Entre lanternas e livros

No provador

Michelle Paulista,


Sempre fui meio intrigada com provadores de lojas, especialmente as de departamento. Começa pelas roupas produzidas em série, nada exclusivas, calças extremamente compridas, como feitas para corpos longilíneos, bem distintas do padrão da mulher potiguar.

Mas eu falava dos provadores. Dispostos numa espécie de beco, mais parecem banheiros químicos de festa de rua, visto que são pequenos e desconfortáveis. Acho que quem os projeta não os usa, porque não há praticamente lugar para que alguém, confortavelmente, experimente peças de roupas ali. Alguns, mais generosos, dispõem um banquinho, o que nos leva a tomar a difícil decisão de escolher sentar ou acomodar as peças de roupas. Alojadas a peças a serem submetidas à sabatina do corpo, o desafio é achar lugar para colocar nossos pertences (bolsa, óculos) e mesmo as roupas que já trajamos.

Eu detesto provadores; fico tonta e enjoada neles e olha que não sou claustrofóbica. Incomoda-me o ritual de ter que passar pelo quartinho apertado, olhar a expressão mecânica da mocinha que está louca para que o shopping feche, acompanhada da invariável fala: deu certo? Eu sempre me divirto, tentando adivinhar se ela falará “deu certo” ou “deu certo alguma coisa?”

Talvez eu não goste de provadores de lojas de departamentos porque os veja sob a perspectiva do imbróglio e não do ensaio. A gente veste uma peça e até se imagina usando-a em alguma situação real, mas o fato é que quando a usamos, o efeito nunca é o mesmo. Talvez seja meio louco da minha parte, mas todas as vezes que passei pela etapa do provador-banheiro de rua, invariavelmente voltei para trocar a peça ou a encostei num canto, destinando-a mais tarde pra doação.

Eu prefiro a pulsação de vestir mesmo uma peça em cima da outra, no meio da loja e desfilar à procura de um daqueles espelhos distribuídos generosamente. Também gosto de adquirir a peça “de olho”, levando pra casa e descobrindo, deliciosamente, se ela me veste. Isso é relação. Assim é com tudo: levamos pra casa e vamos convivendo, às vezes apertando aqui e ali, fazendo um reparo, costurando ajustes, arriscando-nos a ficarmos nus.

O provador me subtrai a possibilidade de não ser vestida por aquela peça; me tira a certeza de que a indumentária dará certinho. Não ir ao provador é, sobretudo, a deliciosa incerteza de saber-me despida.


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