Entre lanternas e livros

Uma razão a mais pra escrever - Por Thiago Gonzaga

Michelle Paulista,

Assim como muitos que amam a Literatura potiguar, sou fã de Thiago Gonzaga.Por isso, reproduzo aqui texto de sua autoria. Vale muito a pena ler:


UMA RAZÃO A MAIS PARA ESCREVER

Li muito comovido o mais novo trabalho do escritor Manoel Cavalcante, “O Menino Livro”, obra infanto-juvenil, baseada em minha história de vida, e que reflete, na verdade, a história de milhares de brasileiros, na luta pela sobrevivência, e outros tantos que são tocados pelo poder dos livros, da leitura, da literatura.

Fiquei extremamente sensibilizado, sobretudo, pela espontaneidade do autor, pois não nos conhecíamos pessoalmente. Todavia, eu já tivera notícia, há bastante tempo da carreira literária do jovem escritor pau-ferrense, que possui sete livros publicados, além de numerosos cordéis, obras estas com que obteve inúmeras premiações em concursos literários de todo o Brasil. Interessante observar que Manoel Cavalcante é graduado em Odontologia pela UFRN, e embora seja um profissional respeitado na sua área,  onde ele mais se realiza, com certeza, é na sua literatura, seja produzindo, ou se apresentando em  dezenas de eventos culturais. Evidentemente, temos que dar as honras também ao ilustrador mossoroense Teo Vianna, que fez um trabalho incrível, captando a sensibilidade do poeta ao transpassar para o desenho toda a força lúdica e poética do texto.

“O Menino Livro”, publicado através da Comunique Editora pelo jornalista e ativista cultural Rilder Medeiros, resume um tanto do que foi a minha trajetória até conhecer os livros, já adulto. A Editora, que iniciou suas atividades, oficialmente, em 2015, especializou-se em publicar livros infanto-juvenis, e já são mais de vinte obras circulando por todo Rio Grande do Norte e algumas cidades do Nordeste. Cerca de 40 escolas já adotaram os livros da editora, demonstrando seriedade e compromisso com o público infanto-juvenil, trazendo temas atuais, como bullying, alimentação saudável, educação para o trânsito, além de outros valores humanos e sociais.

O livro está realmente interessante, não por ser uma homenagem a minha história, mas, pelo fato de Manoel Cavalcante escrever muito bem. Embora seja um poeta popular, digamos assim, ele não usa palavras gastas, palavras banais, ele é muito criativo, inovador, e isso é o que diferencia o bom escritor de outros autores. O livro dele tem valor artístico, por que é esteticamente primoroso. As ilustrações seguem o mesmo padrão da prosa, criativas, inovadoras, captando a essência do texto.

 Sou filho de analfabetos. Meu pai, trabalhador autônomo e minha mãe, empregada doméstica.  Meu pai faleceu por volta dos meus sete anos de idade. Comecei a trabalhar ainda criança, empurrando carrinho de compras de supermercado, para ajudar a manter a casa. Passei muitos anos sem contato com os livros, longe da escola. Até que um dia, já crescido, minha mãe achou uns livros no lixo e trouxe-os para casa. Minha vida tomou outro rumo.

Morávamos no bairro de Cidade Nova, que foi uma espécie de refúgio para as pessoas que tinham vindo do interior, querendo conseguir residências na recém- inaugurada Cidade da Esperança.

Em meio às dunas do bairro da periferia de Natal, adorávamos soltar pipas, andar pelos arredores, correr, subir nas árvores.  Como tantos outros amigos gostávamos de brincar no leito arenoso da rua, ou na calçada em frente de casa. Era tão divertido que nem notávamos o sofrimento da vida que passava aos nossos olhos.

   Numa altura da vida em que deveria estar preocupado com os estudos, em passar num concurso público, eu também lutava pela sobrevivência. A vida era dura, mas não apenas comigo, também com milhares de brasileiros, nascidos e criados na periferia das cidades, que, muitas vezes, não têm oportunidades, seja por falta de orientação dos pais, seja pela inexistência de programas governamentais voltados para essa camada da população.

Nessa época, o aterro sanitário, o famoso forno do lixo, ficava no nosso bairro, e uma das minhas diversões era ir mexer no lixo, com uns amigos; catávamos muita coisa, brinquedos quebrados, etc., mas a motivação maior era pegar ligas cirúrgicas para fazer as nossas baladeiras, um dos nossos brinquedos favoritos.

Acredito que vários jovens da minha geração possuíam grande potencial para praticar atividades criativas e esportes, por exemplo, mas infelizmente, uma serie de fatores, - a luta pela sobrevivência, a falta de incentivo e de projetos sociais -, acabou por levá-los para outro rumo.

  Posso dizer, sem nenhuma dúvida, que os livros me salvaram. Atualmente, sou graduado em Letras (Português-Inglês), tenho duas Pós-graduações; uma em Literatura e Cultura do Rio Grande do Norte (UFRN),e outra em Gestão Escolar e Coordenação Pedagógica (FACEN), e possuo Mestrado em Literatura Comparada (UFRN). Tenho alguns livros publicados, já escrevi inúmeros artigos e ensaios sobre nossa literatura, para revistas e jornais como “Tribuna do Norte” e “Jornal de Fato”. Sou professor e editor da Revista da Academia Norte-rio-grandense de Letras, além de coordenar um projeto social, que existe a seis anos, denominado “Caravana de Escritores Potiguares”, que distribui livros gratuitamente nas escolas públicas do Estado.

Todavia, ainda tenho guardadas em minha mente as melhores lembranças da minha infância naquele subúrbio de Natal. Cidade Nova é para mim um quadro na parede, porém, ao contrário da Itabira do poema de Drummond, não dói.


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