Entre lanternas e livros

Sobre voos e pousos

Michelle Paulista,


Os passarinhos me visitam. Na verdade, me seguem. Não, não é psicose pós-moderna.

É uma perseguição, quase uma fidelidade, posto que descobrem onde estou morando e ainda que mude de endereço, vêm me visitar...

Uma rolinha, certa feita, me fecundou de uma crônica. Coisa linda, com velório em jardim, choro sincero e texto publicado. E não é que agora um pardalzinho se escondeu atrás de um eletrodoméstico, a fugir da cadela da família, filha caçula mimada?

Aprendia a voar. Peguei-o nas mãos, afaguei-o, tentei alimentá-lo: não queria. Voar, queria. Pus-lhe a salvo do algoz canino, soltando-o no jardim externo.

Dia seguinte, lá estava de novo em minha casa e lembro agora que há dois dias escondera-se num quarto de despejo, tendo eu aberto a janela para o seu treino de voo. Tinha a teimosia nobre da juventude, mesmo a juventude dos passarinhos, que decerto deve ser mais bonita que juventude de gente.

Prontamente procurei uma gaiola para hospedá-lo até que ficasse fortinho e pronto para ganhar os quintais. Foi aí que se chateou, voou e não veio mais. A amizade estremeceu. Acho até que deve ter falado mal de mim para os outros amiguinhos: não me apareceram mais...

Sabe, pardalzinho? deveria aprender com você. Estranhamente, eu volto a frequentar aqueles e aquilos que tentam me engaiolar. Prometo me esforçar, em nome da nossa amizade. Volte a me visitar...  Sem gaiolas, dessa vez, de lado a lado.


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