Entre lanternas e livros

A briga da água com o garfo lambido

Michelle Paulista,


Eu esfregava com vigor, inclinei o dedo polegar para que a unha ganhasse função de espátula. O atrito era macio, um bolinho de arroz grudado no metal. Aquele talher tinha sido lambido por carregar um delicioso arroz cremoso, ensopado com manteiga. Arroz diferente, feito com carinho e degustado quentinho. Mas agora grudava no talher e atrapalhava o término da tarefa de lavar louça.

Pratos e copos lavados, era esse artefato que dava trabalho de limpar. Então, soltei-o na pia, onde havia um pequeno açude de água e espuma. Deixei-o lá, esquecido, para brigarem – água e resto de arroz, até que um vencesse o outro.

Mais tarde, fui ver o resultado da peleja: o resto de arroz no garfo lambido sucumbira e a água, vitoriosa, fez o que normalmente fazem as águas (metafóricas ou denotativas): removeu o resto de arroz grudado no talher.

Assim é também o cotidiano: esforçamo-nos para remover resquícios, empunhamos nossas unhas e tentamos remover sujeirinhas incômodas. Mas há coisas que, de tão bobas, não valem a pena gastar unha. Há coisas que só a água resolve, nas suas diversas formas. Chame a água-choro, a água-banho, a água-mar, a água-suor. Chame a água.

Aquele garfo lambido de comida gostosa e quentinha pode ser agora um resíduo que precisamos eliminar. Abandone-o por um tempo na água. Ele amolecerá e você passará uma esponja macia, mas fatal. Uma esponja definitiva.

E depois, como sugestão, tome um banho de mar. 


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