Queria ser Cocó, mas meu irmão errou o acento gráfico

Edmo Sinedino,

coco2_09Antes mesmo de pensar em me tornar jornalista, afinal meu sonho sempre foi ser jogador de bola, já me incomodava as injustiças.

Qualquer tipo.

Me lembro, menino, assistindo aos treinos do ABC no velho estadinho do Tirol,e já, no meu canto, indignado com a falta de respeito de alguns torcedores com os atletas.

O alvo, como hoje, como sempre, os pratas da casa. Deve ser por isso que me acompanha esse “ranço” e empunho essa bandeira sempre.

Num desses treinos, o atacante Cocó, grande jogador, dono de uma história linda no ABC e no futebol do RN, já veterano, era reserva do mesmo alvinegro, seu time de coração.

No coletivo, assim que entrou depois do intervalo, Cocó recebeu um passe, acho que do meia Debinha, e chutou. A bola passou longe.

Um desses torcedores que, infelizmente, deixou seguidores, muitos, gritou: “bota uma garrafa de cana no pé da trave que ele acerta”.

Tipo da maldade desnecessária, machucante, diria até que doente.

Naquela época, o artilheiro centroavante já estava nos últimos dias de sua carreira.

Outra vítima, das tantas aberrações de "torcedores" foi o Baltazar. Jogadorzão que demorou a ter sua qualidade reconhecida.

Apesar de jogar bem e ter um chute especial de potente, sempre foi relegado a segundo plano, quase nunca tinha chance de uma sequência de jogos para se firmar.

Entrava com o jogo no final, e todos querendo que ele resolvesse...como hoje, ainda.

Outra vez no JL, dessa vez uma partida valendo pontos, acho que ABC x Atlético.

O treinador, não lembro se Álvaro Barbosa, eu era muito pequeno, fez entrar o jovem valor. Faltavam dez minutos e partida empatada.

O "Moleque Travesso" aprontando e a torcida irritada. A do América, vibrava.

No primeiro lance, não mais que no primeiro lance, Baltazar pegou a bola, avançou e chutou no gol, mal, a bola também passou longe.

Na mesma hora, sem perdão, a voz da desgraça perseguidora dos valores da terra: “Treinador burro, tira essa murrinha, né Baltazar não, é Botazar...”

Me doía ouvir essas e outras.

Me lembro de Miro Cara de Jaca, Piaba mesmo, Lolô, Cidão, Pilão, Romualdo,  Maia, Bozó, João Galego, Babau, Josemar e tantos outros grandes jogadores da terra, todos, vítimas da sanha desse tipo abominável de torcedor.

Voltando a Cocó, e para que você que está tendo a paciência de ler não ache que só escrevo tristeza, vou narrar essa historinha de fazer cair de rir.

Eu já contei, mas muita gente, certamente, ainda não viu.

Eu era fã do Debinha, do Zé Ireno, do Élson, mas os gols de Cocó no ABC logo chamaram minha atenção de menino sonhador num certo período.

A gente "queria ser o ídolo", aclamado e famoso como tal e tentávamos imitá-los de todas as formas.

Um ex-craque chamado Araújo, zagueiro do RAC, que morava na vizinhança, me chamava de Debinha. Nem precisa dizer que eu adorava.

Cerat vez, nas peladas de rua, verdadeitas decisões de campeonato, pedi a meu irmão Edinaldo que escrevesse,  nas costas da camisa branca (correndo o risco de levar uma surra de Toinha) o número 9 e o nome Cocó.

Pois bem, Naldo trocou os acentos gráficos, o agudo pelo circunflexo e eu fiquei sendo o jogador Cocô...

Vocês não imaginam a quantidade de socos e pancadas que troquei aos meus nove anos para que esse erro de acentuação não marcasse toda a minha infância.

*Nas fotos, Cocó no ABC, ao centro, agachado, e na seleção do RN, agachado, o primeiro da esquerda para a direita.

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Tags: baltazar botazar coco debinha miro cara de jaca
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