Estórias sem palavras

Violonista Alexandre Atmarama lança nesta quinta (21), IMALT, disco de violão instrumental auto-biográfico.
Flávio Aquino
Alexandre Atmarama mostra repertório inspirado em suas experiências pessoais.
“É como se cada uma dessas canções contassem estórias sobre os diferentes períodos da minha vida”. A afirmação despretensiosa talvez passasse despercebida se fosse dita por um cantor ou compositor popular a respeito de seu último trabalho. Mas é assim que o violonista Alexandre Atmarama define IMALT, álbum de violão instrumental que lança nesta quinta-feira (21), em concerto gratuito no Auditório na Escola de Música da UFRN, a partir das 20h.

Composto por 12 faixas compostas em situações e momentos diversos vividos pelo músico, o disco poderia ser uma autobiografia sem palavras.

Com o violão no colo, pouco antes de um dos ensaios que fazem parte de sua agenda diária na UFRN, Alexandre Atmarama vai desfiando uma a uma as histórias por trás das músicas de seu primeiro disco. Anedotas, lembranças e pensamento filosóficos se misturam de forma natural na bagagem do músico, que iniciou seus estudos no instrumento no final da década de 70.

Em 1978, ingressou na Escola de Música da UFRN onde permaneceu por cinco anos, pesquisando e escrevendo suas primeiras composições. Ao fim desse período, largou tudo e partiu numa cruzada de estudos espirituais que o manteve afastado do instrumento por dezessete anos. “Durante esse período saí de Natal e ingressei na vida monástica. Fui estudar a filosofia Hare Krishna, mas sem sair da região Nordeste. Morei em Caruaru, Campina Grande, Recife e Fortaleza”, conta.

Foi durante a época em que morava na capital cearense, cuidando de um templo em fins da década de 90, que se deu o reencontro com o violão. Um dos diretores do centro, ao saber que o discípulo tocava o instrumento, o convidou para participar da I Orquestra de Violões do Ceará, formada por dez instrumentistas. A experiência motivou a retomada dos estudos, pesquisas e composições, já influenciadas pela filosofia oriental.

Numa desses novos esforços criativos, surgiu a técnica que dá nome ao álbum. No processo de composição da faixa “Gita”, inspirada no clássico da literatura oriental Bhagavad-Gita que trata do dilema existencial do guerreiro Arjuna antes de enfrentar amigos e parentes numa guerra, Atmarama se deparou com um problema melódico.

“Quando cheguei ao terceiro compasso da música me vi limitado pela técnica convencional, que dificultava a solução que eu queria dar ao arranjo. Fui experimentando e acabei criando o IMALT”, lembra.

Trata-se de uma técnica para pulsar cordas do violão consecutivamente, alternando a direção do ataque com os dedos da mão direita, especialmente com o indicador, médio e anular.

Como na notação musical os dedos são notados a partir da primeira letra de seus nomes, a técnica foi batizada de IMALT que nada mais é do que a junção das iniciais dos três dedos utilizados mais o prefixo “alt”, de “alternância”. “O resultado da experiência foi surpreendente. Ganhei em velocidade e na sonoridade única, já que o ataque das cordas é feito também com as costas das unhas”, explica. A nova técnica motivou uma série de estudos que foram incluídos no CD, com o nome de “IMALT I” e “IMALT II”.

De volta a Natal, onde ingressou no corpo de professores do curso de música da UFRN, do Conservatório de Música da UERN e do Instituto Waldemar de Almeida, Atmarama continuou a compor inspirado por situações cotidianas e filosóficas. A faixa “Nim”, por exemplo, surgiu a partir de um grupo de árvores plantadas de origem indianas, plantadas em frente ao apartamento do músico.

Já “Ponteio”, veio como uma homenagem à primeira escola de violão que freqüentou, do professor Francisco de Araújo que, apesar de deficiente visual, era dono de uma técnica singular. “Casa de Farinha” foi inspirada pelo período em que morou no interior de Pernambuco e tinha como vizinhos uma família que tirava o sustento do cultivo da mandioca. “Zanga” nasceu depois de Atmarama ter presenciado uma cômica discussão entre músicos de uma orquestra durante um intervalo.

Observando o interesse de alunos e colegas pelas composições, Atmarama decidiu reuní-las em um CD. Idealizado do selo independente Mudernage, o projeto do disco foi aprovado no projeto “Difusão - Violão Nordestino Contemporâneo”, patrocinado pelo programa BNB de Cultura 2008, onde enfrentou mais de três mil concorrentes de 16 estados brasileiros, na área de música. IMALT foi único selecionado na cidade de Natal.

Um dos benefícios do projeto é a distribuição gratuita de 50% da tiragem para escolas de músicas, instituições culturais, instituições sócio-culturais e formadores de opinião. Intensificando ainda mais a divulgação do álbum, as músicas estão disponíveis para audição e download na página de Atmarama no site MySpace, licenciadas em formato Creative Commons, ou seja, já previamente autorizadas para usos não comerciais. A circulação na Internet é vista com bons olhos pelo músico.

“A principal finalidade desse esquema é difundir a música nordestina nas escolas e academias, que ainda são muito voltadas para os compositores europeus. Mas, ao mesmo tempo, o disco é feito para quem gosta de música de uma forma geral, não somente para violonistas ou outros músicos”, ressalta.

No concerto de lançamento, o músico apresentará faixas presentes no disco, bem como outras composições que pretende registrar em projetos futuros.

URL :: http://www.nominuto.com/cultura/estorias_sem_palavras/25677/