O dia em que Danilo Menezes virou "João"

Edmo Sinedino,

Já contei no blog, nas páginas do Diário de Natal, no meu tempo de editor, muitas histórias de Danilo Menezes.

Hoje, sexta-feira (17), em homenagem aos seus mais de 90 anos de vida (ele diz que é pouco mais de 70) reproduzo algumas delas.

Essa aqui foi o dia em que ele foi marcar Garrincha.

Vejam:

Apreciava demais chegar à Fenat, antiga, e me reunir com a turma para falar de futebol. Claro, no centro, ele, Danilo Menezes Nuñes.

Danilo dispensa apresentação, mas pode ser que tenha alguém desavisado e eu informo: Danilo Menezes é uruguaio, nascido na fronteira, na cidade de Rivera, atravessando a rua é Santana do Livramento no Rio Grande do Sul.

O nosso gringo chegou em Natal no ano de 1972, e salvo algumas saídas para o Botafogo da Paraíba, fincou raízes em Natal.

Não me perguntem quantos anos ele tem, não sei. Dizem que o saudoso Hélcio Jacaré tinha os documentos originais do nascimento do gringo, mas não posso afirmar.

Até hoje, o que tenho absoluta convicção é que nem mesmo os filhos de Danilo sabem quantos anos, de verdade, ele tem.

Na sua carreira gloriosa vestiu a camisa do Nacional de Montevidéu, na época uma das melhores da América do Sul, foi seleção uruguaia, disputou jogos nas Eliminatórias para a Copa de 1966.

Os mais maldosos, falsos amigos, afirmam que ele fez parte da seleção uruguaia campeã do mundo em 1950, no Brasil...

Portanto, esse é Danilo, nosso ídolo, ex-atleta querido de todas as torcidas, funcionários público, hoje aposentado, da SEL – Secretaria de Esporte e Lazer.

Faz uma falta danada. A SEL nunca mais foi a mesma. Eu mesmo, confesso, nunca mais fui lá depois que ele e Fabíola se aposentaram.

E agora, imaginem, é que não vou mais mesmo.

Nas nossas visitas quase diárias como repórter e amigo, se ele não estivesse, com Fabíola, de preferência, nem tinha graça ficar na fundação, à época ainda não era secretaria.

Tomávamos café no barzinho do Baixinho Genival, nos sentávamos e tome falar de futebol, da vida alheia, do presente e do passado.

Danilo, com suas décadas e décadas de vida tinha histórias demais para nos contar.

Certa vez, entre sorrisos, e saudades, ele narrou para mim, para a gente, o dia em que Garrincha fez dele mais um “João”.

João, todos sabem, era o apelido que Mané colocava nos seus marcadores. Essa história, fantástica, hilária, aconteceu quando Menezes defendia o Vasco da Gama.

Ele ele começa a narrativa:

- Foi o meu primeiro jogo pelo Vasco contra o Botafogo. Os caras falavam demais do Mané. Diziam maravilhas, mas eu havia chegado há pouco, nem tinha visto direito o “hôme” em ação. Mas pensava comigo que não devia ser grande coisa.

- Fomos para o campo, eu bem confiante – narra.

- Eu ia jogar nesse dia de ponta-esquerda, Oldair (aquele mesmo que depois jogaria no Atlético Mineiro) era o lateral, lateral mesmo.

- “Seu” Zezé (Moreira, técnico) pediu para eu fechar o espaço e voltar para ajudar Oldair. Eu não gostei muito, afinal eu era meia e não gostava de jogar na ponta e nem muito menos marcar ninguém- acrescenta nosso gringo

- Mas tudo bem. Tava precisando mostrar serviço. Entramos em campo e eu tive a curiosidade de olhar para o famoso Garrincha. Nunca tinha visto ele de perto - confessou.

- Olhei, olhei, e pensei comigo: “pô, o sujeito é um aleijado, anda todo torto, um joelho para dentro e outro para fora, como é que os caras levam drible dele?

- Se eu soubesse.

-Oldair chegou perto de mim e apontou para Mané dizendo: “o cara é esse, cuidado com ele é arisco e ligeiro demais”.

- E ainda acrescentou me metendo medo: “não esqueça! Você faz o primeiro combate, e eu chego depois para roubar a bola”.

- Concordei. Ainda me alegrei, nem sei porque: vou me consagrar hoje, pensei aquecendo animado. Ah! se eu soubesse...

-E o jogo começa. Bola pra qui, bola pra lá. Nada. Ele lá no canto dele. Nem pedia a pelota, quieto, sossegado. Cheguei a conclusão que ia ser mesmo moleza.

-Nunca estive tão enganado em minha vida...

-Pois bem, na primeira bola que deram pra ele eu fiz cara feia, cheguei pesado para ele saber que não ia ter moleza, vupt! Nem vi o vulto do cara. Ele passou por mim e Aldair de uma vez só.

- Deu mais um drible em Fontana que deu ‘carrinho’ no vento, cruzou na medida para Amarildo fazer 1 a 0.

-Fiquei pensando comigo: como diabo ele fez isso? Nem bem a gente chegou perto ele já estava dois metros adiante.

- Pois é, eu e Oldair levando bronca de “seu” Zezé e a torcida delirando feliz no Maraca e tome vaia na gente. Eu fui inchando, me dando uma raiva...

E o jogo seguiu. Fiquei p. da vida, claro. Olhei para Oldair e combinei:

-Na outra a gente pega, deixa ele se alegrar, eu vou dar o primeiro combate, chego na frente, como quem não quer nada, e na hora que eu chegar junto nele você chega logo depois, para não ter como ele escapar. Se ele passar por mim vai trombar em você.

- Oldair concordou.

- E lá vem ele, balançou uma vez, duas, passou por cima da bola, voltou, repetiu a firula e preparou o bote. Tinha certeza que ele ia partir com tudo. Fechei os olhos e me joguei em cima dele...

-Caiu aquele bolo nós dois rolando, eu pensei: te peguei aleijado filho da puta, mas, estranhei as risadas e as vaias da torcida…

Quando abri os olhos, menino! Eu estava no chão agarrado com Oldair, a gente caiu junto, ele driblou nós dois e já tava cruzando de novo da linha de fundo.

Perdi a paciência. Olhei com raiva para Oldair e disse: tu cuida dele sozinho, pois você é o lateral, eu é que não vou mais aí.

-E não fui mesmo. Perdemos, acho que de 3 a 1.


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