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Entrevistas
Entrevista realizada em 05/07/2008

Flávio Azevedo: "Nada de olhar pelo retrovisor"

Presidente da Federação das Indústrias do RN fala que para o Estado ter uma grande refinaria e outros investimentos de peso é preciso olhar para o presente e enfrentar, primeiro, a realidade de agora.
Fotos: Vlademir Alexandre
Flávio: "O passado só deve servir como exemplo para que você possa, no presente, projetar o futuro".
O presidente da Federação das Indústrias do Rio Grande do Norte (Fiern), Flávio Azevedo, aprendeu com o pai que não se deve viver “olhando no retrovisor”, pois o passado, costumava dizer seu pai, só deve ser usado de exemplo para a pessoa, no presente, projetar o futuro.

Assim pensa Flávio Azevedo em relação a todos os investimentos de peso que a classe política e empresarial ainda não conseguiu trazer para o Rio Grande do Norte, entre eles, uma refinaria de petróleo de grande porte.

“Ninguém deve abrir mão de uma refinaria de 500 mil barris. Mas vamos enfrentar a realidade de agora, dar o primeiro passo, botar primeiro a rodilha para sustentar o pote. Há dez anos se discute refinaria no Norte-Nordeste. Pernambuco fez primeiro o porto dele; Ceará também construiu o seu... E a gente aqui na pedra da bicuda...”

“Sem infra-estrutura — estradas, portos e ferrovias — vamos continuar sem ter uma grande refinaria. Infelizmente, essa é a realidade”, disse Flávio Azevedo, que começou a se debruçar sobre o projeto de um segundo porto, a ser instalado na região Oeste. 

Segundo ele, a grande meta a ser alcançada para o Estado dar um salto em matéria de desenvolvimento é a viabilização do Aeroporto Internacional de São Gonçalo do Amarante e da Zona de Processamento de Exportação (ZPE).

Mas para que a nossa economia tire proveito desses investimentos, Azevedo defende que é preciso ainda uma ligação ferroviária com um porto na região de Areia Branca e com um porto porta containeres em Natal.

Se o Rio Grande do Norte ainda não conta com nada disso, o presidente da Fiern assume que parte da culpa é da classe empresarial. "Eu acho que nós somos culpados sim. Eu estou aqui há quatro anos e não fiz nada nesse sentido. Acordei agora, talvez".

Nasemana - O senhor tem falado muito à classe política e industrial que olhe mais pra frente, pro futuro, e não fique olhando muito pelo retrovisor. O que quer dizer com isso?

Flávio Azevedo - Vou dizer outra frase que eu ouvia do meu pai: O passado só deve servir como exemplo para que você possa, no presente, projetar o futuro. Todo mundo está reclamando da falta de parceria da Petrobras, da falta de reconhecimento da Petrobras quanto ao que o Rio Grande do Norte fez por ela; do que fez por ela não, do que ela pôde tirar do Rio Grande do Norte. Fala-se que a Petrobras vai deixar uma herança maldita no futuro, que não faz nada, que a refinaria não vem... Então, a gente tem que enfrentar uma realidade. Qual a nossa realidade hoje? Quando o presidente da Petrobras veio aqui há dois anos, junto com o diretor de petróleo e gás, o diretor de exploração e o diretor comercial ou coisa semelhante, e comunicaram oficialmente que a refinaria não vinha, iria para Pernambuco, porque o Rio Grande do Norte não tinha infra-estrutura para receber uma refinaria, não tinha estradas e, principalmente, não tinha porto para receber o petróleo bruto e escoar os produtos refinados, e que sequer tinha condições de fornecer a mão-de-obra de que a refinaria iria precisar, isso me causou grande revolta. Mas infelizmente era uma realidade, e é uma realidade. Colocar uma refinaria de 500 mil barris por dia, que nós não produzimos e que teríamos que trazer de fora, através de Pecém ou de Suape por via terrestre, temos que reconhecer que isso não é possível.

NS - Olhar pra frente significa o quê?

FA - Que nós temos que começar a cobrar o nosso porto. Não é queremos uma refinaria; é queremos o porto. A gente tem que aceitar uma realidade. Não temos como trazer de fora 400 mil barris/dia de petróleo. Ah, mas nós temos 100 mil barris, que não são mais 100, são 90, e podem voltar a ser 100. Então nós temos os 100 mil barris, tudo bem, mas ainda vai ficar a grande pergunta: está bem, vai refinar 100 mil barris e vai escoar como? Continua a pergunta. Quer dizer, só resolvemos metade do problema. Então, eu acho que temos duas realidades a enfrentar. Primeiro, a nossa infra-estrutura. A parte rodoviária está sendo resolvida com a duplicação da BR-101, mas ainda falta a duplicação da BR-101 até o estado do Ceará, porque os motores da economia potiguar estão na região Oeste...

NS - No caso, seria a BR-304...

FA - Desculpe, seria a duplicação da 304, pois o sal, o cimento, o camarão, a fruticultura irrigada, um monte de coisas que mexem com a nossa economia pesada está na região Oeste, a 200 km daqui, ligada por uma rodovia já problemática por uso da Petrobras, que pega os caminhões pesados e trazem o que a refinariazinha que nós temos aqui atualmente produz. O escoamento é todo através de rodovia. Então, a gente tem que levar essa rodovia na direção do Ceará ou pelo menos até a fronteira para atender àquela região, mas isso está relativamente bem encaminhado com a 101. Vamos continuar batalhando pela 304.

NS - A outra prioridade, qual é?

FA - Um porto, pois nós não temos um. Temos aqui um cais. Ninguém pode chamar o porto de Natal de porto, que sequer tem um guindaste. Se chegar um navio com o guindaste quebrado, a carga fica aqui como aconteceu ano passado. Encostou um navio porta containeres, o guindaste quebrou, e ficaram aqui todos os produtos. Nós temos que cuidar do porto. Não é só o porto de Natal, temos que cuidar de um porto lá na região Oeste, na região salineira, em Areia Branca ou em Guamaré, para evitar, de novo, no futuro, dizerem não ser possível aumentar a refinaria porque a gente não têm condições de receber petróleo para refinar nem tem condições de escoar os produtos derivados. O porto de Natal é outra realidade que a gente precisa enfrentar. Nós perdemos a corrida do porto. Não tem como ter um outro grande porto entre Pecém e Suape. Não é porque não há condições políticas e econômicas não. Faltam condições de mercado. Como é que vai botar um grande porto a 200 km um do outro? Agora, o porto de Natal tem, sim, uma enorme vocação. É um porto para operar com navios porta containeres. Devido ao grande movimento de escoamento de cargas a granel, de cargas de porão de navio, ou seja, líquidos, em Pecém e em Suape, as operações de navios porta containeres lá são demoradas e caras. Nosso porto pode se transformar numa excelente opção.

NS - Seria um grande atrativo...

FA - Seria um grande atrativo para navios porta containeres, até porque dentro da logística de transportes marítimos aquele transporte de porão de navio vai acabar, seja devido a questões ambientais, porque fica sujeira, seja por questões de custo de logística, por motivo da demora de tirar a carga do fundo do porão. O futuro do transporte marítimo, o futuro não, já é presente, é através de containeres. Um exemplo: a Petrobras comprou aí umas sondas na China. Demorou mais de 15 dias para a mercadoria ser desembarcada, não tenho certeza se em Suape ou em Pecém.

NS - Aqui levaria quanto tempo?

FA - Nós trouxemos a carga para o porto. Em três dias ela estava desembaraçada. Agora, os chineses estão projetando jogar toda a sua comunicação com a Petrobras através do porto de Natal, que pode, sim, ter esse diferencial, ser um porto de navios porta containeres, que é a realidade de nossa economia. Nós não temos líquidos que precisem de grandes operações de carga e descarga como Pecém e Suape têm. Nós temos cargas conteinerizadas, cargas da Simas, da indústria têxtil do Rio Grande do Norte, é o camarão, a fruta. Todo o movimento é através de containeres, que, aliás, é o que sustenta o porto de Mucuripe, um porto antigo de Fortaleza, sustentado por nossa indústria salineira. Agora, isso tem que ser uma coisa integrada. A Fiern está formatando uma proposta de desenvolvimento do Estado. Trata-se da integração do Rio Grande do Norte através de uma linha férrea. A idéia é jogar a BR-304 pelo menos até a fronteira, agilizar a duplicação da BR-101 e batalhar por dois portos. É um projeto simples, mas é consistente e explicável.

NS - Os industriais acreditam que essas sejam as metas a serem atingidas para que o Estado possa dar um passo à frente no desenvolvimento?

FA - Eu entendo que meta é uma coisa maior. Nossa meta são o aeroporto [de São Gonçalo] e a ZPE. São projetos separados, mas um alavanca o outro. Se com o aeroporto de São Gonçalo o Rio Grande do Norte se transformar mesmo na porta de entrada para grandes aeronaves na América Latina, isso terá uma repercussão, na minha opinião, maior do que uma refinaria de grande porte. Porque uma refinaria de grande porte tem um elevadíssimo investimento de curto e médio prazo e depois ela se fecha em si mesma. Recebe petróleo e transforma em derivados. Quer dizer, não continua um processo de investimentos em torno dela... Continua, mas é muito pequeno. Um aeroporto não. É uma enorme cadeia que só tende a aumentar. A integração do aeroporto com a ZPE, que demanda matéria prima e gera frete de escoamento, é a grande meta de médio prazo.

NS - Antes, o que mais precisa ser feito?

FA - Pra isso funcionar, para a nossa economia se aproveitar disso, é preciso uma ligação ferroviária, um porto na região de Areia Branca e um porto porta containeres em Natal. Sem um porto porta containeres em Natal, a própria operação do aeroporto ficará prejudicada. Aí voltamos para o problema do porto de Natal. Ah, tem que aumentar o calado? Tem. Ah, tem que aumentar o cais para caber mais navios? Tem. Pouca coisa, bobagem, para mais um navio, dois. Mas se isso não for feito, não adianta de nada, porque o porto porta containeres tem que ter retroários, ele tem que ter área de estoque de containeres, e o nosso porto não tem. E não tem pra onde ampliar, a não ser para a favela do Maruim. Tem dinheiro, está aí 4 milhões de reais, para começar essa operação, mas o poder político não conseguiu se mexer para remover a favela do Maruim. E eu compreendo. Isso gera problemas políticos num ano eleitoral. Mas está aí desde o ano passado. Ah, porque era um ano pré-eleitoral. Ah, mas vai ter descontentes na favela. Vai, mas nós temos que enfrentar essa realidade. O incômodo de poucos está sendo o prejuízo de muitos. Não é de muitos da classe empresarial não. Tudo bem, nós vamos ser beneficiados, mas vamos gerar emprego, etc, etc.

NS - Qual a dificuldade de tirar os moradores do local?

FA - Quem mora na favela do Maruim, em condições sanitárias inadequadas, com problemas de toda a ordem, violência, etc, etc, não quer sair dali porque está a um minuto de seus empregos. São pescadores, vendedores de peixe, trabalham no cais do porto, tem sua barraquinha de sanduíche na praia... Então, o que é que pode ser feito? Minha empresa participou de um programa de desfavelamento em São Paulo que depois Maluf transformou naquele...

NS - Singapura...

FA - Isso... E como é que a gente fazia? A gente tinha uma favela com um campo de futebol. Desmanchamos parte da favela e construímos prédios, verticalizamos, deixando o campo de futebol, porque tem que ter o campo de futebol, o lazer dos caras. Dessa forma, conseguimos resolver o problema sem precisar mudar os favelados do local, motivo da grande resistência. Eu sugeri isso ao prefeito [Carlos Eduardo) para Maruim e ele a princípio aceitou. Já houve duas reuniões de secretários da Prefeitura para a gente fazer a remoção da favela. Está em pleno estudo. Com isso, o problema do nosso porto será resolvido. Com um investimento de 50 milhões de reais, a gente tem um brinco, um porto modelo. Só não dá para trabalhar com commodities, com grãos, nem, evidentemente, com grandes volumes de líquidos, somente líquidos de petróleo, gás...

NS - Mas a vocação do porto é de porta containeres?

FA - Nosso porto é de porta containeres. Esta é a realidade da nossa economia. Então, esse tem que ser o nosso projeto de curto prazo, e o de médio prazo é o aeroporto de São Gonçalo. Lembre que esse é um projeto de três etapas. Na primeira etapa, ele comportará 5 ou 10 milhões de passageiros/ano; mas o estudo prevê um aeroporto para 40 milhões de passageiros/ano. Para se ter uma idéia, em Cumbica hoje são 20 milhões de passageiros/ano. Mas o projetão desse aeroporto tem 1500 hectares desapropriados, para daqui a 20, 30 anos, estar movimentando grandes aviões como o Airbus 380, com um movimento de cargas e de 40 milhões de passageiros/ano.

NS - Quer dizer, uma capacidade 20 vezes maior que a do aeroporto Augusto Severo...

FA - Estamos atualmente com quase 4, e esse número só não aumentou porque o aeroporto não tem condições. A gente está perdendo para Recife e Fortaleza. Eu vejo nos jornais: o aeroporto perdeu 20% de sua movimentação. Não significa dizer que 20% dos turistas deixaram de vir para Natal não. Tem muito vôo chegando em Recife e em Fortaleza porque o aeroporto daqui está inoperável. Eu não posso afirmar, mas tenho quase segurança em dizer que o movimento de turistas que viria para Natal a gente perdeu não foi por falta de atratividade não.

NS - O movimento de embarque e desembarque de estrangeiros mostra que Recife superou Natal.

FA - Está vendo? O problema é o aeroporto.

NS - Quais os impactos no cenário econômico que a instalação do aeroporto de São Gonçalo irá gerar?

FA - São enormes. Vou dar dois exemplos para responder a essa pergunta. O terceiro maior aeroporto de cargas do mundo é o Anchorage, no Alasca. Mas lá não tem economia local nenhuma, é tudo gelo em redor. O problema é que tá lá no fim do mundo, então todo o movimento de carga que liga a América do Norte, Canadá, Estados Unidos e México ao Oriente passa por Anchorage, que é o caminho mais curto. É lá que se concentram todas as companhias de carga. Os grandes navios chegam no aeroporto e de lá distribuem, mas isso não gerou absolutamente nada de aumento de população porque essa é uma operação extremamente técnica. Aí vejam Miami. Você sabe qual a economia da Flórida? Laranja. Você sabe quantas indústrias têm na Flórida comparado ao resto dos Estados Unidos? Zero. A Flórida é um estado de economia rural, porque os americanos chegaram e disseram: chaminé para poluir, matar meu turismo? Aqui não. Mas não é o turismo passageiro, de visitantes que se hospedam e passam três dias; é o turista que chega e investe, compra um imóvel, que abre um serviço. O entorno do aeroporto de Miaimi é cheio de pequenos galpõezinhos de prestadores de serviços. Ali tem pequenas fábricas de confecção, gráficas... É um monte de serviços em torno de um movimento de entrada e saída do mercado de Miami. De lá, joga pro resto dos Estados Unidos. Imagine isso junto com a ZPE. Nossa preocupação é quanto ao perfil de nossa ZPE. De minha parte, eu não quero uma siderúrgica aqui, porque isso vai matar nossa outra atividade.

NS - O turismo?

FA - Sim, que é parecido com o de Miami. O turista que chega aqui é investidor, ele vem fazer desenvolvimento imobiliário.

NS - Então qual será nosso perfil?

FA - A gente ainda está definindo... Nós temos aqui na porta um cara super maltratado. Brevemente, se eu tiver uma coisa a oferecer, eu vou chamar o professor Nicolelis. Em torno do professor Nicolelis, tem uma enorme indústria de alta tecnologia de inovação tecnológica. Esse cara está sendo pessimamente tratado pelo Estado. Eu quero saber do que ele precisa.

NS - O aeroporto está em andamento, tem a perspectiva da ZPE, mas eu pergunto: há um projeto concebido para o segundo porto e apresentado ao Governo Federal?

FA - Numa entrevista um dia desses, o repórter perguntou: É porque a classe política não se movimentou que o Rio Grande do Norte está assim? Menos da verdade. Nós não podemos ficar bancando as vítimas numa situação cômoda. A culpa também é da classe empresarial. O político é demandado. Nós temos que demandar, mas demandar com objetividade. Não é chegar e dizer doutor “Garibaldi, faça o porto de Natal”. Que história é essa? Cadê o projeto? Então, qual é a minha proposta? É que a classe empresarial, a Federação das Indústrias, a Federação do Comércio, a Federação de Transportes, a Federação da Agricultura, a gente se junte e diga: senador, o projeto tá aqui. Juntos, temos mais mobilidade em termos de contratação de serviço, mais espertize técnica. Tem Sesi, tem Senai, tem Senac, tem Senar...

NS - E por que isso já não foi feito?

FA - Eu não sei, mas agora o que eu estou propondo é isso. Não quero me referir ao passado. Eu acho que nós somos culpados sim. Eu estou aqui há quatro anos e não fiz nada nesse sentido. Acordei agora, talvez. A gente tem que colocar a carapuça na cabeça e esperar que a classe política compreenda que nosso espírito é de colaboração, para não gerar nenhum tipo de ciúme. Da minha parte, garanto que não sou candidato a vereador nem em Jardim do Seridó, que é minha terra.

NS - Quando é que a classe empresarial pretende elaborar o projeto e apresentar?

FA - Eu tenho conversado com Marcelo Queiroz, da Fecomercio, que tem sido um grande parceiro. Estou fazendo o meu dever de casa e até o final do próximo mês vou apresentar a idéia fechada aos meus parceiros, e também às instituições representantes da indústria e do comércio do Rio Grande do Norte. Até o final do ano eu quero apresentar ao Governo do Estado, para depois levar aos nossos representantes da bancada federal.

NS - Não vai ser um projeto acabado...

FA - Mas nós daremos todos os parâmetros para uma decisão, inclusive parâmetro de custo e o perfil, para que ele seja criticado, melhorado ou até descartado. Mas ele tem que ser realizado.

NS - Voltando à refinaria... Pelo que o senhor disse, devido à falta de infra-estrutura o Rio Grande do Norte não tem como reivindicar, neste momento, um investimento maior da Petrobras...

FA - Tem uma linha muito tênue que diferencia meu raciocínio disso aí. Direito, nós temos. Agora, nós queremos um porto e queremos a refinaria. A Petrobras diz o quê? Se não tem porto, a refinaria não pode vir. Então, é o seguinte: traga a refinaria de 100 mil barris amanhã e faça um porto, nem que sirva de embrião. Essa é que é a grande diferença. É o que nós podemos fazer agora para poder reivindicar a curto prazo. Ninguém deve abrir mão de uma refinaria de 500 mil barris. Mas vamos enfrentar a realidade de agora, dar o primeiro passo, vamos botar a rodilha para sustentar o pote.

NS - Há dez anos se discute instalar uma nova refinaria no Nordeste. Doze estados do Norte e Nordeste se interessaram, e já saíram três refinarias de grande porte, pelo menos nas promessas. Uma está em andamento em Pernambuco, promessas no Ceará e no Maranhão, e a nossa minirrefinaria. O senhor considera como um confeito?

FA - Não, olhe. Há dez anos se discute refinaria no Norte-Nordeste. Pernambuco fez primeiro o porto dele, Suape; Ceará também construiu o seu...

NS - E a gente aqui na pedra da bicuda...

FA - E a gente aqui na pedra da bicuda. Pelo amor de Deus! Eu não estou dizendo que o Rio Grande do Norte deve abrir mão de sediar a terceira grande refinaria. Temos que seguir os exemplos. Vamos olhar no retrovisor sem chorar. Rapaz, o que o pessoal do lado fez? Parte dessa guerra a gente perdeu. Não vamos perder a terceira, pelo amor de Deus! Vamos começar a nos preparar, ou então vamos aceitar a proposta. Sim, tá bom, mas não enrole não. Antes de fazer a grande no Ceará, vamos começar amanhã a pequena aqui, de 100 mil barris, mas com o portinho do lado. Porque um filho não nasce grande. Vamos adubar a nossa planta. Não adianta dizer que nós queremos agora, para recuperar o tempo perdido, um porto e uma refinaria grandes. Por mais que a gente deseje, não temos como argumentar tecnicamente. E vão vir outras coisas junto com a refinaria. Vamos cobrar os estudos da fábrica de polipropileno, que a Petrobras não entregou.

NS - Como o senhor vê a criação da Contribuição Social para a Saúde (CSS)?

FA - Vejo como desnecessária, porque dinheiro o Governo Federal tem. Encontrei o deputado Palocci, ex-ministro da Fazenda, e ele me falou abertamente isso. Ele ainda explicou que haveria outra maneira de o governo destinar dinheiro para a Saúde sem precisar criar esse imposto, mas me parece que seria por um caminho mais difícil, mais demorado. Quem acaba tendo que pagar mais essa conta é o empresário, o que é injusto.

NS - A classe empresarial ainda acredita que saia a Reforma Tributária?

FA - Olhe, se a reforma não for feita, o Brasil vai começar a cair. O país está deixando de ser emergente e entrando no primeiro mundo, onde o nível é outro. As regras, portanto, também são outras. Então, é preciso acompanhar, senão vai começar a andar pra trás.

NS - Estamos vivendo um período de turbulência política. Até que ponto isso afeta os projetos econômicos e o desenvolvimento do Estado?

FA - Eu acredito que a política é a base da economia. Não há desenvolvimento econômico numa crise política. Mas eu espero que tudo seja superado logo, até porque nós temos que aproveitar esse momento ímpar que estamos vivendo, com nossos representantes ocupando lugar de destaque no cenário político nacional.

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