sincera como era Waldick em sua canções – aquela sinceridade perdida, beirando a ingenuidade, de quem ama alguém para sempre, mas só enquanto durar uma noite.
Ora que coisa mais canalha, você deve estar pensando. O mundo é canalha.
Por isso, o mundo deu fama a Waldick, o nosso homem de preto, e com ela tudo que ele imaginava conseguir ao deixar seu interiorzinho nos cafundós da Bahia para virar artista na cidade grande. Mas o espírito humano, seja ele brega ou não, é insaciável. Sempre falta algo.
Tudo que o cantor conseguiu se mostrou pouco quando ele envelheceu e se viu triste e sozinho, acompanhado apenas de sua grandeza. Ao começar o filme com o artista retornando à cidade-natal Caitité, próximo ao fim da vida, para fazer um show, Pillar monta um ciclo de surgimento e queda do ídolo das massas, que Waldick representa com sua história. E isso logo na abertura do filme.
Ao longo de 60 minutos que passam feito rastro de pólvora, a cineasta desenha uma narrativa que traça um perfil sentimental de um pop star brasileiro em seu declínio – a velhice, o alcoolismo, o gênio forte que terminou por afastar todos que estavam a sua volta. Mas ainda assim um artista autêntico, ciente de seu valor para um público que não o esqueceu.
Porque Waldick significa um Brasil muitas vezes não enxergado, mas que está logo ali fora. O país que não se resume a intelectuais de classe média discutindo o preço do pão e o barquinho a deslizar, pois quer mesmo é amar e encher a cara, fumar um cigarro e dizer: ‘preste atenção nessa música linda’, enquanto deixa as marcas do batom carmim no plaza que se esvai em cinzas e fumaça, na penumbra interrompida aqui e ali pela lâmpada de 20 velas que pende por um fio improvável sobre a mesa de sinuca.
Pillar não está interessada em contar a historinha da vida de Waldick, com cada detalhe, cada hit na parada de sucessos – lá estão desnudos os sentimentos que o tornaram um romântico incorrigível, o menino sem mãe que amou todas as mulheres, mas não conseguia amá-las uma de cada vez.
Vidas na Tela
Como deu pra perceber, votei mesmo foi em Waldick para o prêmio do Vidas na Tela. Mas respeito a opinião da maioria do júri, formado por Newton Ramalho, Arnóbio Fernandes, Carlos Tourinho e Iaperi, que preferiu atribui-lo a O Engenho de Zé Lins, do gigante Vladimir Carvalho. É realmente um trabalho irretocável. Sobre o filme, o professor João da Mata Costa publicou um texto informativo no Substantivo Plural. Mas Waldick me emocionou, e levo isso bastante em conta quando assisto a um filme. Outra menção honrosa foi concedida a Panair do Brasil, pela excelente pesquisa do período retratado.
Voz do povo
E como a voz do povo é a voz do colunista, eis que Valério de Andrade manda e-mail dizendo que o júri popular também foi de Waldick – Sempre no Meu Coração. Não viu ainda? Alugue. E escute esta canção.