Entre lanternas e livros

De amizade e sonhos

Michelle Paulista,


Todos os lugares-comuns que versam sobre amizade apontam que as verdadeiras resistem ao tempo – este imperador das vidas – e aos afastamentos comuns de cada vida que segue.

Pois tem sido assim minha jornada de amizade com Marquinho – ou Marcos Oliveira, querido e competente advogado que tem sal no sangue e no coração. Um relacionamento-amizade com muitos episódios, alegrias, presentes, desencontros, pausas, hiatos impostos pelas demandas de cada um de nós, sem, contudo, haver um ponto final. Escrevendo agora, lembro-me do CD “Malásia”, capa vermelha, perfumado por dentro, mimo de Marcos quando eu era morta de fã de Djavan. Eu me lembro do cheiro que exalava de dentro da capa até hoje.

Marcos é daquelas pessoas de quem me lembro quando ouço a contundente “A lista”, de Oswaldo Montenegro. Lembro-me dele também ao ouvir “Corazón partío”, de Alejandro Sanz.

Dia desses, Marcos realizou um sonho do meu filho- seu quase xará Daniel Vinícius. Sonho aqui no sentido de coisa almejada. O presente da amizade alcançou meu pequeno, fazendo-lhe um afago e imprimindo um sorriso em seu rosto.

Mas quero falar de outro tipo de sonho – aquele devaneio onírico que nos salva noites adentro e se instala nos momentos de recall dos nossos corpos exaustos, atropelados pelo rodo cotidiano. Acho que o sonho é um texto literário que chega para que tenhamos nossa dose de humanidade a que temos direito e de que precisamos, como disse Antônio Cândido. Todo sonho é, assim, um texto literário, uma ficção engendrada pela artimanha dos nossos pensamentos.

Assim, conto duas historinhas que viraram clássicos de família, uma delas derivada de um sonho.

Uma delas data dos meus primeiros anos de vida, não sei se na apertadinha casa da Rua Alecrim ou Princesa Isabel. Dormindo, eu gritava: cadê, cadê? Aos berros, fui interrompida pela voz adulta: cadê o quê, menina? Então a resposta: cadê o vestido da vitória de Zé Oliveira?

Eu realmente não me recordo dessa campanha eleitoral, mas ouvi esse relato infinitas vezes nas reuniões de família.

Outra astúcia teria sido numa passeata. Por um descuido de quem me vigiava, saí correndo rua afora, junto com Liviane,  coleguinha da época, filha do ex-prefeito Tatá. Dizem que nos encontraram ruas depois, em busca de um comício-passeata, com os chinelos enfiados nos dedinhos infantis; recurso utilizado para otimizar a corrida.

Soube dia desses por Marcos que s. Zé Oliveira está na casa dos 90, recém-recuperado de um período adoentado. Disse meu amigo que o pai vai com frequência ao Nordestão, num passeio diário. Eu não posso mais enfiar os chinelos entre os dedos. Mas posso comprar um vestido para ver mais uma vitória de s. Zé: a de estar vivo e ser pai de uma das pessoas mais especiais, meu amigo, companheiro de lutas e sonhos por um mundo mais justo, querido da minha vida, Marcos Oliveira.


A+ A-