Entre lanternas e livros

Poesia refinada, temperada com sal

Michelle Paulista,

Salinas, maresia, espumas de sal, barcos. Eis o conjunto de palavras-imagens que habita a poesia de Gilberto Avelino. Embora nascido em Assu, o poeta teve a cidade de Macau como seu berço, cidade com a qual estabeleceu um pacto incondicional de amor e fidelidade, refletido na sua poética. Bacharel em Direito por profissão e poeta por vocação, Avelino escrevia sobre sua terra como quem faz uma declaração de amor à mulher amada; Macau foi para ele mais que a cidade onde viveu sua infância e juventude: foi o chão que fez brotar seu talento de poeta, sensível a cada cheiro, cada vento, cada acontecimento da pequena cidade salineira.

Leitora de Literatura e estudiosa dela, descobri a produção potiguar um pouco tarde. Somente na Academia tive contato com autores norte- riograndenses e, mais tarde, na Pós-graduação, esse contato transformou-se em paixão e interesse profissional.  Até então, apenas ouvia falar dos Avelino: Emídio, Edinor, Gilberto. Como qualquer macauense, esses eram nomes conhecidos, geralmente a nomear escolas e ruas. Gilberto Avelino, vi-o desfilar nas ruas salgadas de Macau, portando uma bengala, uns óculos de grossas lentes e um olhar de espanto e contemplação. Tive o privilégio de ouvir sua voz grave, cadenciada, como quem estava sempre a recitar versos, ainda que estivesse tão somente proferindo um “bom dia, como vai?”

Na leitura do poema a seguir, é possível identificar o apelo social feito por Gilberto Avelino. O poeta, que também era advogado trabalhista, afirmava que herdara do pai o desejo constante de fazer o bem.  Devido ao grande número de salineiros em Macau, as causas trabalhistas sempre foram constantes e havia, desse modo, muito trabalho para os bacharéis em Direito. Essa, aliás, foi a atuação profissional de Avelino: a defesa dos direitos trabalhistas dos empregados das Salinas que exploravam a produção e a comercialização do sal marinho.

ESTE CANTO, NÃO

Este canto, este fado triste

De águas de grau intenso,

De luminosidade de punhal,

Ombros abrindo em chagas,

E olhos ferindo, não canto.

Amarga e cruel servidão:

Da malacacheta à lama,

Os pés em sandálias desciam.

Eram arados de carne,

Escavando o chão de sal.

Ó salmoura quente e cortante,

Ombros em chagas abrindo.

Olhos ferindo, cegando,

De luminosidade tanta.

Esta história de cobiça,

Gerada por desamor,

Friamente executada,

Durante anos a fio,

Não canto, canto não.

  Para realçar os tons tristes da temática abordada no poema, o poeta compara seu canto ao fado, estilo musical popular em Portugal, que é caracterizado pelos acordes melancólicos, por vezes, lúgubres. Chamamos a atenção para a expressão “águas de grau”, como uma fala bastante comum em Macau; a água salgada é bombeada para baldes (porções represadas de água do mar), ficando em estado de repouso até que atinja determinado grau de salinidade; daí deriva a expressão “estar no grau”, entendida como “estar no ponto certo”, “estar pronto ou apto para algo”. A imagem dos ombros “abrindo em chagas” que aparece ainda na primeira estrofe, alude ao processo mecânico de beneficiamento do sal, feito pelos salineiros, carregando cestos de sal grosso, ferindo os ombros e fazendo-os sangrar.

  A segunda estrofe compara a atividade salineira com a escravidão, aqui também reforçada pela imagem do homem da salina cujos pés “eram arados de carne”. Avançando para a estrofe seguinte, Avelino faz referência à claridade peculiar da cidade, visto que as pirâmides de sal, tão brancas, refletem a luz solar, não sendo raros os casos de antigos trabalhadores das salinas que perderam a visão ou tiveram sérios problemas nesse sentido.

  Por fim, a última estrofe constitui uma afirmação de convicções do poeta advogado. Isto se constrói por meio de uma negativa, que chega a imitar o coloquialismo, quando encerra: “Não canto, canto não”.

  Não pretendo aqui oferecer análise do poema em questão; nossa proposta é apenas um recorte de uma das joias deste grande poeta potiguar; cuja poesia, embora produzida aqui, não é do Rio Grande do Norte: é da Literatura. 


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