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Entrevistas
Entrevista realizada em 06/04/2008

"Não é por ter informações de senadores que estou há tanto tempo como diretor do Senado"

De Agaciel Maia, justificando sua longevidade no cargo de diretor-geral do Senado Federal em entrevista ao Numinuto.
Fotos: Vlademir Alexandre
"O papel do diretor nada mais é do que colocar a casa para funcionar".
Quando o economista potiguar Agaciel da Silva Maia esteve sob a mira do Ministério Público devido a denúncias de envolvimento em um esquema de fraude de licitação, em 2006, o jornalista gaúcho Mário Marona, ex-diretor de jornalismo da TV Globo em Brasília e ex-editor chefe do Jornal Nacional, escreveu em seu blog: “Não é fácil enfrentar Agaciel. Ninguém conhece mais profundamente a vida pregressa dos 81 senadores e a folha corrida de alguns deles”.

Fala-se que é por isso que Agaciel está há mais de 20 anos como diretor-geral do Senado, controlando por todo esse tempo o dinheiro que entra para o pagamento de despesas e investimentos na Casa. Ele nega. “Não é por ter privilégios de informações, ou informações escondidas dos senadores não. É pelo trabalho, porque a Casa funciona bem. Porque eu devo ter o melhor currículo entre os servidores e o apoio maciço dos colegas e dos senadores”, disse Agaciel em entrevista ao Nominuto.

Agaciel, irmão do também economista e deputado federal João Maia (PR), destacou a atuação de Garibaldi Alves na presidência do Senado e a perspectiva de desenvolvimento do Rio Grande do Norte. Comentou ainda sobre corrupção e o desgaste da imagem do Poder Legislativo. Ele conversou com o portal na sexta-feira (4), após receber a Medalha do Mérito Governador Dinarte Mariz, concedida pelo Tribunal de Contas do Estado a personalidades que deram relevantes contribuições no campo cultural, político ou técnico-científico à sociedade norte-rio-grandense. Veja a entrevista:

Nominuto - Falam que o senhor está esse tempo todo — mais de 20 anos — na direção-geral do Senado porque detém muitas informações sobre os senadores. Verdade?

Agaciel Maia - Não é isso. É porque eu devo ter o melhor currículo entre os servidores. Primeiro tem que ser servidor de carreira, e também ter liderança entre os colegas. Sempre que se faz pesquisas ou eleição, eu nunca obtenho menos que 80% dos votos dos servidores da Casa. Também praticamente todos os senadores apoiam o trabalho que eu faço, e não é porque eu conheça nada não. É porque a Casa funciona e funciona bem. O nosso Senado é considerado por organismos internacionais um dos três mais modernos do mundo. Então, não é por ter privilégios de informações, ou informações escondidas dos senadores não. É pelo trabalho. O papel do diretor nada mais é do que colocar a casa para funcionar, ou seja, tem que a luz estar acesa, tem que a TV funcionar, a parte gráfica funcionar, os computadores dos senadores funcionarem, o transporte que leva eles para o Senado funcionar... É esse papel simples que eu faço lá.

NM - Como é ser o homem responsável pelo dinheiro do Senado?

AM - Como disse, o diretor-geral é responsável por fazer a Casa funcionar. Essa coisa de dinheiro é meio fantasia. O Senado é uma Casa essencialmente colegiada, então todas as decisões partem do conselho de administração e depois pela mesa diretora da Casa. O problema maior não é o dinheiro nem sua aplicação, o problema é gastar de modo a promover a eficiência dos servidores, através de treinamento, e, ao mesmo tempo, garantir uma racionalização administrativa. Menos burocracia combinada com o aspecto tecnológico, que diz respeito a investimentos em equipamentos de última geração. Nós temos, por exemplo, a estrutura da TV Senado, sistema de comunicação que está no Brasil todo e tem sido modelo para os demais parlamentos da América Latina. Então, essa coisa de mexer com dinheiro é relativa. O diretor mexe realmente com dinheiro, porque é o ordenador de despesas, mas a iniciativa tem que ser aprovada por vários colegiados, e tem a homologação dos resultados dos processos licitatórios.

NM - Em 2006, o senhor foi acusado de envolvimento num esquema de fraude de licitações dentro do Senado...

AM - Não passou de um grande engano. Depois, o juiz me deu uma certidão atestando que sequer eu havia sido indicado nos autos. Eu mostrei a certidão, mas o pessoal só mostrou a parte ruim. Praticamente todo gestor público hoje tem alguma reclamação quanto a licitações, o que acaba gerando demandas jurídicas. O Senado nunca perdeu nenhuma. Todas que foram feitas foram derrotadas. E eu assino em torno de 80 mil papéis por ano. Então você faça uma multiplicação pela quantidade de anos que eu estou na direção da Casa. 


 
"A corrupção acontecia antes do governo Lula e vai acontecer sempre".
NM - A corrupção aumentou no Governo Lula ou há mais denúncias e investigação?

AM - Primeiro existem várias instituições de fiscalização e controle. E existe a mídia. Há uma liberdade total de imprensa. Acho também que se deve levar em consideração o aspecto da probabilidade: o país tinha um PIB X e agora tem 10 vezes X; tinha uma população de 90 milhões de habitantes e agora tem praticamente 200 milhões. Então, essa probabilidade e a divulgação, às vezes até exagerada, têm feito com que a corrupção apareça muito mais nos tempos atuais. Não é apenas no governo Lula e no Brasil. Acontecia antes e vai acontecer sempre, aqui, nos Estados Unidos, na Alemanha.

NM - Mas é inegável o desgaste do Poder Legislativo junto à opinião pública, ou o senhor não vê assim?

AM - O Congresso é o poder onde todas as correntes contrárias atuam. São pessoas de regiões diferentes, de ideologias diferentes, de formação acadêmica diferente debatendo todos os conflitos e crises. Então, é natural que as deficiências de um parlamentar sejam expostas. Se tiver um parlamentar que esteja envolvido em qualquer aspecto negativo, malversação de dinheiro, que arranje namorada, tudo isso é muito explorado na mídia. Mas o importante é que nós buscamos lá o reconhecimento junto à população do papel institucional do Senado. Diferente da América espanhola, onde houve muita guerra civil e muitas mortes, toda a formação econômica, social e política brasileira foi construída dentro do Congresso. É com discussões no Congresso que se tira um presidente da República, como já aconteceu, sem precisar de conflito armado entre correntes à favor e contrária ao presidente. Foi também toda dentro do Senado a discussão da abolição da escravatura, sem a necessidade de guerras entre fazendeiros e abolicionistas. Então, o Brasil caminha para ser uma grande nação sem ter que derramar sangue dos próprios patriotas. Ideologia, religião ou o desequilíbrio econômico, tudo isso é preservado porque temos um pára-raios, que é o Congresso Nacional, apesar de todos os defeitos que lhe querem atribuir.

NM - Qual sua avaliação sobre esse pouco tempo que o senador Garibaldi está à frente da presidência do Senado?

AM - O senador Garibaldi é um conciliador, um homem extremamente habilidoso. Na presidência do Senado, está desenvolvendo uma atuação suprapartidária, buscando principalmente resgatar a imagem da instituição, que passou por um desgaste em decorrência daquela crise que nós tivemos com o senador Renan, que era um aspecto pessoal, mas foi muito explorado pela mídia e desgastou a imagem da instituição. Mas o senador Garibaldi está indo muito bem. Ele está sendo reconhecido pela grande mídia nacional e por seus pares, o que é difícil. Eu acho que ele vai fazer grandes realizações na presidência do Senado, mesmo tendo um período mais curto. E é difícil a conjuntura do Senado. Garibaldi pegou o pior momento, porque há um acirramento muito grande, um radicalismo muito grande entre oposição e governo. Vocês têm acompanhado essas crises de CPI, a própria votação da CPMF.

Nominuto - Há um otimismo em relação ao Rio Grande do Norte. O senhor compartilha desse sentimento?

Agaciel Maia - A representação política do Rio Grande do Norte está com excelente qualidade e oportunidade, principalmente agora que temos na presidência do Congresso Nacional o senador Garibaldi. Temos Henrique como líder do PMDB na Câmara, que também é muito atuante. Temos uma bancada de deputados federais e senadores que está empenhada em trazer o melhor para o Estado. O Rio Grande do Norte tem sim se sobressaído. Eu digo isso porque tenho uma visão de quem está morando fora há muito tempo. A imagem do Rio Grande do Norte tem melhorado bastante dentro e fora do país. 

 
"Garibaldi pegou o pior momento, porque há um acirramento muito grande".
NM - E quanto aos investimentos?

AM - A gente vê perspectivas muito boas para o Estado em termos de investimento, não só orçamentário, do poder público, mas investimento da iniciativa privada. A força política do Estado no que diz respeito às demandas em nível de ministérios em Brasília tem sido determinante nessa parte de orçamento público, e também Natal virou a menina dos olhos da maioria dos turistas e de grande parte dos investidores estrangeiros. Acredita-se que Natal será a Miaimi brasileira, pelo posicionamento dela, a seis, sete horas da Europa e dos Estados Unidos...

NM - O senhor acredita nisso? 

AM -
Eu acredito. Nós vislumbramos um futuro muito bom para o Rio Grande do Norte. Em dez anos, o Estado vai ser um dos principais do Brasil. Quebrou-se aquela inércia nos estados nordestinos. Passou o tempo do pires na mão, de ficar dependendo somente dos recursos federais. Agora há uma combinação das duas coisas: do prestígio político do Estado com os investimentos.

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