Entre lanternas e livros

O caso da onça que deu literatura

Michelle Paulista,

(Republico um dos meus textos preferidos, ainda em clima de Flin)


  O professor, pesquisador, folclorista e etnógrafo Veríssimo de Melo cultivava o hábito de corresponder-se com seus amigos ora para tratar de assuntos pessoais, ora para falar-lhes de poesia, política, literatura ou... amenidades. Tal correspondência constitui hoje um valioso acervo e fonte de pesquisa de indiscutível valor histórico e cultural, pois há nas missivas registros de importantes acontecimentos do panorama artístico-cultural do Rio Grande do Norte – quiçá do Nordeste.

  Espalhadas entre amigos e familiares de amigos, as cartas de Veríssimo, além de acontecimentos relevantes, registram ainda “trivialidades”. Todavia, são as aparentes banalidades do cotidiano o combustível e a matéria prima para as crônicas mais interessantes, se é que podemos falar nesses termos módicos.

   Silvio Rabello, em prefácio de um dos livros de Veríssimo, faz menção a um nome igualmente importante da cena literária potiguar: Nilo Pereira, escritor radicado em Recife, nascido em Ceará mirim, terra que nunca saiu de sua mente e coração. Para Rabello, Nilo parecia escrever “de pijama”, tamanha seria sua naturalidade com as letras. Em muito por seu espírito visionário, Veríssimo já vislumbrava a necessidade de deixar como legado aos pesquisadores futuros o acervo de cartas de que dispunha. A exemplo do que fez com sua correspondência com outros importantes nomes, reuniu algumas das mais significativas missivas trocadas com Nilo Pereira.

 Mais uma vez, o intento do etnógrafo e folclorista, ao publicar parte de sua correspondência, era oferecer às futuras gerações um lugar de contribuição para futuros ensaios e análises interpretativas do fulgurante escritor e humanista norte-rio-grandense, nascido em Ceará- mirim. Nilo, O barão de Guaporé, “valia por uma Universidade”, nas palavras do escritor, acadêmico e ensaísta Manoel Onofre Jr. Em 1992, Veríssimo publica “Nilo Pereira – cartas de emoção e de humor”, pela Academia Norte-Rio-Grandense de Letras, síntese de uma amizade de trinta anos, grafada em correspondências que, na opinião de Veríssimo, trouxe-lhe “maiores conhecimentos literários e culturais”.

  Em uma das cartas publicadas no referido volume, há uma que chama à atenção pela intertextualidade que estabelece com o célebre romance Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis. No famoso romance realista, Brás Cubas, em delírio, acha-se “cavalgando” em um imenso hipopótamo, a ir em busca da origem dos séculos, sobre planícies de neve...  Ultimamente, restituído à forma humana, vi chegar um hipopótamo, que me arrebatou. Deixei-me ir, calado, não sei se por medo ou confiança; mas, dentro em pouco, a carreira de tal modo se tornou vertiginosa, que me atrevi a interrogá-lo, e com alguma arte lhe disse que a viagem me parecia sem destino. -- Engana-se, replicou o animal, nós vamos à origem dos séculos”.

  Não faremos considerações acerca dos aspectos filosóficos/estéticos/literários que permeiam o excerto machadiano; citamo-lo apenas como referência. Nosso deleite é o diálogo Nilo-Veríssimo. Com todos os perdões, o bruxo do Cosme Velho será matéria para outra prosa.

A onça

  Certamente que o episódio que intitula este artigo é mais pitoresco e – ousamos dizer – verossímil. Não pela narrativa propriamente, posto que há contornos literários. Mas porque se desdobra de um acontecimento real: uma onça que fugiu de um circo em Ceará Mirim, nos idos de 1951. Sobre esse acontecimento, Nilo escreve uma carta, qualificada por Veríssimo como “deliciosa”. Eis um trecho:

“Fiquei imaginando um animal de proporções gigantescas – uma cachorra bíblica ou besta apocalíptica, ─ sobre o vale, uivando de cólera. Os olhos chispam de rancor, as patas sussurram iras sobre os canaviais, a cauda espadana rancor como um látego dantesco. Depois desse delírio machadiano, o felino volta ao natural. E é neste momento que chegamos nós, os caravaneiros, para liquidar o monstro. A hora é crucial. Não pode haver um instante de indecisão. A onça olha-nos de sua toca, sinistra e hedionda. Alçamos a mira. E, ou fazemos fogo, rápidos e firmes, ou o animal, como um demônio alado, se precipita sobre os homens bons, que defendem o vale. Os tiros atingem o alvo. Um uivo de dor atroa os ares. E o vale todo se enche de um bafo morno de ira e vingança. A onça estende sobre o canavial o seu negrume derrotado”. (...) Basta de tanta imaginação, caro Veríssimo. Essa onça já arrancou muita literatura”.  E encerra, sempre muito estilístico: “(...) aqui pingo o ponto final, com um fel no abraço do velho amigo da onça, Nilo”.  (Carta de Nilo Pereira a Veríssimo de Melo, em 23 de março de 1951).

  Homem de leitura que era, Nilo chegou a receber prêmio na Academia Brasileira de Letras (afora ele, somente o mestre Cascudo). Não se discute que lera com “independência” o clássico que conta a história de Brás Cubas. Numa aventura narrativa bem-sucedida, a meu ver, o barão tece um enredo mesclado de elementos místicos/religiosos com aspectos épicos, tendo os caravaneiros (nos quais se inclui) como vencedores. Final feliz! O que intentava Nilo? Metaforizar alguma peleja política? Ou materializar alguma aventura vivida ou sonhada durante a infância nos canaviais? Talvez simplesmente (?) a balbúrdia que se estabelecera numa pacata e provinciana cidade do interior, ausente de expedientes, quando de um acontecimento tão inusitado. Se tentarmos responder, a graça desaparece. Fica a cargo do leitor.

  É de muita felicidade, por fim, a descrição que Veríssimo faz da visão de Nilo, num belo tracejo semântico: “É que ele, apesar de ter sido operado de catarata, ainda vê melhor do que qualquer um de nós. Vê perscrutando. Mais por dentro que por fora”. Decerto, só os de visão de metades, visão privilegiada (veem simultaneamente dentro e fora), são capazes de delirar acordados.



A formiga e o poeta

Michelle Paulista,

Por ocasião da mesa de abertura do FLIN - Festival literário de Natal, relembro o início da amizade com o professor Diógenes. 

(Texto publicado na Revista da Academina norte-rio-grandense de Letras, Edição 47 - abril/junho/2016)


  A data exata, não lembro. Sei que era uma manhã junina. Dias antes, num misto de ousadia e coragem – não são, absolutamente, a mesma coisa – liguei para o escritório do Dr. Diógenes da Cunha Lima, cujas apresentações são desnecessárias. Já supunha as respostas prováveis: “quem gostaria”?, “é sobre o quê?”, “Michelle, de onde?” Mas enquanto imaginava negativas, eis que ouço uma voz grave do outro lado: pois não, Michelle?

  Como assim? Me chamou pelo nome! A secretária deve ter avisado que uma certa pesquisadora desejava falar-lhe e ele... atendeu! Existe, acaso, algo mais gentil que dirigir-se a alguém chamando-lhe o nome?

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  Volto à manhã de junho. Estou na sala do Dr. Professor poeta; frente a frente, estamos. Falo coisas sem ordem; desobedeço ao “script” ensaiado na véspera: tento, sem sucesso, dizer que busco cartas entre poetas potiguares para um projeto acadêmico de pesquisa. Embora leitora de muitos poetas e já tendo estado com alguns, devo confessar que a presença de Diógenes me desconcertou. Não sei se me pus nervosa, alegre, comovida. Diante de mim, um homem tão sensível, erudito, tão bem sucedido nas letras e na profissão, mas de tamanha generosidade e solicitude. Um homem tão... poeta!

  Ainda que eu mobilizasse todas as construções estilísticas que pudesse – ou as tomasse de empréstimo de algum poeta dos bons – custar-me-ia descrever os instantes em que estivemos versando sobre poetas, poesia, vida, amor, Deus. Os olhos marejaram, não nego. Saí daquela sala com alma, corpo, roupa, adornos impregnados de poesia e vida, assim como fumaça de fogueira junina gruda seu odor em todas as coisas.

  Obrigada, Diógenes da Cunha Lima, por me fazer vivenciar tão belo instante poético.

  Com incomensuráveis admiração e gratidão.



FLIN - Natal será, por quatro dias, a capital da literatura

Michelle Paulista,

Nos próximos 8, 9,10 e 11 de novembro, acontecerá o Festival literário de Natal, na boêmia Ribeira. Os entusiastas da literatura esperam ansiosamente por este momento, numa cidade de tão parcos incentivos às letras.

Neste ano, terei  a honra de participar do festival mais ativamente, na mesa “O literário em Veríssimo de Melo", juntamente com o imortal Diógenes da Cunha Lima.

Minha alegria é imensurável. Certa vez, ouvi de um velho professor que nós, amantes e pesquisadores da Literatura, éramos como que zumbis ambulantes. Literatura não vende, não dá votos, não causa frisson. Principalmente a literatura que assim se justifica por seu valor estético. De modo que eventos como FLIN é uma espécie de refúgio, afago às almas que amam a humanização que somente a Literatura promove.

Portanto, queridos leitores, convido todos que me leem a nos prestigiar com suas presenças na quarta-feira, 08, na Tenda Moacyr Cirne para falarmos dos aspectos literários da obra do nosso Vivi.

Eis a programação completa do Festival:

PROGRAMAÇÃO DO FESTIVAL LITERÁRIO DE NATAL - FLIN 2017

QUARTA-FEIRA (08.11)

18h – Tenda Moacy Cirne

‘O Literário em Veríssimo de Melo’

Diógenes da Cunha Lima e Michelle Paulista

19h – Tenda dos autores

MESA 1: ‘Tropicália Lixo Lógico’

Com Tom Zé | André Vallias

20h - Tenda dos autores

Mesa 2: Tropicalismo: inserção & desdobramentos

José Carlos Capinan | Carlos de Souza

Participação Gereba Barreto

21h -Mesa 3 - O Escritor Militante

Com Zuenir Ventura | Mauro Ventura | Edney Silvestre

22h – Palco

Show musical de Tom Zé

QUINTA-FEIRA (09.11)

8h - Abertura do Espaço Sesc/Flin

8h às 9h - Contação de Histórias com Ivan Zigg- RJ

9h às 10h - Contação de Histórias de O Tapete Voador- PE

Com Mila Puntel (atriz e contadora de histórias) & a pernambucana Bruna Peixoto (musicista e contadora de histórias).

10h às 11h   - Um livro para cada leitor: Kalliny Moura e Márcio Benjamin Mediação da jornalista e poeta Michele Ferret

13h às 14h - Contação de Histórias- Ivan Zigg- RJ

14h às 15h - Contação de Histórias- O Tapete Voador- PE

15h às 16h - Traço e rabisco, o que é isso? : Luiza de Souza-RN e Aureliano Medeiros-RN. Mediação de Michele Ferret RN

18h – Tenda Moacy Cirne

‘Nísia Floresta’

Com Diva Cunha e Nivaldete Ferreira

FESTIVAL DE VIOLEIROS

19h – Tenda dos Autores

Tema:  ‘A poesia de Hilda Hilst, por Zélia Duncan”

Com Zélia Duncan

20h – Festival da viola

Apresentações de Sebastião Dias e Zé Carlos do Pajéu | Oliveira de panelas e Zé Viola | Ivanildo Vila nova e Raimundo Caetano | Valdir Teles e Severino Feito | Ismael pereira e Jonas Bezerra | .Aboiador Amâncio Sobrinho

Participação especial: Jessier Quirino – pocket show

22h – Show musical de Zélia Duncan

SEXTA-FEIRA (10.11)

8h as 9h - Contação de histórias Grupo de Teatro Clowns de Shakespeare-RN

9h as 10h -  Contação de histórias Companhia Pé de Baobá- PB

10h as 11h - Nerd e Otaku: diálogos de força: Gabriel Andrade-RN, Giovana Leandro-RN e Paulo Morais-RN. Mediação de Milena

Intervalo

13h as 14h - Contação de histórias Grupo de Teatro Clowns de Shakespeare-RN

14h as 15h - Contação de histórias Companhia Pé de Baobá- PB

15h as 16h   Mistura de versos: poesia, cordel e rap: Manoel Cavalcante-RN, Regina Azevedo-RN e Fábio Brazza- SP. Mediação de Carlos Fialho-RN

17h40 – Lançamento da Revista cultural digital #Brouhaha – 2017/01

18h – Tenda Moacy Cirne

“Conversas com Woden Madruga – 60 anos de jornalismo”

Com Tácito Costa, Franklin Jorge e Beatriz Madruga

Os convidados pontuarão a trajetória do decano do jornalismo potiguar, falando em jornalismo, política, cultura, cultura popular, memória, livros, amigos e cartas

19h – Tenda dos Autores

MESA 1: ‘romance: Ficção e Memória’

João Almino e Humberto Hermenegildo

20h – Tenda dos Autores

MESA 2: ‘Vale Tudo em Poesia?’

Antônio Cícero, Nelson Ascher  e  Vicente Serejo

21h – Lançamento de “Entre Facas, Algodão”, de João Almino

(Local: Estande da Cooperativa Cultural no FLIN)

21h10 – Tenda dos Autores

Mesa 3: Literatura e Cinema

Marcelo Rubens Paiva e Carla Camurati

22h – Palco

Show musical de “Os Nonatos”

SÁBADO (11.11)

18h – Tenda Moacy Cirne

“Frei Miguelinho e Manuel Dantas”

Com Edgar Dantas e Gustavo Sobral

19h – Tenda dos Autores

MESA 1: “Políticas Públicas para a Cultura Popular ”

Antônio Nobrega e Luiz Assunção

20h – Tenda dos Autores

MESA 2: “O Rebelde do Traço & Outros Traços”

Jaguar  | André Dahmer  | Claudio Oliveira | Ivan Consenza

21h – Tenda dos Autores

MESA 3: Xica da Silva, a Princesa Negra

Ana Miranda  e Marlui Miranda

22h - Show: Antônio Nóbrega em

 “Um Recital para Ariano Suassuna”

ESTANDES DAS EDITORAS

EDITORA SEBO VERMELHO

Lançamentos:  “Vila Nova – Mito, Versos e Viola” e “Fabião das Queimadas – de Vaqueiro a Cantador” (Irani Medeiros)

Curta-metragem: “O recanto de Carmin” (dir.: Felipe Silva de Oliveira)

EDITORA QUEIMA BUCHA

Quinta-feira: “1927‑2017 – 90 Anos da Invasão de Lampião a Mossoró “,  Livro de Literatura de Cordel (autor: Neto Braga)

Sexta-feira

 “Uma história de fé e cura – Contada em prosa e em prece” (autora: Francisca Fernandes de Oliveira Gomes). Relato da autora, sobre a descoberta do câncer de mama em sua filha. Do tratamento à cura.

  “Aves de arribação-Lendas e canções sertanejas” (Autor: José Leão – 2ª edição. Livro do poeta assuense, publicado originalmente em 1877. Com posfácio de Alexandre Alves

Sábado: “Espelho” – Poesia (Autora: Camila Paula)

Disponível em: http://natal.rn.gov.br/noticia/ntc-27255.html. Acesso em 04/11/17



De Salinas e Poesia: Uma leitura de "O navegador e o sextante", de Gilberto Avelino

Michelle Paulista,

Novamente faço questão de tratar dos poemas reunidos na obra “O navegador e o sextante”, do poeta potiguar Gilberto Avelino. Radicado em Macau e filho do também poeta Edinor Avelino, Gilberto fez das salinas o seu chão poético e a matéria principal da sua poesia. Lançado em 1980, o livro reúne quarenta e três (belos) poemas nos quais a temática principal é a terra que adotara como natal e suas salinas, maresia, lendas e águas coloridas a formarem-se pedras de sal. O poeta também homenageia, em seus versos, alguns nomes do cenário literário potiguar, tais como Jorge Fernandes, Veríssimo de Melo, Newton Navarro, dentre outros. Além de exaltar a sua cidade Macau, Avelino também milita em causas sociais, sempre com o olhar refinado de um poeta que cantou as tradições da sua terra, a beleza das mulheres, a denúncia social e as angústias pessoais. São publicações suas: Moinho de vento (1977), O navegador e o sextante (1980), Pontos cardeais (1982), Elegias do mar aceso em Lua (1984), O vento leste (1986), Além das salinas (1991) e As marés e as ilhas (1995).

Leiamos “O meu canto”, um dos mais belos de Gilberto:

O MEU CANTO

O meu canto quero assim,

Claro, livre, sereno.

Suave de neblinas,

De som de asas de andorinha.

Participante, simples.

Rosa nascendo

Para o prazer

Do olfato e do tato.

Descendo em mão

Para o aperto sincero

De outra mão,

Que padece e anseia.

Eu o quero

Claro, livre, sereno.

E que tenha a saudade

Dos lenços em aceno.

  Em contraste à tensão lida no poema Este canto, não, temos outro canto: o da esperança e do desejo de liberdade. Avelino parece denunciar a ânsia de um novo modo de tratar os salineiros e suas condições de trabalho. É possível, sob outro olhar enxergar, ainda nesses versos, a necessidade de uma poética sem prisões, formatos ou balizas. Para referir-se ao tal canto almejado, Avelino mobiliza os adjetivos suave, participante, simples, claro, livre, sereno. Os termos aqui empregados sugerem leveza, coisa aprazível. Remetem à solicitude de quem estende a mão a quem precisa de ajuda: “Descendo em mão para o aperto sincero de outra mão, que padece e anseia”. (Avelino, 1980, p. 68). Na penúltima estrofe, vê-se a reiteração de como o poeta quer o novo canto, comparando-o ao sentimento de saudade; não à concepção ampla do termo saudade, mas uma saudade “específica”: aquela materializada em lenços usados em despedidas.

  Viva o doce sabor da poética de Gilberto Avelino, poeta das marés e dos cercos de sal!

 

AVELINO, Gilberto. O navegador e o sextante. Natal: Fundação José Augusto, 1980.



Avenida de todos, Avenida 10

Michelle Paulista,

Uma das mais emblemáticas canções da música potiguar é “Avenida 10”, composição do natalense Babal, imortalizada na voz de Geraldo Azevedo.

Encravada no gracioso Alecrim, é hoje denominada Leonel Leite/ Paianazes, mas consagrada como Avenida 10 pela boca do povo, língua certa do povo, o povo que fala gostoso, como rezam os versos modernistas de Manuel Bandeira. Quem é dos filhos de Natal, legítimos ou adotados, que não conhece a “10”? Rua de comprar utensílios diversos, sandálias oferecidas, dispostas em banquinhas de madeira, arranjos de flores plásticas, capas de celular, relógios e tudo o mais que não possa imaginar algum incauto a quem não foi dado o azo de conhecer o mais cheio de predicativos bairro da cidade do sol...

“Avenida dez” é uma daquelas canções que são metonímia de um lugar, tal qual “Linda Baby”, de Pedro Mendes e Serenata do pescador (Praieira), de Othoniel Menezes.

Seguem os versos:

Desde o tempo de menino eu brincava 
Com ar de sonhador 
Conheci a natureza 
Beijando meus pés 
O movimento da vila da rua 
O ronco do tambor 
Em todos os arredores 
Da avenida 10

Os guaranis festejando a paz 
O guerreiro bumbum 
Éramos todos devotos 
Meninos fieis 
Quando não era possível ter sonho 
A gente tinha um 
E ele girava em torno 
Da Avenida 10

O movimento do parque 
O jogo de bola na lama 
A bandeirinha é o poste 
Bom barquinho eu quero passar 
A lata no carnaval 
Pra nós tudo aquilo era a vida 
Em meio aquela alegria 
A bagunça saía a tocar

Minha casa bananeira o jardim 
Os meus amigos, eu, 
Quinho, Bonfim, Nelson, 
Neguinho e Moisés, 
Galvão, Fernando, João e Omar 
Todos irmãos Eris 
Hoje nós somos saudades 
Da Avenida 10

“Avenida 10” parece ter braços, ousa- nos conduzir ao movimento, à dança; quase uma redação persuasiva. Impossível ouvir essa pérola e não ter vontade de dançar. A melodia tem poder sobre nossos músculos faciais: vamos fazendo aquela expressão de satisfação, um sorriso de lábios ajuntados, uma vontade de fechar os olhos, tal qual quando comemos aquela guloseima proibida. É executar Avenida dez e constatar as expressões faciais que resultam da audição dessa linda letra!

“Avenida 10” promove a mesma sensação de pegar um ônibus vazio, no meio da tarde: o vento soprando no rosto, assanhando o cabelo e refrescando o corpo: canção deliciosa de degustar. Não se contenta em dominar a audição, empreende um caminho sinestésico, adentra os poros, invade as narinas e faz uso de todos os nossos sentidos, proporcionando sabores, inclusive.

Considero Avenida dez mais que uma declaração de amor ou uma reminiscência de infância... é um valoroso presente às letras, à música, à poesia e às almas do povo de Natal, sedentas de belezas que são.



Jorge Fernandes, 90 anos de poesia

Michelle Paulista,

Nos dias 26 e 27 de outubro, acontecerá o evento “Jorge Fernandes: 90 anos de poesia”, na UFRN.

É uma celebração alusiva aos 90 anos do Livro de Poemas de Jorge Fernandes, poeta precursor do Modernismo no Rio Grande do Norte, amigo de Câmara Cascudo, conhecido por Mario de Andrade e elogiado por Manuel Bandeira.

As atividades acontecerão no Auditório do Instituto Ágora, UFRN, com inscrições via SIGAA. Segue programação:

26/10/2017

14h às 17h

Oficina: “Leitura do texto poético de Jorge Fernandes”

Prof.  Humberto Hermenegildo

Prof.  José Luiz

19h às 21h

Mesa-redonda:  “Jorge Fernandes e a literatura local”

Prof.  Humberto Hermenegildo

Prof. João Palhano

Prof. Tarcísio Gurgel

27/10/2017

14h às 17h

Oficina: “Leitura do texto poético de Jorge Fernandes”

Prof.  Humberto Hermenegildo

Prof.  José Luiz

19h às 21h

Mesa-redonda:  A poesia de Jorge Fernandes: texto e circulação

Joatan Medeiros

Charlyene Sousa

Alexandre Alves


Caju nasceu pra cachaça - a verve musical de Veríssimo de Melo

Michelle Paulista,

A obra folclórica de Veríssimo de Melo é consolidada e serve hoje de fonte para inúmeros trabalhos acadêmicos. Etnógrafo, folclorista, antropólogo, imortal da Academia norte-rio-grandense de Letras, membro do Conselho Estadual de cultura, fundador do Museu Câmara Cascudo e... compositor!

Como se não bastassem todos os predicativos humanos e culturais, nosso Vivi também se aventurou pela música, tendo composto algumas canções em parceria com nomes como Diógenes da Cunha Lima, Oriano de Almeida e Hianto de Almeida – este último um dos precursores do movimento Bossa nova.

Em parceria com o macauense Hianto, Veríssimo compôs “Caju nasceu pra cachaça”, interpretada com primazia por ninguém menos que Cauby Peixoto, em 1956, pela RCA – aquela gravadora do “cachorrinho”...

Caju nasceu pra cachaça

Pirão pra o peixe nasceu

Mulher nasceu pra o amor

Do amor também nasci eu

Nasci também pra os carinhos

Pra os abraços, pra os cheirinhos

Coisas boas assim

Por isso eu gosto da lua

Do violão e da rua

Da boêmia sem fim

A letra é uma ode à vida alegre da província, da Natal dos idos de 50, dos cabarés, das noitadas. Mas é, também, um louvor ao caju, fruta tipicamente potiguar, como metonímia da combinação caju-cachaça, a mais democrática das parcerias que agrada do cidadão comum ao poeta; do magistrado ao operário.

Veríssimo empresta sua irreverência, seu profundo senso de leitor da vida a esses versos, eternizados na voz grave de Cauby, com a grife de Hianto de Almeida, homem nascido nas salinas e um dos maiores nomes da Bossa Nova.

“Caju nasceu pra cachaça” é uma daquelas letras pra se degustar lentamente, sem caretas ao gole, mas de olhos fechados, apreciando o sabor da poesia que dela emana...



A poesia latente de um quiosque no mercado

Michelle Paulista,


Dizem que o poeta é a antena da raça. Se literatura é arte, sou artista da palavra e dela vivo e me alimento. Muitos artistas dizem se alimentar dos seus sonhos, de projeções futuras, do modo de enxergar o mundo...

Longe dos salões nobres e do (necessário e confortável) ambiente acadêmico, a matéria prima das minhas letras é o ambiente fértil das ruas, das “bodegas” do bairro, do ponto de frango assado, da fila do supermercado, da conversa com o garçom que me serve, da barraca da praia onde frequento... O quiosque de S. Tião e D. Rose é um desses locais.

Conhecemos o local nas nossas andanças, meu esposo e eu. Em busca de fugirmos dos ambientes herméticos, saímos muitas vezes à procura de respiro e frescor nas ruas, botecos, mercadinhos... Foi assim que nos deparamos com o “local” encravado no Mercado velho de Parnamirim.

No quiosque de S. Tião e D. Rose é preciso ter paciência para ser atendido: os bancos compridos de madeira não dão conta dos muitos clientes que se avolumam à espera de café da manhã, antes de ir trabalhar. S. Tião, com a serenidade de quem comanda a orquestra há anos, vai dizendo: “pera aí, o seu é o quê?, quer leite por cima?, tá bom assim? ” e vai atendendo os clientes conforme ordem de chegada... os demais? Ora, os demais esperam, claro. Do contrário, terão que ir embora sem degustar as delícias do local.

É lá no quiosque de S. Tião e D. Rose que se servem o melhor cuscuz com leite das paragens: disposto em um prato, enorme, inteiro e firme, o cuscuz parece um poema modernista. Até gosto de milho tem – qualidade pouco encontrada nos cuscuzes por aí afora. Outra diva é a tapioca molhada: gostosa, macia, sem o empelotado das concorrentes de outros estabelecimentos. É lá também que se degusta a melhor vitamina de abacate (onde mais se encontra uma vitamina geladíssima?) e um café com leite que fumaça e desenha beleza no ar.

D. Rose é a fiel escudeira. De poucas palavras, me presenteou com sua amizade: vez em quando vem até o balcão conversar conosco. Geralmente, exaltamos o ABC e tiramos “onda” com o América de S. Tião que, risonho, deixa a seriedade de lado e cai na graça do curto e gostoso papo.

Talvez o diferencial do quiosque de S. Tião e D. Rose não seja a limpeza impecável do local. Lá é tudo muito limpo, asseado. Nem mesmo os preços justos são o diferencial também. Para mim, o que distingue o local é a multiplicidade de frequentadores: donos de loja, comerciários, policiais militares, flanelinhas, donas de casa, pedintes, servidores públicos. O que me encanta os olhos lá é a poesia latente que emana do espaço. Dela, a poesia das ruas, do povo, me alimento e sustento as minhas modestas letras.

Como dizia Manuel Bandeira: “A vida não me chegava pelos jornais nem pelos livros. Vinha da boca do povo, na língua errada do povo, língua certa do povo. Porque ele é que fala gostoso o português do Brasil, ao passo que nós o que fazemos é macaquear a sintaxe lusíada”.



As obras que retratam a infância de Bartolomeu Campos Queirós

Michelle Paulista,


Indez, Por parte de pai e Ler, escrever e fazer conta de cabeça foram publicados, pela primeira vez, em 1989, 1995 e 1996, respectivamente. Pouco a pouco, o autor vai-se revelando, à medida em que expõe momentos da sua infância, como se fosse uma ação terapêutica, de libertação; como um desejo e uma necessidade de cauterizar uma dor quase incessante e indescritível. No primeiro livro, o autor traz a história do nascimento de Bartolomeu, no interior de Minas Gerais, por intermédio de um narrador em terceira pessoa que se incumbe da tarefa de contar a vida de Antônio, protagonista da história. O dicionário Houaiss — Editora Nova Fronteira, sobre o termo Indez, conceitua: trata-se deum ovo que se deixa no ninho para servir de chamariz às galinhas; do latim ‘indicii’: sinal, indicação, denúncia; dar a saber, anunciar, denunciar; raiz do verbo indicar; index, índice, referência; fig. Diz-se de uma pessoa muito suscetível ou delicada”. Nesta escolha de título, já é possível perceber a habilidade com a qual BCQ lida com as palavras e brinca com elas. O ovo em questão pode representar a ele mesmo, como alguém sensível, delicado, o que possibilita o início do relato de uma parte de sua infância. De igual modo, faz menção ao início de uma escrita voltada a tratar de suas emoções mais escondidas, suas dores e saudades, expostas de forma paulatina no ato de resgatar suas lembranças de infância, numa atitude de muita coragem.

Algo que chama atenção no texto queirosiano é o movimento de transição entre temas universais e particulares. BCQ consegue captar no seu discurso o lúdico da primeira infância, os mergulhos engolindo piabas, as brincadeiras infantis, as crendices, mas também se aventura a um exercício de reflexão sobre vida e morte, memória e esquecimentos, medo e dores.

Dono de uma escrita simples (em termos de figuras de construção), BCQ é capaz de tecer uma escrita altamente metafórica, revelando-se um artesão da palavra, reciclando metáforas, fazendo outras surgirem. Formas, sons, arranjos semânticos são matéria-prima para sua prosa poética:

Se eu já sabia decifrar a língua dos dromedários, agora, com meu avô, aprendia a dizer uma coisa para valer outra. Lembrei-me do canto da parede, onde estava escrito: “Para quem sabe ler, um pingo nunca foi letra”. Não sei o que foi feito do fígado da vizinha de Jó. As palavras têm muitos gostos – pensava – e era impossível saber seus sabores verdadeiros. (QUEIRÓS, 1995, p, 63)

Embora suas obras encontrem lugar privilegiado entre o público infanto-juvenil, é impregnada de questionamentos existenciais e filosóficos; sem, contudo, constituir-se um discurso cifrado, mas, antes, narrativas construídas de um estilo de escrita de notório diferencial poético.

Em BCQ, parece que seu mundo reduzia-se aos ambientes familiares, ora em casa dos pais, ora em casa dos avós. Há na escrita queirosiana uma significativa mobilização em recuperar a oralidade das tradições. Desta forma, sua literatura escreve o oral, registrando-o, tal qual fazia em outros tempos o velho Joaquim Queirós, personagem fundamental em Por parte de pai. Não se trata, absolutamente, de desvios da convenção escrita, mas um estilo que opta por preservar, na linguagem verbal escrita, diversos traços da oralidade.

  Ler, escrever e fazer conta de cabeça é publicado somente após Por parte de pai, “subvertendo” a ordem e descompromissando-se com qualquer noção de sequência cronológica, pois a fase em que nosso protagonista viveu em Pitangui junto com seu Joaquim e dona Maria Queirós aconteceu após as primeiras experiências escolares que dão corpo ao enredo de Ler, escrever e fazer conta de cabeça. Ou seria, possivelmente, um artifício do escritor para mostrar que a linguagem possibilita arranjar acontecimentos em qualquer ordem, dado o seu poder criativo. O título faz referência a uma fala do pai quando disse que essas três competências seriam as funções que a escola deveria ensinar.

  Vale muito a pena ler Bartô. Para o corpo, para a alma e para a criança escondida em nós.



Crônica dominical sem nenhuma graça

Michelle Paulista,

  Há tempos não viajávamos. As viagens são muito isso, viajosas. Sai-se de casa à espera de muitas coisas e nesse mundo arengueiro de agora, o medo de não voltar. Melhor, voltar em outro veículo, que voltar mesmo... todos havemos de.

  Depois de uma visita ao chão salgado, eis que decidimos esticar a brincadeira de rico até o mar. Para o cartão postal fomos.

  Crepe-churrasquinho-picolé-quanto é- três por cinco-tapioca-ginga-caldo de leite de coco ou industrializado-espreguiçadeira-promoção-mar-sol-sal-foto.

  Pano cobrindo o corpo.

  De repente, a ciência de que não era brincadeira de pai e filho, o volume esticado na areia coberto por um lençol. A última coisa que poderia cogitar. Não combina com praia... igualmente a blusa de bolinha com saia listrada, não “senta”.

  E coisas e pessoas circulavam livremente, nada obstante o episódio morbifúnebre. Agora faz sentido o lugar-comum “vida que segue”: continuavam bolas, frescobol, casal brigando por ciúme, caldos, porqueirinhas de praia, mesa e cadeira por dez reais.

  A maré avançava. As gingas com tapioca minguavam nos grandes depósitos plásticos que saíram dos subúrbios ainda na madrugada. O ITEP está em greve, vem agora não. O enchimento de boias seria a causa. O coração não deu conta.

  Barrigas fartas, guloseimas até a glote, areia no corpo, cabeleira salgada, vamos embora? O volume inerte, obsequiosamente transportado. Lado a lado subíamos, à procura dos nossos transportes.

  De manhã, ao sairmos, pensávamos muitas viagens. Dinheiro apurado do aluguel das boias, ele. Dia de lazer no mar, nós. E subíamos nós, ele e os funcionários da funerária. Carros estacionados paralelamente... Fomos cada um para o seu túmulo. Qual será a próxima viagem?



Poesia refinada, temperada com sal

Michelle Paulista,

Salinas, maresia, espumas de sal, barcos. Eis o conjunto de palavras-imagens que habita a poesia de Gilberto Avelino. Embora nascido em Assu, o poeta teve a cidade de Macau como seu berço, cidade com a qual estabeleceu um pacto incondicional de amor e fidelidade, refletido na sua poética. Bacharel em Direito por profissão e poeta por vocação, Avelino escrevia sobre sua terra como quem faz uma declaração de amor à mulher amada; Macau foi para ele mais que a cidade onde viveu sua infância e juventude: foi o chão que fez brotar seu talento de poeta, sensível a cada cheiro, cada vento, cada acontecimento da pequena cidade salineira.

Leitora de Literatura e estudiosa dela, descobri a produção potiguar um pouco tarde. Somente na Academia tive contato com autores norte- riograndenses e, mais tarde, na Pós-graduação, esse contato transformou-se em paixão e interesse profissional.  Até então, apenas ouvia falar dos Avelino: Emídio, Edinor, Gilberto. Como qualquer macauense, esses eram nomes conhecidos, geralmente a nomear escolas e ruas. Gilberto Avelino, vi-o desfilar nas ruas salgadas de Macau, portando uma bengala, uns óculos de grossas lentes e um olhar de espanto e contemplação. Tive o privilégio de ouvir sua voz grave, cadenciada, como quem estava sempre a recitar versos, ainda que estivesse tão somente proferindo um “bom dia, como vai?”

Na leitura do poema a seguir, é possível identificar o apelo social feito por Gilberto Avelino. O poeta, que também era advogado trabalhista, afirmava que herdara do pai o desejo constante de fazer o bem.  Devido ao grande número de salineiros em Macau, as causas trabalhistas sempre foram constantes e havia, desse modo, muito trabalho para os bacharéis em Direito. Essa, aliás, foi a atuação profissional de Avelino: a defesa dos direitos trabalhistas dos empregados das Salinas que exploravam a produção e a comercialização do sal marinho.

ESTE CANTO, NÃO

Este canto, este fado triste

De águas de grau intenso,

De luminosidade de punhal,

Ombros abrindo em chagas,

E olhos ferindo, não canto.

Amarga e cruel servidão:

Da malacacheta à lama,

Os pés em sandálias desciam.

Eram arados de carne,

Escavando o chão de sal.

Ó salmoura quente e cortante,

Ombros em chagas abrindo.

Olhos ferindo, cegando,

De luminosidade tanta.

Esta história de cobiça,

Gerada por desamor,

Friamente executada,

Durante anos a fio,

Não canto, canto não.

  Para realçar os tons tristes da temática abordada no poema, o poeta compara seu canto ao fado, estilo musical popular em Portugal, que é caracterizado pelos acordes melancólicos, por vezes, lúgubres. Chamamos a atenção para a expressão “águas de grau”, como uma fala bastante comum em Macau; a água salgada é bombeada para baldes (porções represadas de água do mar), ficando em estado de repouso até que atinja determinado grau de salinidade; daí deriva a expressão “estar no grau”, entendida como “estar no ponto certo”, “estar pronto ou apto para algo”. A imagem dos ombros “abrindo em chagas” que aparece ainda na primeira estrofe, alude ao processo mecânico de beneficiamento do sal, feito pelos salineiros, carregando cestos de sal grosso, ferindo os ombros e fazendo-os sangrar.

  A segunda estrofe compara a atividade salineira com a escravidão, aqui também reforçada pela imagem do homem da salina cujos pés “eram arados de carne”. Avançando para a estrofe seguinte, Avelino faz referência à claridade peculiar da cidade, visto que as pirâmides de sal, tão brancas, refletem a luz solar, não sendo raros os casos de antigos trabalhadores das salinas que perderam a visão ou tiveram sérios problemas nesse sentido.

  Por fim, a última estrofe constitui uma afirmação de convicções do poeta advogado. Isto se constrói por meio de uma negativa, que chega a imitar o coloquialismo, quando encerra: “Não canto, canto não”.

  Não pretendo aqui oferecer análise do poema em questão; nossa proposta é apenas um recorte de uma das joias deste grande poeta potiguar; cuja poesia, embora produzida aqui, não é do Rio Grande do Norte: é da Literatura. 



A preguiça poética de Juvenal Antunes

Michelle Paulista,

           

Juvenal Antunes nasceu em Ceará-Mirim, no século XIX, tendo como irmã a escritora memorialista Madalena Antunes Pereira. Entretanto, foi no Acre que viveu a maior parte de sua vida adulta, ocupando o cargo de promotor público. Juvenal é dono de uma biografia curiosa, pois passava seus dias vestido de chambre, a declamar poemas em homenagem a sua amada Laura, com quem teria vivido um romance clandestino. Existe uma estátua em homenagem ao poeta na calçada do antigo hotel onde residia e vivia de farras pagas “no fiado”.

Em 2006, a Globo exibiu a série “Amazônia: de Galvez a Chico Mendes”, na qual o personagem de Antunes foi interpretado com muita competência pelo ator Diogo Vilela, em cenas inesquecíveis.

Dedicado ao próprio Juvenal, o “Elogio da preguiça” é o mais famoso de seus poemas, em que exalta o ócio, desconstrói verdades estabelecidas e confronta o senso comum.  Vejamos alguns trechos:

Bendita sejas tu, preguiça amada,

Que não consentes que eu me ocupe em nada!

(...)

Lá está, na Bíblia, esta doutrina sã:

- Não te importes com o dia de amanhã.


Para mim, já é grande sacrifício

Ter de engolir o bolo alimentício.


Ó sábios, dai à luz um novo invento:

- A nutrição ser feita pelo vento!

(...)

Não seria melhor viver à sorte,

Se o fim de tudo é sempre o nada, a morte?

(...)

Ó Laura, Tu te queixas que eu, farsista,

Ontem faltei, à hora da entrevista,


Que me não faças mais essa injustiça!...

Se ontem não fui te ver – foi por preguiça.


Desfrutemos, pois, da irreverente poesia do boêmio inolvidável, como o chamou Esmeraldo Siqueira...



Da Salinésia para o Olimpo

Michelle Paulista,

Olá! Estamos chegando nesse espaço para conversarmos sobre Literatura, Educação, Poesia e tudo de bom que as Letras nos trazem. Reservaremos um lugar especial à produção literária potiguar, objeto da nossa pesquisa acadêmica.

Para começar, compartilho o motivo da escolha do título acima... Boa leitura, espero que apreciem!


Minhas primeiras experiências de leitura remontam ao final da minha infância. Por volta dos oito ou nove anos, brincando na rua com outras crianças, uma das minhas colegas me mostrou uma ficha de leitura que fizera na Biblioteca Municipal Rui Barbosa. Era um cartãozinho verde no qual se registravam empréstimos de livros e o mais bacana era encher a fichinha de registros. Fiquei encantada com a possibilidade de acesso a tantos livros de histórias, assim tão disponíveis. A partir dessa abertura, li toda a coleção de Monteiro Lobato, do Sítio do Pica-Pau amarelo. Por conseguinte, me apaixonei pela Grécia, pois são inúmeras as referências à Mitologia grega nas aventuras de Emília, Pedrinho e Narizinho. Lembro-me, inclusive, de que numa grave crise econômica por que a Grécia atravessou em 2010, me sobreveio um misto de nostalgia e comoção: aquela não era, definitivamente, a “minha” Grécia. A Grécia das minhas primeiras leituras havia ficado nas estantes da Biblioteca pública em Macau.

Não sei bem se antes ou depois de ter sido apresentada à fichinha de empréstimos, passei a frequentar mais a casa da minha madrinha, interessada em livros. Maria do Rosário Bezerra Guerra mantinha uma estante repleta de títulos, os quais deixava à minha disposição. Eu ia sempre lá e adorava o fato de ter passe livre para pegar quantos quisesse. Minha madrinha Rosário me contou, dia desses, que certa vez eu lhe pedi um livro de crônicas e não mais um livro de “histórias”. Não me lembrava desse pedido, tampouco do que o motivou. Mas imagino o quão surpreendente deve ter sido para ela.

Também foi nessa época que minha mãe começou a ficar apreensiva com a quantidade de livros que eu lia. Tratou de me proibir de fazê-lo, sob alegação de que ler muito faria “mal”: gastava a vista e poderia me deixar “maluca”. Facilmente, consegui burlar a proibição materna, pedindo a meu primo Davi que me comprasse uma lanterna. A parede que dividia a sala do meu quarto era uma cortina de pano; a lâmpada que iluminava os dois ambientes era uma só, de modo que era impossível ler até mais tarde sem provocar as admoestações da minha mãe. Por isso, a lanterna era providencial, artefato perfeito: permitia que eu transgredisse a proibição (infundada) da minha mãe e continuasse a frequentar a minha Grécia, lugar que costumo visitar ainda nesses tempos adultos e menos ousados.


E assim, a luz opaca da lanterna era iluminada pela luz da leitura literária. Lobato foi apenas um, talvez o primeiro. Houve outros autores em minha vida de leitora incipiente: Maurício de Sousa (e sua Turma da Mônica), Mort Walker (e o subversivo Recruta Zero), Eleanor H. Porter (sim, Pollyana!), Lewis Carrol, Pedro Bandeira, Stella Carr, Giselda Laporta Nicolelis, Ana Maria Machado, Ruth Rocha, Ganymédes José... tantos... a lista é imensa e se perde no labirinto da memória.

Até a próxima!




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