O Bicão no carnaval do Rio de Janeiro

Edmo Sinedino,

bicao1_09Lendo meus arquivos (que um dia espero transformar em livro) me deparei com esse texto do carnaval de 2014.

Como estamos perto de um novo tempo de folia, republico aqui essa história sobre o impagável Bicão.

Esqueci dele, anda meio sumido, na verdade.

Vejam:

O Bicão no carnaval do Rio de Janeiro

Não era para contar, mas eu sou, confesso, um “fato furado”...não tem jeito.Era um segredo. Segredo de estado.

Foi assim: já tinha decidido que ia passar o carnaval 2014 em Natal, aliás como faço sempre. Pronto. Ponta Negra, Cidade Alta, Redinha e Rocas, seriam meus points, definidos, esquematizados.

E iniciou-se dessa maneira.

O primeiro “grito” foi em Zé Reieira, no show do maestro Gilberto Cabral, na quarta-feira.  Espetacular!

Na quinta-feira teve o Baile de Máscaras no Largo do Atheneu. Maravilha! Aliás, temos que tomar cuidado para que esse baile não se elitize demais e espante o povo.

E o carnaval do Sesc na sexta-feira, ótimo, e assim seria...Mas, quando foi no sábado, recebi um telefonema do Bicão.

O Bicão é o Vivaldo Lacerda (sua identidade secreta no face), vocês conhecem claro, quase todo dia ele sai nas colunas sociais e escreve artigos para jornais.

O cara é chapa quentíssima. É sócio benemérito do ABC aqui em Natal e do Flamengo, no Rio de Janeiro.

Inclusive muito influente. Nas eleições presidenciais, tanto nas de cá como lá o seu apoio é decisivo, sempre foi.

O convite que ele me fez eu não podia recusar.

Para que eu o acompanhasse ao Rio de Janeiro, me queria do lado dele na Sapucaí, onde estaria presente  todos os dias no camarote da Brahma.

Eu ainda ponderei, disse que tinha prometido a minha esposa ficar em Natal...Ele, no entanto, apresentou argumentos imbatíveis para que eu cedesse.

Cedi, aceitei viajar com ele ao Rio. Passagens pagas pelo empresário-engenheiro agrônomo-mentor político...enfim, o homem de múltiplas profissões, facetas, funções, ações.

Na Cidade Maravilhosa ficamos no quadriplex dos Sendas. Isso mesmo: a família do Sendas, um dos homens mais ricos da América Latina.

Ai do Bicão Vivaldo Lacerda se recusasse o convites dos Sendas. Matava o chefe da família de coração. Pois o nosso herói potiguar, para ele, era tudo na vida.

 Ficamos hospedados no ap luxuoso com serviço de hotel do Copacabana Palace, contratado especialmente para servir a ele e, claro, a mim, por tabela.

Eu estava de godela. Era amigo do Bicão, não nego. Surpreso, descobri que os nossos deslocamentos no Rio seriam de helicóptero.

Os Sendas não queriam submeter o amigo tão querido e importante ao trânsito louco do Rio. Descobri que o Bicão tem fixação por voar.

Concordei reticente, pois todos sabem que tenho medo de altura. Gente, mas foi tudo lindo e maravilhoso, apesar do meu pânico das alturas.

Andar no Rio ao lado do Bicão Vivaldo Lacerda é experiência única, podem acreditar. Só não gostei muito das confusões que alguns famosos fizeram para estar com ele.

Uma forçação de barra.

Romário, Ronaldo, Neymar, Ricardo Teixeira, Aécio Neves, Roberto Dinamite (mesmo sabendo da paixão dele pelo Flamengo), Eike Batista, Bebeto (que ele só trata por Zé Roberto), Raimundo Fagner, Boni da Globo, Michel Temer, Eduardo Cunha, Joaquim Barbosa (ele mesmo, o ministro do STF)...esse povo todo dia ligava para Vivaldo, todo santo dia.

Acreditem, até o chefe da família Sendas, o mesmo que deixou um helicóptero 24 horas à disposição do nosso herói, pedia permissão para ir também no vôo.

E o camarada era o dono do avião, imaginem...

Vi Zico ir ao quadriplex pelo menos umas cinco vezes num mesmo dia tentando convencer o nosso Bicão Vivaldo Lacerda a desfilar com ele no carro alegórico.

E Vivaldo sempre negando.

Zico, acreditem, chegou a dizer que mudaria o enredo e o "Arthur X - O Reino do Galinho de Ouro na Corte da Imperatriz" mudaria para “Arthur X – O reino do Galinho na corte da Imperatriz e do Imperador Bicão”.

E acreditem, mesmo assim o nosso herói da terra de Camarão, humilde, disse não. E toda hora ele me confessava arrependimento por ter viajado.

“É muita badalação, amigo, não gosto disso, sou um cara sossegado”, eu sei que ele é. Que não gosta e nunca gostou de aparecer.

Faz de tudo para evitar ver seu nome nas mídias ou na boca de radialistas chinfrins.

Durante todos os dias de carnaval, desfiles, os carnavalescos da Mangueira, Vila Isabel, Salgueiro, Portela, Unidos da Tijuca, todos, todos, todos do primeiro grupo queriam que o nosso ilustre convidado desse a honra de vestir a camisa de suas escolas e desfilasse.

Era uma chatice esses caras na porta do quadriplex a toda hora do dia e da noite. A gente nem podia descansar direito das folias da noite.

Mas ele sempre recusando, e foi assim meu carnaval.

Como ele recusava, claro, passava  a bola para mim, sabendo o quanto tenho de samba no pé, do tanto que sou animado e carnavalesco, sobrou para mim.

Com a moral do cidadão potiguar número um, me aproveitando de seu prestígio, saí em todas as escolas do primeiro grupo, e sem gastar uma ruela que fosse com fantasia.

Os ilustres, em atenção ao “Cara”, me davam tudo de graça. Quanto eu chegava nos barracões a turma já sabia: “chegou o moço amigo do imperador Bicão”, ouvia os cochichos de invejosos pelos cantos.

Acreditem: foi assim em todas as escolas.

Um carnaval inesquecível na Sapucaí com os holofotes da Globo, até com legenda quando eu aparecia na imagem: “o amigo do Bicão”.

Impressionante, né não? E no camarote da Brahma? Minha nossa! Era tanta gente querendo ser fotografado ao lado do Bicão...E tudo gente famosa, tá pensando o que?

Simples mortais não chegavam perto de jeito nenhum. Os seguranças não deixavam. Tinha que ser, no mínimo, ator global dos mais famosos.

Políticos, só se fossem do círculo de amizade de Fernando Henrique Cardoso, Aécio, Serra ou da clã dos Marinho,.Civita e Frias....

Até Suzana Vieira, que pega todos, quis ser fotografada ao lado do nosso herói potiguar, acreditem: ela quis pegá-lp. Ele, nem aí para a velha coroca sacudida.

Menino, isso deu um babado...as várias mulheres que vivem no pé do Bicão no Rio, e as de Natal também, ficaram sabendo...tome arranca rabo.

Pois é isso, Suzana até teve um entrevero com Ana Maria Braga, isso mesmo. Tudo valia para aparecer às custas, ao lado do nosso embaixador potiguar que vocês conhecem como o Bicão, é evidente.

Um carnaval que vai ficar para sempre na minha memória. Ficou.

Eu só não entendi uma coisa nesses dias todos de Rio de Janeiro, todas as vezes que o Bicão  estava meio bebum, começava a chorar, a espernear, deitar no chão feito criança malcriada e ficava gritando coisas ininteligíveis.

Eu só entendia uma frase. Ele dizia assim: pelo amor de Deus! Tirem essa mulher da Polícia Rodoviária daqui! Tirem esse mulher fardada daqui! Levem ela! Me livrem dela pelo amor de Deus!.

E berrava também, alto, com raiva, que “ela ia se prejudicar” e que ele "não faria bafômetro de jeito nenhum..."

Coitado, acho que a bebida fundia a sua cuca. Ele, vai ver, é daqueles que não podem beber. Uma coisa é certa: nesse carnaval cheguei à conclusão final: o  Bicão, é mesmo “o cara”.

E deve ser por isso que desperta tanta inveja de colunistas, jornalistas e ex-jogadores frustrados...


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