Memória: há exatos 10 anos, testemunhei a morte do Diário de Natal…

Edmo Sinedino,

arquivobalu1_09Trabalhei com Rogério Torquato quase dez anos, creio, no Diário de Natal. Depois ainda fizemos parceria no portal Nominuto, até que o querido Blau passou em um concurso do Estado e deixou o jornalismo para se dedicar à educação. 

A última notícia que tive dele é que se tornara monitor de um colégio na Zona Norte.

Blau escreveu, ao longo do anos, matérias extraordinárias, um texto hilário, até mal compreendido por jornalistas, digamos, mais antigos, conservadores.

Sem falsa modéstia, com Blau na editoria de esportes, junto com Fábio Pacheco, o time de fotógrafos e diagramadores - José Carlos Silva, Eduardo Maia, Frankie Macone, Carlos Santos, Fábio Cortez, José Carlos Santos e Garrafinha - demos alguns shows em coberturas de eventos esportivos.

Blau, disparado, era a figura jornalística mais importante e disputada dos JERNs, muito mais que o editor (eu). Sinto saudades de Blau, tenho certeza que todos que trabalharam com eles sentem o mesmo.

Mas deixo de rodeios para, sem autorização dele, pois, pasmem, perdi o contato do querido amigo, tomo a liberdade de "chupar" do seu blog essa matéria espetacular que ele publicou ontem (eu não tinha visto) e só fiquei sabendo por intermédio de um link postado num grupo de jornalistas que participo.

Leiam! Mesmo você que nunca trabalhou numa redação de um jornal impresso. Essa é, sem dúvida, uma linda homenagem.

Vejam abaixo:

Memória: há exatos 10 anos, testemunhei a morte do Diário de Natal…

O impresso criado em 1939 “foi ao túmulo” em 2012 – mas a primeira de suas três mortes (!) foi a 9 de fevereiro de 2009, quando deixou de ser impresso em Natal.

É bem conhecida – ao menos entre jornalistas em Natal, e o resto a poeira do tempo parece apagar aos poucos – a data do “óbito” do Diário de Natal (1939-2012): terça-feira, 2 de outubro de 2012. Ponto pacífico; quem viu, viu. Foi a data da última edição, oficialmente encerrando uma história de 73 anos, indicando a morte do impresso (com um editorial sobre o assunto, próximo à principal chamada — que também tratava de outro fechamento, o do antigo Colégio Imaculada Conceição). Mas ouso dizer que não: 02.out.2012 foi a segunda e a mais conhecida das três “mortes” que o jornal sofreu — sei porque testemunhei a primeira morte. É o quê?

Calma, explico (fazendo suspense, só de ruim…). Com o fim das atividades da redação do impresso, na noite de 01.out.2012 (nem um dia antes nem depois), ficou o serviço de Internet, o DN OnLine (1997-2013) – que resistiu contra tudo e todos do primeiro dia (a data exata não tenho de cabeça, mas sei que foi em 1997) ao último (por volta de 6 de janeiro de 2013; certo é que a 10.jan.2013 não mais existia, indisponível), e poderia estar agora mantendo o nome do velho DN não fossem umas decisões ao longo dos anos “sufocando” o OnLine em detrimento do impresso… de toda forma, o fim do DN OnLine foi a derradeira morte. E qual foi a primeira?

Digo como testemunha ocular — ainda que por acaso — que a primeira morte do DN foi no dia 9 de fevereiro de 2009.  Hã?…

Cada parafuso que caía da rotativa, doía fundo

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…naquela manhã de segunda-feira RTBlau aqui estava encerrando um período de 12 anos, 10 meses e 5 dias como repórter naquele impresso — eu estava de saída, havia pedido demissão, convidado para o portal Nominuto.com (e como pedi para sair, fui tachado por meia redação de “completo doido varrido”…).

Encerrada a preparação da papelada, reparei um movimento estranho ao pé da rotativa (uma Goss de 1971!). Ué, manutenção às 8 e pouco da manhã de uma segunda-feira? O padrão era um pouco mais tarde. Como a rotativa era quase ao lado do Setor de RH não custava nada dar uma olhada, a última, no que acontecia ao pé da “boa e velha offset” (céus, mais de uma década vendo quase toda noite aquela geringonça reproduzindo textos meus na editoria de Esportes!…). Manutenção encrencada? Era coisa muito, muito pior. “Não, Blau” – respondeu-me, abatido, quase soluçando, o chefe do setor de Pré-Impressão, descartando a hipótese de manutenção – “Estamos desmontando a máquina… O jornal, hoje, começa a ser rodado em Recife… Aqui, acabou…”

Enquanto isso, uns 2 ou 3 gráficos entre os mais antigos, conhecedores profundos do equipamento, iam desmontando a Goss – lenta e respeitosamente, como quem cuida de uma joia -, ao mesmo tempo que enxugavam as lágrimas. Não precisavam dizer mais nada. Sabia-se há algum tempo que o dia que o DN deixasse de ser rodado em Natal seria a morte do velho matutino, ainda que alguns insistissem no contrário. Cada parafuso que caía, doía fundo. O pirulim-lulim das peças ao chão anunciava o fim de uma história (que se estenderia teimosamente por mais três anos). Chegara a hora. Era o luto.

O resto da equipe do parque gráfico – os outros componentes da equipe de pré-impressão, a “Turma da Rotativa”, operadores de chapas de fotolito e a equipe terceirizada que dobrava os jornais para distribuição – ficariam sabendo do desmonte e medidas relacionadas ao longo da tarde, â medida que chegassem. “Oficialmente”, para alguns, a rotativa estava sendo desmontada para recondicionamento no Rio Grande do Sul (!); por outro lado, havia a notícia que as peças seriam vendidas como sucata (algum tempo depois, o acervo quase  teve o mesmo destino), e talvez num futuro próximo o jornal adquirisse uma rotativa mais moderna (afinal, em breve o DN estaria de “casa nova”, um prédio considerável ao lado da Ponte de Igapó, com um belo espaço previsto para o parque gráfico que não mais existia)…

Silêncio de morte

Na redação, naquele momento, salvo um ou outro jornalista com mais de 25 anos de “estrada”, mais ninguém (aparentemente) dava notícia do que acontecia ali no próprio quintal – nem o editor de Esportes, que, ante minha despedida, disse “Bah, vais virar ‘chupão’, é?” em um tom debochado que nem merecia resposta…

Certo é que meia hora depois de ver o desmonte da rotativa, eu começava a escrever n’Nominuto.com, nas fraldas de Candelária. E sabia que o final da tarde no número 245 da Deodoro, em Petrópolis, seria de silêncio sepulcral no parque gráfico, indicativo da primeira (e naquele momento silenciosa) morte do DN – o matutino teria que “fechar” suas edições muito cedo, se aproximando de um vespertino sem sê-lo, findando sem ser uma coisa nem outra, e de imediato dando adeus à cobertura de jogos noturnos de futebol no meio da semana… era a crise, paciência.

Mais 3 anos

Um mês e seis dias depois, uma notícia varreu as redações de Natal – começava a “limpeza” da redação do DN. A “guilhotina” começou a passar por volta de 15 de março, e só parou no dia 10 de abril… e passou rente, quase uma “máquina zero” — da equipe que estava lá no dia que pedi demissão, só ficaram 5 pessoas: uma editora de Política, que findou na direção do impresso; uma repórter de Política, que assumiu a editoria onde estava; o editor de Esportes, que manteve a posição; uma repórter especial de Cultura, virou pauteira; e, salvo engano, o editor de Cultura, manteve a posição (mas viu algo estranho no horizonte – assim ouvi dele alguns anos depois – e, não demorou muito, saltou de banda). Houve uma recomposição com muitos novatos, uma espécie de “refundação”.

Por volta de junho de 2009 o DN se mudou para o prédio vizinho à Ponte de Igapó, onde antes havia apenas o transmissor da Rádio Poti (que mudou para Clube AM por volta de 2007 — eita, a memória está falhando!). O jornal resistiu o quanto pôde, mas não deu: em out.2012 o impresso virou história, o baque foi violento em toda a mídia local — e, ache ruim quem achar, seu fechamento causou um pavor inominável em toda a imprensa em Natal, pavor que é sentido ainda hoje (fev.2019) e não tem data para dissipar enquanto o jornalismo local não encontrar saídas para sua crise.

Em tempo: depois de alguma negociação, o prédio da “maré” foi negociado; atualmente (fev.2019) comporta uma unidade do Sesi. Já onde ficava a antiga sede da Deodoro, há um condomínio em construção.

Digitalizar ou perder a memória

Neste momento (fev. 2019) a luta é para digitalizar o acervo do DN. A UFRN — responsável pela guarda do acervo (parte considerável está depositada no Museu Câmara Cascudo) — tem buscado levantar fundos para viabilizar o escaneamento do material, conforme informação que circulou no Campus em nov.2018.

Afinal, mais de meio século de informação sobre Natal e sobre o Rio Grande do Norte está em jogo — não se trata de uma mera pilha de jornais velhos, quebradiços e poeirentos, mais recortes de jornal, fotos (algumas minhas!) e negativos fotográficos (usou-se filme no DN até meados de jun.2005; após, as fotos são predominantemente digitais), trata-se de uma parte da memória potiguar! — e, apesar de ter escapado de virar sucata, ainda corre risco de se perder. E considerando que quando um povo apaga (intencional ou acidentalmente) sua memória passa a não saber mais quem ele próprio é, tende a repetis os próprios erros e sua cultura tende a desaparecer… Creio que o Departamento de História tem mais informações.

*Fotos: Arquivo pessoal de Rogério Torquato (na primeira foto, a equipe reunida:a cabeleira era minha, tem Lourdinha, Carlos Magno, Iranilton Marcolino; mais perto Eduardo Maia, Fábio Cortez e Roberto Machado); a segunda foto é das máquinas

Tags: blau diario de natal jerns rogerio torquato time
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