Entre lanternas e livros

O caso da onça que deu literatura

Michelle Paulista,

(Republico um dos meus textos preferidos, ainda em clima de Flin)


  O professor, pesquisador, folclorista e etnógrafo Veríssimo de Melo cultivava o hábito de corresponder-se com seus amigos ora para tratar de assuntos pessoais, ora para falar-lhes de poesia, política, literatura ou... amenidades. Tal correspondência constitui hoje um valioso acervo e fonte de pesquisa de indiscutível valor histórico e cultural, pois há nas missivas registros de importantes acontecimentos do panorama artístico-cultural do Rio Grande do Norte – quiçá do Nordeste.

  Espalhadas entre amigos e familiares de amigos, as cartas de Veríssimo, além de acontecimentos relevantes, registram ainda “trivialidades”. Todavia, são as aparentes banalidades do cotidiano o combustível e a matéria prima para as crônicas mais interessantes, se é que podemos falar nesses termos módicos.

   Silvio Rabello, em prefácio de um dos livros de Veríssimo, faz menção a um nome igualmente importante da cena literária potiguar: Nilo Pereira, escritor radicado em Recife, nascido em Ceará mirim, terra que nunca saiu de sua mente e coração. Para Rabello, Nilo parecia escrever “de pijama”, tamanha seria sua naturalidade com as letras. Em muito por seu espírito visionário, Veríssimo já vislumbrava a necessidade de deixar como legado aos pesquisadores futuros o acervo de cartas de que dispunha. A exemplo do que fez com sua correspondência com outros importantes nomes, reuniu algumas das mais significativas missivas trocadas com Nilo Pereira.

 Mais uma vez, o intento do etnógrafo e folclorista, ao publicar parte de sua correspondência, era oferecer às futuras gerações um lugar de contribuição para futuros ensaios e análises interpretativas do fulgurante escritor e humanista norte-rio-grandense, nascido em Ceará- mirim. Nilo, O barão de Guaporé, “valia por uma Universidade”, nas palavras do escritor, acadêmico e ensaísta Manoel Onofre Jr. Em 1992, Veríssimo publica “Nilo Pereira – cartas de emoção e de humor”, pela Academia Norte-Rio-Grandense de Letras, síntese de uma amizade de trinta anos, grafada em correspondências que, na opinião de Veríssimo, trouxe-lhe “maiores conhecimentos literários e culturais”.

  Em uma das cartas publicadas no referido volume, há uma que chama à atenção pela intertextualidade que estabelece com o célebre romance Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis. No famoso romance realista, Brás Cubas, em delírio, acha-se “cavalgando” em um imenso hipopótamo, a ir em busca da origem dos séculos, sobre planícies de neve...  Ultimamente, restituído à forma humana, vi chegar um hipopótamo, que me arrebatou. Deixei-me ir, calado, não sei se por medo ou confiança; mas, dentro em pouco, a carreira de tal modo se tornou vertiginosa, que me atrevi a interrogá-lo, e com alguma arte lhe disse que a viagem me parecia sem destino. -- Engana-se, replicou o animal, nós vamos à origem dos séculos”.

  Não faremos considerações acerca dos aspectos filosóficos/estéticos/literários que permeiam o excerto machadiano; citamo-lo apenas como referência. Nosso deleite é o diálogo Nilo-Veríssimo. Com todos os perdões, o bruxo do Cosme Velho será matéria para outra prosa.

A onça

  Certamente que o episódio que intitula este artigo é mais pitoresco e – ousamos dizer – verossímil. Não pela narrativa propriamente, posto que há contornos literários. Mas porque se desdobra de um acontecimento real: uma onça que fugiu de um circo em Ceará Mirim, nos idos de 1951. Sobre esse acontecimento, Nilo escreve uma carta, qualificada por Veríssimo como “deliciosa”. Eis um trecho:

“Fiquei imaginando um animal de proporções gigantescas – uma cachorra bíblica ou besta apocalíptica, ─ sobre o vale, uivando de cólera. Os olhos chispam de rancor, as patas sussurram iras sobre os canaviais, a cauda espadana rancor como um látego dantesco. Depois desse delírio machadiano, o felino volta ao natural. E é neste momento que chegamos nós, os caravaneiros, para liquidar o monstro. A hora é crucial. Não pode haver um instante de indecisão. A onça olha-nos de sua toca, sinistra e hedionda. Alçamos a mira. E, ou fazemos fogo, rápidos e firmes, ou o animal, como um demônio alado, se precipita sobre os homens bons, que defendem o vale. Os tiros atingem o alvo. Um uivo de dor atroa os ares. E o vale todo se enche de um bafo morno de ira e vingança. A onça estende sobre o canavial o seu negrume derrotado”. (...) Basta de tanta imaginação, caro Veríssimo. Essa onça já arrancou muita literatura”.  E encerra, sempre muito estilístico: “(...) aqui pingo o ponto final, com um fel no abraço do velho amigo da onça, Nilo”.  (Carta de Nilo Pereira a Veríssimo de Melo, em 23 de março de 1951).

  Homem de leitura que era, Nilo chegou a receber prêmio na Academia Brasileira de Letras (afora ele, somente o mestre Cascudo). Não se discute que lera com “independência” o clássico que conta a história de Brás Cubas. Numa aventura narrativa bem-sucedida, a meu ver, o barão tece um enredo mesclado de elementos místicos/religiosos com aspectos épicos, tendo os caravaneiros (nos quais se inclui) como vencedores. Final feliz! O que intentava Nilo? Metaforizar alguma peleja política? Ou materializar alguma aventura vivida ou sonhada durante a infância nos canaviais? Talvez simplesmente (?) a balbúrdia que se estabelecera numa pacata e provinciana cidade do interior, ausente de expedientes, quando de um acontecimento tão inusitado. Se tentarmos responder, a graça desaparece. Fica a cargo do leitor.

  É de muita felicidade, por fim, a descrição que Veríssimo faz da visão de Nilo, num belo tracejo semântico: “É que ele, apesar de ter sido operado de catarata, ainda vê melhor do que qualquer um de nós. Vê perscrutando. Mais por dentro que por fora”. Decerto, só os de visão de metades, visão privilegiada (veem simultaneamente dentro e fora), são capazes de delirar acordados.


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