De volta a Natal, Leno cobra cuidados com a cidade
Em entrevista exclusiva, cantor falou da falta de critério para construir prédios, sobre drogas, Jovem Guarda, a parceria com Lílian, mulheres e assegurou que não tem pretensões políticas.
A opção de voltar a morar em Natal desde o fim do ano passado chamou a atenção do cantor Leno para alguns problemas da cidade que ele não via durante o tempo em que esteve fora morando no Rio de Janeiro, em São Paulo e até no exterior. Um deles é o crescimento desordenado – principalmente o vertical – sem nenhum critério.
Em entrevista exclusiva ao Nominuto.com, o natalense falou sobre drogas, Jovem Guarda, a parceria ao mesmo tempo de sucesso e fracasso com Lílian, outras mulheres e política.
Bastante crítico, ele disse que o PT cometeu um “estelionato ideológico e eleitoral” e disse que não tem pretensões políticas: "Não vou ficar sozinho no meio de um bando de ladrão. Posso ser mais útil botando a boca no mundo”.
Nominuto.com – Aos 57 anos, você resolveu voltar a morar em sua terra natal. Por quê? Leno – Desde a infância, sempre fui um cigano. Como meu pai era militar, morei em muitas cidades, de todas as regiões do Brasil. Passei também três anos morando em Los Angeles, trabalhando e estudando. Nesse tempo todo, nunca perdi contato com Natal, porque a família da minha mãe continua toda aqui. E sempre mantive o desejo de retornar para cá. Foi aqui que sempre recarregava minhas energias e agora resolvi vir para ficar de vez. Pode ser que daqui a alguns anos eu mude de idéia, mas por enquanto quero ficar por aqui.
NM – Após esses anos todos, como você encontrou Natal? Leno - Natal está muito diferente do meu tempo de infância. Agora é uma cidade grande, mas continua linda. Só me preocupo, e muito, com esse crescimento vertical desordenado, sem critérios. Aos poucos, estamos perdendo o lado bucólico por um punhado de dólares. Se não controlarmos esse lado agora, vamos perder essa maravilha que é essa cidade.
NM – Mas você já nota algo de diferente ou essa mudança só viria no futuro? Leno - Não, noto agora. Natal está muito quente, por exemplo. A maioria das pessoas pensa que o aquecimento global é coisa de filme, de televisão, que é uma balela. Quem pensa assim está enganado. Isso é ciência. Temos que plantar mais árvores, cuidar do nosso planeta. Não sou contra o crescimento, o capitalismo. Só acho que precisamos adotar alguns critérios.
NM – O fato de estar longe de um grande centro não atrapalha a carreira? Leno – Acho que não. Estou numa fase que na maioria das vezes não sou eu quem procura os shows, são os produtores que nos convidam. Tenho também muita amizade com empresários dos grandes centros e eles sabem onde me encontrar.
"Sou contra a maioria das drogas, principalmente a cocaína. Mas, em relação à maconha, sou favorável à descriminalização"
NM – E com tantos anos já de carreira, ainda é preciso manter um ritmo intenso de shows? Leno – Em primeiro lugar, sou um homem realizado porque trabalho com o que amo, que é a música. Mas infelizmente não somos tão reconhecidos como a maioria das pessoas pensa que somos. Hoje vivo bem graças aos shows e aos direitos autorais. Mas tenho que continuar trabalhando. No final, uno o útil ao agradável.
NM – Falando em música, seu auge na carreira foi ao lado da cantora Lílian. Por que a dupla acabou? Leno - É difícil e seria descortês de minha parte falar o porquê de não termos continuado. Mas acho que fizemos muita coisa boa juntos. Lançamos grandes sucessos na Jovem Guarda que até hoje são lembrados por todos. Passamos bons momentos juntos, desde a adolescência, quando nos conhecemos no Rio, passando pelos anos em que formamos a dupla e até depois que ela se desfez, quando nos encontramos algumas vezes para cantarmos juntos em apresentações. No final, eu acho que a separação musical minha com a Lílian acabou fazendo bem para nós dois.
NM – Como você avalia o atua quadro político brasileiro? Leno - Eu sempre votei no PT, acreditava muito no discurso deles. Mas eles ficaram podres, foram ao encontro a tudo o que pregavam. O PT cometeu um estelionato ideológico e eleitoral. Mas fiquei mais chocado ainda com o eleitorado. Hoje em dia todo mundo tem acesso à informação e acabamos reelegendo as mesmas pessoas. Na verdade, os políticos brasileiros são sádicos e o povo é masoquista.
NM – Há como mudar isso? Leno - Na verdade não sei. Gostaria muito, mas acho difícil. O que me incomoda bastante é o fato de os intelectuais de esquerda e a classe artística como um todo, que historicamente sempre combateram a corrupção, hoje estarem calados. Pior, estão aliados.
NM – E no âmbito local, qual sua avaliação política? Leno - Não posso falar muito, até porque retornei a Natal agora. Mas pelo que vejo, o quadro nacional se repete no Governo Federal e na Prefeitura, até porque eles todos são coligados.
NM – Você tem pretensão política? Leno - Nenhuma. Acho que não daria certo eu ficar sozinho no meio de um bando de ladrão. Quem entra nessa, de qualquer modo, só quer se dar bem, quer roubar também. Acho que posso ser mais útil botando a boca no mundo.
NM – Qual sua opinião sobre drogas? Leno - Sou contra a maioria das drogas, principalmente da cocaína. O cocainômano, por exemplo, perde a noção do que faz. O mesmo acontece com quem usa crack e muitas outras das drogas. Mas em relação à maconha, sou favorável à descriminalização. Para mim, o cara que bebe álcool e pega um carro para dirigir é muito mais perigoso que o que curte um baseado.
NM – E as mulheres? Leno - Fui casado uma única vez e essa mulher foi a única que eu gostei de verdade, o chamado grande amor. Mas infelizmente a Ana Maria morreu em 1982, no Rio, em um acidente de carro provocado justamente por um traficante que estava alcoolizado. Com a perda dela, passei um bom tempo numa depressão enorme. É por isso que não recrimino a dor do Roberto Carlos. Depois da Ana Maria, tive várias outras mulheres, mas nenhuma a substituiu.