


Flávio Azevedo - Vou dizer outra frase que eu ouvia do meu pai: O passado só deve servir como exemplo para que você possa, no presente, projetar o futuro. Todo mundo está reclamando da falta de parceria da Petrobras, da falta de reconhecimento da Petrobras quanto ao que o Rio Grande do Norte fez por ela; do que fez por ela não, do que ela pôde tirar do Rio Grande do Norte. Fala-se que a Petrobras vai deixar uma herança maldita no futuro, que não faz nada, que a refinaria não vem... Então, a gente tem que enfrentar uma realidade. Qual a nossa realidade hoje? Quando o presidente da Petrobras veio aqui há dois anos, junto com o diretor de petróleo e gás, o diretor de exploração e o diretor comercial ou coisa semelhante, e comunicaram oficialmente que a refinaria não vinha, iria para Pernambuco, porque o Rio Grande do Norte não tinha infra-estrutura para receber uma refinaria, não tinha estradas e, principalmente, não tinha porto para receber o petróleo bruto e escoar os produtos refinados, e que sequer tinha condições de fornecer a mão-de-obra de que a refinaria iria precisar, isso me causou grande revolta. Mas infelizmente era uma realidade, e é uma realidade. Colocar uma refinaria de 500 mil barris por dia, que nós não produzimos e que teríamos que trazer de fora, através de Pecém ou de Suape por via terrestre, temos que reconhecer que isso não é possível.
FA - Um porto, pois nós não temos um. Temos aqui um cais. Ninguém pode chamar o porto de Natal de porto, que sequer tem um guindaste. Se chegar um navio com o guindaste quebrado, a carga fica aqui como aconteceu ano passado. Encostou um navio porta containeres, o guindaste quebrou, e ficaram aqui todos os produtos. Nós temos que cuidar do porto. Não é só o porto de Natal, temos que cuidar de um porto lá na região Oeste, na região salineira, em Areia Branca ou em Guamaré, para evitar, de novo, no futuro, dizerem não ser possível aumentar a refinaria porque a gente não têm condições de receber petróleo para refinar nem tem condições de escoar os produtos derivados. O porto de Natal é outra realidade que a gente precisa enfrentar. Nós perdemos a corrida do porto. Não tem como ter um outro grande porto entre Pecém e Suape. Não é porque não há condições políticas e econômicas não. Faltam condições de mercado. Como é que vai botar um grande porto a 200 km um do outro? Agora, o porto de Natal tem, sim, uma enorme vocação. É um porto para operar com navios porta containeres. Devido ao grande movimento de escoamento de cargas a granel, de cargas de porão de navio, ou seja, líquidos, em Pecém e em Suape, as operações de navios porta containeres lá são demoradas e caras. Nosso porto pode se transformar numa excelente opção.
FA - Eu entendo que meta é uma coisa maior. Nossa meta são o aeroporto [de São Gonçalo] e a ZPE. São projetos separados, mas um alavanca o outro. Se com o aeroporto de São Gonçalo o Rio Grande do Norte se transformar mesmo na porta de entrada para grandes aeronaves na América Latina, isso terá uma repercussão, na minha opinião, maior do que uma refinaria de grande porte. Porque uma refinaria de grande porte tem um elevadíssimo investimento de curto e médio prazo e depois ela se fecha em si mesma. Recebe petróleo e transforma em derivados. Quer dizer, não continua um processo de investimentos em torno dela... Continua, mas é muito pequeno. Um aeroporto não. É uma enorme cadeia que só tende a aumentar. A integração do aeroporto com a ZPE, que demanda matéria prima e gera frete de escoamento, é a grande meta de médio prazo.
FA - São enormes. Vou dar dois exemplos para responder a essa pergunta. O terceiro maior aeroporto de cargas do mundo é o Anchorage, no Alasca. Mas lá não tem economia local nenhuma, é tudo gelo em redor. O problema é que tá lá no fim do mundo, então todo o movimento de carga que liga a América do Norte, Canadá, Estados Unidos e México ao Oriente passa por Anchorage, que é o caminho mais curto. É lá que se concentram todas as companhias de carga. Os grandes navios chegam no aeroporto e de lá distribuem, mas isso não gerou absolutamente nada de aumento de população porque essa é uma operação extremamente técnica. Aí vejam Miami. Você sabe qual a economia da Flórida? Laranja. Você sabe quantas indústrias têm na Flórida comparado ao resto dos Estados Unidos? Zero. A Flórida é um estado de economia rural, porque os americanos chegaram e disseram: chaminé para poluir, matar meu turismo? Aqui não. Mas não é o turismo passageiro, de visitantes que se hospedam e passam três dias; é o turista que chega e investe, compra um imóvel, que abre um serviço. O entorno do aeroporto de Miaimi é cheio de pequenos galpõezinhos de prestadores de serviços. Ali tem pequenas fábricas de confecção, gráficas... É um monte de serviços em torno de um movimento de entrada e saída do mercado de Miami. De lá, joga pro resto dos Estados Unidos. Imagine isso junto com a ZPE. Nossa preocupação é quanto ao perfil de nossa ZPE. De minha parte, eu não quero uma siderúrgica aqui, porque isso vai matar nossa outra atividade.
FA - Eu tenho conversado com Marcelo Queiroz, da Fecomercio, que tem sido um grande parceiro. Estou fazendo o meu dever de casa e até o final do próximo mês vou apresentar a idéia fechada aos meus parceiros, e também às instituições representantes da indústria e do comércio do Rio Grande do Norte. Até o final do ano eu quero apresentar ao Governo do Estado, para depois levar aos nossos representantes da bancada federal.