Entre lanternas e livros

Os Marvel em mim – Uma crônica carnavalesca

Michelle Paulista,


Alguns dirão que não tive infância. Teria eu nascido já adolescente/adulta? Tive infância sim, numa família comum de interior, que não era paupérrima tampouco abastada. Vida comum, todas as refeições, sem grandes luxos. Assisti, muitas vezes, à programação de tv na casa da vizinha, todos deitados no chão de cerâmica da finada Alzenir, deleitando-nos com a tv colorida de sua sala, artefato raro naqueles tempos. Anos depois, chegaria uma preto e branco em minha casa. Vi muitos episódios de He-Man, She-Ra, Caverna do dragão, Tartaruga ninja etc.

Mas foi na adolescência que conheci os heróis da Marvel. Sempre os preferi aos da DC. E hoje, podendo pagar pelo serviço de streaming nos televisores sabidos e o ingresso do cinema, não perco um filme dos Vingadores.

Você deve estar estranhando, leitor. Como uma professora pesquisadora de literatura gosta do “lixo ianque”? Talvez pelo fato de não considerar lixo. Assim como existe a literatura de banheiro (aquela consumida na intimidade do vaso sanitário), existem também filmes que esvaziam a mente e alimentam a fantasia. Onde tem dizendo que só podemos/devemos assistir a filmes que tratem das grandes questões da vida? Preciso eu da chancela de alguém na hora de ver uma película?

Mas eu falava dos Marvel. Sou fã confessa do Iron man. Adoro o personagem Tony Stark e admiro a excelente interpretação de Robert Downey Jr. Guardadas as proporções devidas e (espero) perdoadas por algum zeloso, me lembra Macunaíma. É o anti-herói: playboy, beberrão, presunçoso e de grande coração. Não tenho paciência para heróis extremamente bonzinhos; tem um quê de chato nisso. Thor, por exemplo, só ganhou minha simpatia quando assisti ao primeiro filme e vi sua verve rebelde e egoísta, seu temperamento intempestivo: nada mais humano.

Acho que somos um pouco herói da Marvel, assim nos seja conveniente. Somos incrivelmente maravilhosos ao ajudar uma campanha de arrecadação nas redes sociais, chegando a pingar filantropia dos nossos poros. Mas somos igualmente antipáticos quando, de manhã cedo, alguém resolve sentar justamente ao nosso lado no ônibus, mesmo havendo várias cadeiras vazias. Por vezes, vivemos como se fôssemos imortais como Wolverine, apontando nossas garras impiedosamente pra qualquer suposta ameaça.

Amamos nossa melhor amiga, mas julgamos a outra pessoa de quem alguém falou mal, sem sequer ouvir o outro lado. Falamos tanto em bondade, solidariedade, ser do bem, mas somos incapazes de convidar um morador de rua pra cear conosco.

Como Stark, gostamos de aparecer. Escolhemos a dedo a foto e a legenda para “postar” nas redes sociais, geralmente com conotação de extrema felicidade e leveza. Mas daqui a pouco viramos um Hulk, explodindo em fúria, destruindo tudo ou lançando flechas envenenadas como o Arqueiro verde. Isso sem falar nos dramas existenciais do Thor, que usa uma ferramenta de apoio, porque sozinho não é nada; a propósito, qual é o meu martelo e o seu?

Nesse período momesco, em que reinam as fantasias, vale perguntar: Em que muletas pomos nossa crença de poder? Quais martelos, capas, armaduras, escudos e martelos usamos para encobrir nossos eus? Pensemos nisso!

Dando o devido desconto para a manifestação imperialista cinematográfica de Holywood, dá sim pra pensar na vida nossa de cada dia entre uma armadura e outra do Homem de ferro. Fiquemos atentos ao nosso sensor aranha.


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