Poeta mossoroense diz que a literatura de cordel desfruta de grande reconhecimento em outras regiões do país.
Por Alexis Peixoto
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"Em certo sentido, o Nordeste colonizou as outras regiões", diz Marcus Lucenna
Poeta, músico, cantador, cordelista e, acima de tudo, defensor ferrenho da cultura popular nordestina. Assim é Marcus Lucenna, mossoroense que deixou a terra natal ainda menino para aprender a ser trovador e cantador de cordel pelo Brasil afora.
Membro da Academia Brasileira de Literatura de Cordel (ABLC), o poeta passou rapidamente por Natal, antes de partir rumo a uma série de conferências sobre cordel.
Morando no Rio de Janeiro há alguns anos, Marcus Lucenna ocupa atualmente a cadeira de número 7 na ABLC, além de exercer o cargo de diretor cultural da instituição desde o ano 2000.
Apesar de ser relativamente pouco conhecida pelo público geral, Lucenna considera a Academia uma instituição consolidada, sempre em constante expansão. "Nós procuramos estender ao máximo as atividades da Academia. Estamos sempre procurando agregar e divulgar o trabalho de novos poetas, para que haja uma renovação na produção poética", diz.
O poeta situa a criação da ABLC como um fator decisivo para a revitalização da literatura de cordel. "O grande 'boom' do cordel foi durante as décadas de 40 e 50. Do final dos anos 60 em diante houve um esgotamento, uma decadência na produção que só foi retomada no final dos anos 80, com a criação da Academia", analisa.
De acordo com Lucenna, a literatura de cordel desfruta de um momento de pleno reconhecimento nas outras regiões do país. "Se há uma manifestação cultural nordestina, que é inegavelmente reconhecida como algo de grande valor artístico nas outras regiões, é a literatura de cordel", sentencia.
"O cordel e a cultura nordestina influenciaram o Brasil inteiro. De certa forma, podemos dizer que o Nordeste colonizou o resto do Brasil, pois, quando o povo nordestino migrou para outras partes do país, plantou pequenas sementes da nossa cultura em outras regiões".
Militante da cultura popular
Apesar de confessar que a Academia é o seu "xodó", Marcus Lucenna também se desdobra em outras atividades. Como músico, já se apresentou em vários estados brasileiros e já teve oportunidade de mostrar seu trabalho em diversos programas de tevê.
Foi colunista de jornais cariocas, radialista, e foi diretor da Feira da Paraíba, no Rio de Janeiro, durante sete anos. Junto com Fagner e outros artistas, encabeçou um movimento em defesa da Feira de São Cristóvão.
A feira, considerada o maior pedaço do Nordeste fora da região, é realizada no pavilhão do Centro Municipal Luiz Gonzaga de Tradições Nordestinas, no Rio de Janeiro, e procura resgatar o antigo espírito do mercado ao ar livre, criado pelos retirantes que chegaram à capital carioca, durante a década de 40.
“O nosso principal objetivo é trazer de volta a espontaneidade característica da feira, manter as coisas naquele clima agradável e levemente informal”, enfatiza Lucenna. “Mas, infelizmente, a presença do poder público dificulta isso, transforma o trabalho em algo institucional”.
Quando a conversa entra no assunto da relação entre política e cultura, o poeta não perde o fôlego. Com experiência suficiente no assunto, Marcus Lucenna afirma categórico: a cultura não pode ser dissociada da política. “É ingenuidade tentar separar as duas coisas. A cultura avança dentro de um processo político. É a única maneira de viabilizar as iniciativas”, diz.
Projetos futuros
Para este ano, Marcus Lucenna tem alguns projetos em vista. O primeiro é um programa de tevê, ainda sem nome, que irá ao ar em um canal pago.
De acordo com Lucenna, o programa deve ter um formato espontâneo e cheio de ícones da cultura nordestina, como o cantador de cordel, o mágico de feira entre outros. “Ainda estamos definindo os detalhes, então não posso adiantar muita coisa. Mas, o certo é que após o carnaval vamos começar a trabalhar pra valer”, revela.
Outro plano é lançar uma coletânea, reunindo o melhor de sua produção musical, do início da década de 80 até hoje. “Tenho mais de 200 músicas gravadas, mas a maior parte está fora de catálogo. Pretendo escolher umas 20 faixas para compor a coletânea”.