A morte de Bora Porra

Edmo Sinedino,

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A morte de Bora Porra.

Bora Porra tinha morrido. Gente, meus amigos, pensem num sofrimento. Foi igual a perder um irmão, uma pessoa querida de minha família.

Meu coração velho estava tomado de tristeza. Sentia um peso enorme na cabeça, nada mais tinha sentido e procurava consolo dos meus filhos, esposa e netos.

Perdi meu mais querido parceiro. Amizade de 45 anos. Um baque, um grito, uma dor. Morte súbita, o coração enamorado parou de bater.

A rua Santo Antônio e toda a Cidade Alta parou o que estava fazendo para ver, ouvir e dar passagem. A notícia se espalhou como um rastrilho de pólvora.

Lila desencarnou como sempre falava e queria que fosse (não sei se falava isso de verdade), de repente.

Provavelmente, nessa hora já deve estar diante do “telão” prestando contas das coisas que fez aqui na terra. Tenho certeza que somando e dividindo ele vai ser perdoado...

Fiquei numa agonia. Sofrendo muito caminhava de um lado para outro, lágrimas teimosas manchando meu rosto. Um aperto no peito,perdi meu parceiro das conversas do final de noite.

E agora? Para onde eu iria depois dos programas da tevê? Nos sábados, não mais o beco da lama ou a ginga com tapioca no mercado da Redinha.

Nosso companheiro, meu e de Evânia, das sextas-feiras no SESC se fora. E nossos passeios com Anginho, fazendo a felicidade dele e a nossa.

E as histórias impagáveis, de quem eu iria tirar agora?

O velório, concorridíssimo. Muita gente chegando, de carro, de moto, bicicletas, caravanas de torcedores alvinegros de todos os cantos do Estado.

Como era querido o Bora.

A rua do centro de velório tomada por uma multidão. Não havia mais espaço para quase ninguém. Eles, torcedores, claro, lamentavam a perda do seu regente.

Se perguntavam, inconsoláveis, quem, iria, no Frasqueirão, com sua canjibrina na mão, agitado, chamar a torcida, exigir que descruzassem os braços, que desligassem os celulares e gritassem pelo ABC?

O alvinegro órfão do grito de incentivo ininterrupto nas arquibancadas.

Não teriam mais o seu doido favorito, de costas para o gramado, sem ver nada da partida, andando para lá e para cá, gesticulando, se enfurecendo e berrando: “bora porra!,bora bandigalado, descruza os braços, bora, bora, bora, boraaaaaaa”!

O fim de um mito. O ocaso de uma jornada que começou ainda no estádio Juvenal Lamartinete. Naquele tempo, um menino veio, mas que já colocava o irmão mais velhos e os primos para orar, de joelhos, pela vitória do ABC.

A saga Bora-Porra começou anos depois, no saudoso Castelão-Machadão e depois se consolidou no Frasqueirão, como todos sabem.

Sim, Bora-Porra.

E Roberto Lili?

Precisamos lembrar que morria o personagem alvinegro, mas também desaparecia o cidadão Roberto Luís da Costa Barbosa, o Roberto Lili, ou Roberto Sirireca, Siririca, Bilé, como queiram.

Eram vários os apelidos do nosso morador da Cidade Alta, que também residiu uma temporada nas Rocas, com sua tia, e até andou pelo Tirol, na casa de uma outra tia e tome mais de suas histórias...

Fim da trajetória do “Príncipe das Empregadas Domésticas”, o rei, que era mestre e companheiro de Lili, vocês sabem, não posso dizer o nome dele.

E agora, questões pendentes: quem sustentaria a “Motoqueira Fantasma” que todo final de mês vinha buscar seus duzentinhos?

Vocês pensam que não?Ela estava lá velando o morto, desde cedo. Foi a primeira a chegar no velório e não saiu de lado do caixão, nem mesmo quando Dona Raimunda, a mãe, se apresentou.

E a atriz francesa, Jeane Moreau, que também se fazia presente desde a chegada do corpo de nosso herói.

Para o “novo amor” (que conheceu e se apaixonou perdidamente, justamente no Dia de Finados do ano passado, no cemitério do Alecrim), quem, agora, pagaria o pão, o leite, o batigute, o bolo e a mistura a que ela se acostumou pedir todos os dias?

Quem seria tão bom, tão abestalhadamente generoso, agora, a pagar as contas de cigarro, do tiragosto de carne de sol, refrigerante e cerveja lá na cigarreira do “Açoite” que o amado morto afiançava?

E se a peça dental, que ele mandou botar e pagouru à prestação, por um azar quebrasse, quem a levaria, de novo ao doutor Robert Imperator?

E o crédito do celular, as roupinhas, shorts, desodorante, perfume, pasta, escova, quem seria tão bondoso, gastoso como nosso herói Lili-Bora Porra para continuar abastacendo a bela morena?

Me digam vocês, vou insistir: qual o cristão que, de agora em diante, ia pagar o dindim do pestinha do seu filho? E onde ele ia encontrar outro cara tão bacana que bancou, sem conhecer ainda, até mesmo a festa de aniversário de sua filha mais velha, de um outro relacionamento?

A coitada da nossa ex-cobra de feira não se conformava e chorava sem parar.

O movimento era intenso no centro de velório. Nunca se viu coisa igual. Nem político famoso, por mais ladrão que tenha sido, conseguiu juntar tanta gente, afirmava o administrador.

Acabou o café, o chá e todos os salgadinhos haviam voado em menos de cinco minutos. Era uma invasão.

Se misturavam nas lamentações os amigos da Cidade Alta, das Rocas e os torcedores do ABC e até mesmo, acreditem, alguns torcedores do América trazidos pelo primo Augusto Varela.

O hino do alvinegro foi cantado, mais chorado que cantado. Foi um momento de muita emoção.

Uma camisa, o presente de Danilo Menezes o estava vestindo. Disseram que antes de morrer ele exigiu ser enterrado com seu bem mais precioso.

Uma bandeira enorme com as cores do ABC e do Brasil cobriam quase todo o caixão.

Eu num canto, me juntando aos amigos mais chegados, sofrendo muito ainda a perda do amigo-irmão, mas já temendo um escândalo.

Dona Raimunda, sua mãe, inconsolável e quase descontrolada, já lançava olhares mortíferos na direção das “criaturas”.

A velha mãe, no seu papel de protetora, de querer o bem de seu filho, já tinha, várias vezes, jurado de morte as duas criaturas “estranhas” à família.

A boa senhora tinha verdadeiro horror dos amores vadios de seu filho e até prometia chamar a polícia para prendê-las.

Algum fofoqueiro da rua, me parece que o M. Moreira ou a Telma Egrey, foi dizer pra ela, não sei qual dos dois, que seu filho morreu porque estava usando demais o “azulzinho”.

E eu, seu confidente de quase todos os segredos, sou testemunha que ele só usou o Viagra uma vez na vida. E foi só uma banda, e que mesmo essa metade deixou seu rosto vermelho, em brasa, por isso ele não queria nem mais ouvir falar em comprimido estimulante.

Mas os fofoqueiros...

Anginho, seu irmão, num canto, triste, dizia para Minha, sua cuidadora, que a culpa era das “raparigas”...E, revoltado, queria sair dando chutes nas canelas das duas amantes do irmão.

As meninas da Panficadora Catarina – Mayara e Ceição – chorosas, lamentavam a perda do vigia amigo, companhia divertida, às vezes chato,  de quase todos os dias nos finais de tarde.

Ivanildo, o dono da padaria, que já havia prometido “assinar carteira” de nosso Roberto, também lamentava a perda.

Açoite, dono da cigarreira bar, chorava de um lado (não sei se Lila havia deixado algum “preguilho” lá). Zé Antônio do Bar do Galo fungava do outro. Mais sentido ainda se mostrava Zé Reeeira, outro que gostava demais do freguês boa gente.

Partilhando a dor de todos, também Chaguinha do cachorro quente e as meninas Rosângela e Sabrina, amigas da pastelaria que fechou.

Mais afastadas, em prantos, Tamilinha e Tâmala, vizinhas e afilhadas, não se conformavam com a perda do padrinho amado.

Sua mãe Rosânia, que muitos afirmavam ter Roberto Lili uma paixão recolhida por ela, muito triste, tentava consolar suas filhas que consideravam o padrinho quase um segundo pai..

De repente, aumentou o zum-zum no canto da sala.  Renata de Abreu, a Motoqueira Fantasma, e a atriz francesa, o mais recente amor, iniciaram uma discussão em altos brados, e chamavam a atenção de todos no recinto.

O Padre Murilo, capelão do ABC, que acabara de chegar para celebrar a missa de corpo presente, tentou fazê-las parar de brigar, mas em vão...

“Sua rampeira sanguessuga, foi você que matou meu Lila, a culpa é sua. Ele gastou a poupança todinha comigo nas praias, comprou minha mota, vestidos, me ajudou a tirar uma casa, me deu geladeira, fogão, tudo, tudo, mas ele nunca sentiu uma dor na unha. Eu sabia fazer ele gozar gostoso, mas bastou você chegar pra matar meu amor de mais de 20 anos...”, dizendo isso, Renata partiu para cima da rival.

A turma do deixa-disse entrou em cena e separou.

A atriz francesa, não se fez de rogada e despachou seu rosário de queixas também:

“Mentira sua, rapariga fuleira, você tem o nome de outro macho na perna, e isso foi que matou ‘minha piquilha’ do coração. Ele chorava e sofria todas as vezes que se lembrava de você falando com o bandido altas horas da noite..Sua rampeira, justo agora quando eu ia pedir a ele para pagar uma prótese para minha mãe...sua ladra”, foi dizendo isso e caiu no choro.

Dona Raimunda, vendo aquela cena deplorável, não agüentou...furiosa, a mãe de nosso herói morto veio de lá com tudo, mas estancou...

Todo mundo emudeceu...silêncio, suspense total de quem conhecia...

Entra em cena, no recinto, Iracema, o verdadeiro e único amor de Roberto Luís da Costa Barbosa, o único e verdadeiro amor de Roberto Lili, Roberto Siririca, Sirireca, Bilé, acompanhado de Juliana e Juninho, filhos, os três, meu Deus do céu, e agora?

Minha nossa! Os três, armados de faca-peixeira e um porrete, com os olhos de ódios, fuzilando as amantes, entraram no espaço do velório e partiram com tudo...ia ter mais mortes...

No corre-corre, minha nossa!, atropelaram e derrubaram o caixão de nosso herói, o Padre Murilo pede calma pelo amor de Deus...!

Agoniado, desesperado, correndo o risco de ser esfaqueado, mas esperando conter a família revoltada, entrei no meio da briga que prometia sangue e morte, gritando: parem, parem, parem! Mas, nesse momento, banhado de suor, angustiado, muito, acordei!!!

PS: foi isso gente. Me desculpem, se assustei vocês, mas tive esse pesadelo terrível hoje. Ainda bem, foi sonho.


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