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Enviada em 02/11/2008 às 11h06min

Lições de mestre

Mestre Elpídio, do boi-de-reis de Parnamirim, é o único potiguar selecionado no Prêmio Culturas Populares 2008.
Lenilton Lima/Cdida
Mestre Elpídio, à frente do boi-de-reis desde 1949
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Causos de Mestre Elpídio
Elpídio Alexandre da Silva, 82 anos, é, de fato, mestre do boi-de-reis há mais de 60 anos. Agora, com a seleção no Prêmio Culturas Populares promovido anualmente pelo Ministério da Cultura, Mestre Elpídio recebe o reconhecimento oficial por toda uma vida dedicada ao folguedo popular tipicamente norte-rio-grandense. Ele foi o único potiguar selecionado este ano pelo MinC, que premia ainda as categorias Grupos Formais e Grupos Informais Tradicionais. 

A notícia não alterou em nada a rotina do casebre onde mora na Cohabinal, em Parnamirim. Apesar da idade avançada, todo dia ele dá uma mexida nas figuras do boi fundado por ele em 1949. Natural de São Paulo do Potengi, Mestre Elpídio descobriu a brincadeira ainda menino, aos oito anos, em Ceará-Mirim.

"No bairro Nazareto, tinha um tal Vitalino, moreno forte, convidou uma turma de meninos para brincar no boi, que quem comandava era ele e o genro dele", lembra.

"O boi era um caçuá, com um pau no meio. Naquele tempo não tinha fita, era aqueles enfeites de papel, chega chiava no vento. Agora, espelhinho tinha muito. Baratinho. Aquilo era uma alegria pra gente, que era menino. Brinquei um ano com mestre Vitalino. Mas, não ganhava nada não. Tirava só quinhentos réis, um cruzado, três tões. Agora, do justo ficava tudo com ele", diz. 

"Em 42, vim para Natal, morar na Lagoa do Jacó. Nessa época, chegou outro lá de Gravatá, em Ceará-Mirim. Zé Calixto foi boieiro de João de Souza, do Diamante. O meu cunhado, Manuel Francisco de Lima, o Mané Curto, trabalhava com João Tatá, do Gravatá. Esse era o boi mais falado. Aí Zé Calixto se encontrou com a gente e chamou para formar um boi", afirma.

Após passar algum tempo com esse grupo, o cunhado de Mestre Elpídio decidiu formar o próprio boi de reis e o chamou para a função de contra-mestre. 

"Ele organiza as coisas para a brincadeira e me chamava para acompanhar, para aprender também. Ele reclamava porque eu não ajudava ele. 'Você não vai aprender nunca', dizia. Eu queria era namorar. Novinho, era para querer o quê? Só que eu não ajudava ele, mas ficava só olhando o que ele fazia. Não dizia nada, ficava só olhando", diz.

Brincou por quatro anos no grupo, viajando pela zona litorânea do estado se apresentando. Após uma briga com um galante, Elpídio saiu para fundar o próprio boi.

Djalma Maranhão
Logo depois que fundou o grupo, Mestre Elpídio foi convidado pelo prefeito Djalma Maranhão para trabalhar na prefeitura.

"Ele era o verdadeiro pai dos pobres. Aquele sim era um homem bom", afirma.

"Ele me chamou para trabalhar na limpeza, na administração do forno do lixo. Aí, quando chegava em dezembro, ele ligava para mim e dizia: pode largar tudo que tiver fazendo e vá cuidar do boi. A gente ia na prefeitura e dona Mailde Pinto passava a lista dos lugares para os grupos se apresentarem. Eu começava a me apresentar com o grupo em dezembro e só parava no dia de Reis. Só depois é que voltava para o trabalho", conta. 

Elpídio lembra com orgulho que o prefeito chegou até a afastar delegados de polícia que importunavam as apresentações folclóricas.

"Para se apresentar, tinha que tirar a licença na Secretaria de Ordem Social. Mas teve um delegado lá no Carrasco que mesmo com a licença veio pedir 20 réis para deixar meu grupo se apresentar. Eu, atrevido, dei 2 réis e ele disse que nunca mais eu me apresentava nos bairros dele. Fui falar com o prefeito e, quando chego na prefeitura, quem estava lá? O delegado. O homem quando me viu ficou branco. Naquele mesmo dia, Djalma Maranhão mandou afastar ele", diz. 

Até hoje, Elpídio guarda com carinhos as lembranças do 'compadre'. "Ele foi padrinho do meu filho de mais velho", esclarece e mostra, com orgulho, uma foto do prefeito. "Vou mandar botar num quadro", revela.

Por artes de uma mulher, Mestre Elpídio mudou-se para Parnamirim, para trabalhar com a terra. O boi-de-reis passou a se apresentar cada vez menos até ficar quase desativado.

Família
A vida errante acompanhando o boi na juventude e o gosto pelas mulheres trouxeram uma vida familiar conturbada para Mestre Elpídio. Com a atual, foram quatro esposas e 21 filhos, dos quais nove estão vivos.

"Se for contar as que moraram comigo nem que seja um, dois meses, foram 36 mulheres", conta, divertindo-se. "Agora, tudo safada. Não teve uma que foi embora e não deixou os filhos comigo", admite. 

Reconhecimento 
Há cerca de dois anos, o Mestre foi descoberto pelo fotógrafo Lenilton Lima, diretor de comunicação da República das Artes. A parceria resultou na reativação do grupo, que voltou a se apresentar com mais freqüência.

O apoio da República das Artes foi fundamental para que o Mestre Elpídio se inscrevesse no edital Culturas Populares, do Ministério da Cultura.

Com a premiação, de R$ 10 mil, ele quer reformar o casebre onde mora e criar uma sede para o grupo. "Aqui, nunca tive ajuda de ninguém. 

A prefeitura de Parnamirim tem uma fundação, mas parece que tem medo de apoiar a cultura. Só me chamaram para me apresentar uma vez e queriam que fosse de graça. Como é que eu vou me apresentar de graça? Isso aqui tem custo", defende.

Atualmente são 18 integrantes, entre galantes, damas, Mateus, Birico, Mestre, Contra-Mestre e o trio de músicos, com pandeiro, triângulo e rabeca. "Só é difícil arrumar alguém para brincar de Catirina", explica.

Para manter a tradição, só homens brincam no grupo de Mestre Elpídio. "Mulher só dá confusão", tenta explicar. 

"Um mestre é preciso que entenda de todos os problemas. Não tem o mestre-de-obras? A obra só vai se for com o mestre. A mesma coisa é isso aqui. Tem que saber fazer tudo, não é só cantar não. Montar as figuras, arrumar o boi. E desses mestres daqui nenhum sabe fazer isso, só eu."

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