Ele começou a trabalhar no Teatro Alberto Maranhão quando tinha 26 anos, em 1951. Seu Pedro Salustino é o mordomo do teatro. Sua ocupação é dar informações sobre o local e receber os visitantes. Em 2001, ganhou uma placa pelos 50 anos de serviços prestados. Até um quartinho ele tem no TAM, só para ele.
"O teatro foi construído por Alberto Maranhão, que foi governador em dois mandatos. No primeiro mandato ele começou a levantar o teatro. Antes era tudo mangue. Quando tava tudo nos alicerces chegou ao fim do mandato dele. Veio Ferreira Chaves para o governo, que não fez nada pelo teatro", relata Seu Pedro.
Segundo ele – que é dono de uma memória impecável – em 1900, Alberto Maranhão retornou ao poder e concluiu o que começou. Construiu o teatro e o inaugurou no dia 24 de março de 1904, com o nome de Carlos Gomes. O nome do teatro foi modificado para Alberto Maranhão em 1957.
Mas foi um pouco antes do teatro mudar de nome que a história do TAM se confundiu com a de Seu Pedro Salustino. Ele chegou ao teatro como servente, em 1951. Com 15 dias, o promoveram a chefe de pessoal. E em 1960, foi nomeado mordomo.
"A minha vida era ir no comércio, o dia todo, das 7h da manhã às 5h da tarde, pedindo ajuda. Eu ia nas repartições públicas federais, nos quartéis, nos bancos, para manter o teatro porque a prefeitura não podia", lembra o funcionário.
De acordo com Seu Pedro, em 1957, o teatro passou para o estado, o que melhorou a situação do TAM. "O governo tem condições de manter. E nenhum governo negou-se de mandar coisas para o teatro. Tudo que a direção pedir eles mandam", revela o mordomo.
O funcionário do TAM conta que sua vida foi pesada, mas hoje está mais "maneira". "Minha situação agora é só receber o público, os turistas e informar sobre a história do teatro. Porque só eu sei a história do teatro. Estou aperriado agora porque não estou podendo ir. Me sinto triste", desabafa.
O que impossibilita Seu Pedro Salustino de exercer seu ofício é uma fratura do tornozelo. Ao atravessar a rua do Teatro Alberto Maranhão para pegar o ônibus, foi atropelado por uma moto. Por sorte, o mordomo teve apenas o ferimento no pé.
Um teatro desigual
Vinícius Menna
De acordo com Seu Pedro, cada casta da sociedade tinha o seu lugar.
O Teatro Alberto Maranhão já foi espaço de discriminação. De acordo com Seu Pedro Salustino, cada casta da sociedade tinha o seu lugar. Mesmo vazio, um espaço não podia ser preenchido por gente do outro. Só em 1955 o teatro foi popularizado. Desde esta data, as pessoas escolhem onde querem sentar pagando o mesmo preço.
"O teatro é formado pela platéia, tem as frisas ao lado e, em cima, os camarotes e as galerias. Até 1955, nos camarotes, a classe média não sentava, era só da alta sociedade. Às vezes, tinha show no teatro e o cantor era desconhecido, aí a sociedade não ia e ficavam os camarotes todos vazios, com gente lá fora querendo entrar", explica Seu Pedro.
"A galeria era o preço mais barato. Os pobres iam era para cima. A classe média sentava-se na platéia ou nas frisas", arremata o mordomo do TAM.
Visitantes "Já falei com grandes artistas, dos Estados Unidos, da Bélgica, do Uruguai, da Alemanha, da Inglaterra, de todos esses países vem gente do teatro, jornalistas vêm me entrevistar. Quando chega em São Paulo, o governador de São Paulo – que eu não conheço, mas ele me conhece, deve ser pelas informações – manda eles para o teatro justamente para me entrevistar", comenta Seu Pedro Salustino.
Em 1962, uma companhia de marionetes italiana foi ao TAM. Eram 15 "atores", como diz Seu Pedro. "Todos os 15 eram bonecos. Fizeram quinze dias, três espetáculos por dia, com casa lotada. Não tinha um assistente ou pessoa que disse que eram bonecos. Era gente mesmo, como pessoa mesmo. É incrível que hoje em dia a gente não vê isso no Brasil. Quando vem uma companhia de boneco a gente vê que é boneco. Essa ninguém dizia", recorda.
Seu Pedro Salustino ama o lugar onde trabalha e o defende com carinho. "Tem grandes teatros no Brasil, maiores que o nosso, mas nenhum tem o tratamento que tem aqui. É o melhor teatro e o mais bonito que tem. Os atores dizem que chegam nos outros teatros como em São Paulo, no Maranhão, que tem grandes teatros, mas não tem ninguém para receber eles. Aqui eles saem informados, todos felizes", afirma.
Ele diz atender a todos os visitantes com igual dedicação, mas guarda na memória um ator como destaque. "Até hoje, o príncipe dos atores que veio ao teatro foi Procópio Ferreira, pai de Bibi Ferreira. Era um grande ator. E encerrou a carreira dele no teatro com a peça Deus lhe pague.", revelou.
Problemas
Fátima Elena
Teatro está "meio fraco no atendimento, na informação", diz Seu Pedro.
Seu Pedro diz reconhecer o trabalho da diretora Hilneth Maria Correia Santos, que segundo ele, luta muito pelo teatro, mas confessa que ele está "meio fraco no atendimento, na informação".
"Hoje eu não saio mais no comércio para pedir. Quando é um show maior, tem que contratar som, mas o teatro era para ter um som próprio. A iluminação também precisa de mais ajuda, os eletricistas estão fazendo muito sacrifício. Não sei se é falta de entendimento, se é conhecimento ou se é falta de vontade, mas precisa. Eu sei que o governo tem condições de investir no teatro, o que a diretoria pedir eles mandam", opinou o mordomo.