Secretário de Turismo de Natal, Fernando Bezerril, aposta em novos produtos para aumentar fluxo de visitantes.
Por Alan Oliveira e Zenaide Castro
Fotos: Vlademir Alexandre
"O mundo inteiro convive com o turismo sexual. O combate tem que ser diário."
Marina de Natal, turismo de eventos, crescimento do convention bureau, parceria com cidades próximas como Recife, Fortaleza e Maceió. Durante os quatro anos em que esteve à frente da Secretaria Municipal de Turismo, Bezerril elenca uma série de conquistas e fala sobre o que espera do seu sucessor.
Nasemana - Podemos começar a entrevista com um balanço do que foram esses quatro anos e o que você acha que mudou desde que assumiu a Secretaria de Turismo de Natal. Qual o grande gol que você fez na sua gestão? Fernando Bezerril - Por coincidência fui o único secretário de turismo das capitais do nordeste que não fui trocado. Todos os colegas dos estados vizinhos, das capitais vizinhas, foram substituídos. No início nós montamos um consórcio das capitais como forma de trabalhar junto com as capitais do sol que envolvia Natal, Maceió, Recife e João Pessoa. Os prefeitos assinaram um documento e passamos a divulgar conjuntamente uma proposta de combate à exploração sexual, conseguindo bons frutos. Também a partir daí pudemos focar o nosso trabalho no turismo de eventos, onde o estado vizinho é o grande parceiro na hora do visitante fazer a hotelaria ter um bom número de ocupação. Nós percebemos que já havia um bom trabalho do Governo do Estado na captação e no turismo doméstico. Preferimos não fazer a mesma coisa. E nos eventos, íamos para dentro das salas de imprensa para fazer um trabalho corpo-a-corpo com os jornalistas nacionais, levando o material para a divulgação. Esse foi um start dado por Fernando Bezerril no sentido de fazer a multiplicação. Em seguida, um momento muito importante foi o nosso start na recuperação do convention bureau, que estava dividido. Investimos R$ 60 mil, onde foi colocado também um plano de trabalho e tivemos a felicidade de sermos acreditados pelos hoteleiros que são quem mantém o convention bureau. Foi então que chamamos o outro lado, a corrente contrária para sentar na mesa em um conselhão. Hoje nós estamos assistindo os maiores eventos como o congresso da OAB, que trará a Natal seis mil advogados e que deixarão, em cinco dias, R$ 6 milhões. Para coroar, dizemos que a cidade terá uma alta temporada em torno de 90%, por que não dizer de 100% de ocupação, mas com uma grande preocupação do que será a baixa estação que vem aí, porque os pacotes foram comprados em um momento de euforia e no momento em que a moeda beneficia a vinda para Natal, com o cancelamento dos cruzeiros.
Nasemana - O ritmo de captação de eventos é o esperado pelos órgãos públicos do município ou do governo. Está em um ritmo que Natal quer ou muito distante do que a cidade precisa? Fernando Bezerril - Acredito que ainda está muito distante. Nós sabemos que quem começou primeiro, como São Paulo, Salvador e Recife, vive bem o ano todo porque tem o turismo de eventos como bandeira. Acho que temos muita coisa a fazer, mas muitos avanços porque grandes hotéis com bandeira internacional que não estavam aqui, hoje estão. Hoje, quando temos uma reunião de convention bureau, vemos a hotelaria em peso. E nós vemos hoje que hotéis estão chegando cada vez mais e consideramos isso uma grande vitória.
Nasemana - Natal tem conseguido combater o turismo sexual? O turismo no mundo inteiro tem essa chaga e aqui está sob controle. O combate é diário e não se pode dizer que resolve porque o problema é muito grande na própria cidade. Também não se pode creditar a exploração somente ao turista. O grande perigo está aqui mesmo, dentro das famílias e isso é uma coisa muito séria.
Entregaremos um planejamento ao trade na segunda quinzena de novembro.
Nasemana - E quanto à captação, o que tem sido feito nesta área? Fizemos algumas parcerias porque se não houver investimentos nessa área não vamos a lugar algum. Além da que firmamos com a fundação do Banco do Brasil, criamos a Associação dos Empresários que fazem o turismo náutico na cidade, coisa que não existia antigamente. Nós tínhamos onze empresas que andavam em desencontro e essa idéia partiu aqui dessa casa e hoje temos a Amanáutica, que possui um segmento organizado inclusive com belos projetos - como o do terminal náutico no Potengi e outro projeto na Pedra do Rosário -, entrando no Prodetur agora. Temos a estação de passageiro do Porto de Natal, que foi outro trabalho da Sectur, porque nós fazemos parte do Conselho das Autoridades Portuárias e tivemos a oportunidade de transformar um galpão da Ribeira em uma estação de passageiros com 722m². Deixamos aprovada a estrutura para construir a estação no Porto de Natal e o projeto arquitetônico que foi discutido e aprovado. Agora a Codern está cuidando do trâmite da licitação que irá possibilitar a entrada em Natal de grandes navios. Não precisamos ir lá fora para trazer cruzeiros. Basta que vejamos o exemplo da cidade de Santos. O turismo náutico é muito poderoso.
Nasemana - Como surgiu esse interesse pelo turismo náutico? Nós estávamos em um feito em Lisboa quando conhecemos os empresários que viriam para Natal, Recife e Fortaleza estudar a implantação de uma marina orçada em R$ 100 milhões de reais com capacidade para 500 barcos. Uma semana depois tínhamos um feira em Madri. Convidei, então, José Manoel Scobedo para vir a Natal e conseguimos com a prefeitura a estrutura para que ele e sua equipe pudessem pesquisar e trabalhar no projeto.
Nasemana - E como anda hoje esse projeto da marina de Natal? Fernando Bezerril - Toda a parte ambiental junto ao Conplam, Exército, Marinha, Aeronáutica e Iphan foi vista e hoje a gente esta esperando a tramitação na câmara dos vereadores, na qual o projeto já há 250 dias. Soubemos que no prazo de 60 a 90 dias o projeto estaria aprovado. Depois, restaria a aprovação da regulamentação da área ZPA 7, que, uma vez regulamentada, a prefeitura poderia fazer uma licitação internacional. Nós temos esse projeto como muito importante. Ainda temos o projeto do heliporto municipal que ocupará uma área de cinco hectares e será construído em frente à marina. Natal será a primeira cidade do Nordeste a ter um heliporto municipal. Temos um outro projeto de muita importância que é o modelo de ônibus de duas cabines. O projeto está orçado em R$ 6 milhões e contará com seis ônibus. A idéia principal é sair de Ponta Negra fazendo todos os corredores turísticos, passando pela Redinha, percorrendo o corredor cultural passando por todas as casas de show da cidade. Temos outro projeto da Pedra do Rosário atrelado ao projeto de uma escola de vela para crianças de seis a 12 anos. Para isso, aproveitaríamos os barcos de um projeto do Governo Federal que nunca foram usados. Contamos com o apoio do Governo do Estado junto ao empresariado.
Nasemana - Você espera que esses projetos passam executados pelo próximo secretariado? Fernando Bezerril - Eu tenho uma relação que mostra que os recursos estão prontos para os projetos. Estamos saindo deixando muita coisa aprovada. Além disso, estamos deixando uma das coisas mais importantes que é um planejamento estratégico para os próximos cinco anos. Contratamos um consultor, Carlos Sodré, e esperamos entregar o planejamento ao trade na segunda quinzena de novembro.
Eu acredito que vem gente boa para assumir a Secretaria de Turismo
Nasemana - Você considera o trade unido? Fernando Bezerril - O trade está fazendo o seu papel, cobrando do governo uma maior divulgação. Estamos cansados de ver na subida da Ribeira um outdoor de um estado vizinho ou um comercial em rede nacional de um estado vizinho. Eu acho que os presidentes de entidades têm que cobrar porque esse segmento é o que mais emprega no mundo. O nosso trade é muito maduro e não dá mais tiro no pé como acontecia antigamente, até porque as bandeiras internacionais chegaram e deram seu recado: Se você não for competente, está fora. Você viu grupos locais construírem hotéis e passarem a grupos de fora. E eu digo a vocês que isso vai acontecer com quase todos porque será uma guerra de leões e os empresários daqui, têm que se cuidar. Outro ponto é a consciência hoje em relação ao convention bureau. Eu digo a vocês, sem citar nomes, que hoteleiros que antes só reclamavam hoje batem à nossa porta para se inscrever no convention bureau.
Nasemana - Você fala muito sobre a falta de investimento tanto da prefeitura quanto do governo. Em relação à prefeitura, você fala que pouco foi investido na divulgação. Esse foi um dos problemas da administração municipal no turismo? Fernando Bezerril - Depende de como você vê essa questão. Se você disser que o projeto Natal em Natal não divulga a capital, está querendo esconder os fatos. Mas que precisa investir mais, precisa. Levamos 600 kg de material de divulgação para o Salão do Turismo de São Paulo . Já existia um projeto há muito tempo, mas era pouco divulgado. A prefeitura devia ter um orçamento nunca menor que R$ 10 milhões de reais, enquanto o orçamento daqui é R$ 1,5 milhão. A cada um dólar investido no turismo, o retorno é de quatro. Aqui falta apenas a consciência dos políticos em relação à importância desse segmento. Dos 800 mil nataenses, 140 mil trabalham com turismo. Então, é necessário olhar para ele com mais atenção. Eu saio muito feliz porque conseguimos colocar o Forte dos Reis Magos em entre as sete maravilhas do Brasil. Conquistamos pelo segundo ano consecutivo o Jacaré de Ouro como o melhor destino turístico para eventos.
Nasemana - Qual o perfil ideal para o próximo secretário de turismo de Natal? Deve ser um político ou um técnico? Fernando Bezerril - Eu estou vendo com muita felicidade os nomes que estão desfilando por aí porque o escolhido tem que ter as duas coisas, na minha opinião. Primeiro, tem que ter prestígio com o mandatário maior. Não adianta você colocar uma pessoa com a maior capacidade que não tem acesso para falar grosso e falar na hora certa. É necessário os dois: o técnico e o político. Eu acredito que vem gente muito boa para cá.
A cada um dólar investido no turismo voltam quatro.
Nasemana - E qual a situação do Hotel Reis Magos? Fernando Bezerril - Isso foi outra luta nossa. Na primeira semana que assumi a secretaria, bati na porta e pedi para fazer um albergue da juventude lá, já que o hotel estava há dez anos exposto à venda. Propus que ampliássemos o projeto do Hotel Escola Barreira Roxa, que se encontrava em dificuldade de expansão. Mas com a aprovação do projeto para a construção da marina de Natal, aquela área ficou muito valorizada, o preço do metro quadrado mudou. Agora, pretendemos restaurar o hotel em uma obra orçada em R$ 20 milhões que comportará 297 apartamentos e um edifício garagem. Acreditamos que o hotel é o start para o corredor turístico de Natal.
Nasemana - Natal vai conseguir suportar a quantidade de tantos leitos que possui, em um período de baixa? Fernando Bezerril - Eu acho que hoje estamos comemorando um crescimento rápido, comemorando vitória. Essa cidade cresceu mais do que todas as outras e muito rapidamente. Temos o advento de aeroporto novo de São Gonçalo. O caminho que estamos trabalhando é divulgar que o turismo de eventos ajuda a preencher os leitos no período de baixa estação. Se formos comparar, na Grande Natal temos 30 mil leitos, enquanto em uma cidade como São Paulo, que serve espelho para todo o país, temos 50 mil. Será que não temos leitos demais aqui? Não precisamos ir muito além para saber a resposta.