O senador Garibaldi Alves Filho, presidente do Senado, descartou qualquer possibilidade de acordo com a governadora Wilma de Faria que envolva eleições. A afirmação, feita durante a primeira Sabatina Nominuto, vale para a disputa deste ano, já que o senador defende a candidatura do vereador Hermano Morais a prefeito de Natal. Quanto a 2010, ele preferiu não especular, por considerar que ainda é muito cedo.
Além de eleições, o senador falou na Sabatina Nominuto do momento político que atravessa no Senado, como a relação com o presidente Lula e o recente caso da CPI dos Cartões. Além disso, fez questão de afastar a sombra do Caso Gusson sobre seu passado político.
O presidente do Congresso Nacional foi o primeiro convidado da Sabatina Nominuto, uma entrevista coletiva feita pelo corpo redacional do portal Nominuto.com, que contou com a participação dos internautas e da platéia presente ao evento.
A Sabatina foi realizada na última sexta (15), no auditório da Federação das Indústrias do Rio Grande do Norte (Fiern), instituição parceira do projeto, junto com as empresas Digizap e Plugtech do Brasil.
Ao longo do ano, serão realizadas outras nove edições do projeto. A próxima será em 28 de março, para marcar o lançamento do jornal NaSemana, versão impressa do portal Nominuto.
Confira a seguir os principais trechos da Sabatina Nominuto com o senador Garibaldi Alves:
Diógenes Dantas – Após uma das crises políticas mais difíceis do Congresso Nacional, o senhor assumiu a Presidência do Senado. A imprensa do Centro-Sul gosta de lembrar que trata-se de um mandato tampão, de um ano, e afirma que o senhor vai passar em brancas nuvens. Não foi o que se viu na abertura dos trabalhos do Legislativo este ano. O senhor proferiu um discurso que foi recebido com surpresa e no qual reafirmou a independência do Congresso Nacional, a autonomia dos Poderes e que vai fazer uma gestão sem submissão ao Palácio do Planalto. Garibaldi Filho é o Senhor Independência?
Garibaldi Filho – Pode ficar certo de que não há outro caminho a seguir. Não há outra opção. Em política, você sempre procura ter diante de si não uma opção, mas várias. Com relação a mim, não posso continuar a ver na minha gestão o que vimos nesses anos todos: um Senado amesquinhado, um Congresso Nacional aviltado, sem legislar — que é a essência do Poder Legislativo — e sem fiscalizar da forma como deveria. Não há por que deixar de acreditar, principalmente vocês (do Rio Grande do Norte). Pode até ser que lá, no centro dos acontecimentos, muitos duvidem de mim, mas, aqui, os que verdadeiramente me conhecem sabem que eu não iria faltar com os meus compromissos e deveres para com o meu país. Isso significa dizer que não vou vacilar, não vou baixar a cabeça e vou realmente enfrentar o que tiver que ser enfrentado para salvar a dignidade do Poder Legislativo.
Marcos Alexandre — Desde que o senhor se lançou candidato até hoje, já presidente do Senado, são percebidas tentativas da imprensa do Centro-Sul de criar um certo folclore em torno de sua figura. Esse tipo de postura o incomoda? O senhor considera esse tratamento um tipo de preconceito pelo fato de o senhor ser nordestino e de que, até se lançar candidato, não era um senador de projeção nacional?
Garibaldi Filho – Eu quero dizer que isso está passando. Não posso dizer que já passou. Realmente, houve essa tentativa de me descaracterizar. Principalmente no período de eleição, em que havia aquele vale-tudo. Mas agora que a eleição e que eu fui eleito, houve uma reversão. Ontem, quem leu o Estado de São Paulo, viu o artigo de uma prestigiada jornalista brasileira, Dora Kramer, dizer que realmente eu estou lutando contra verdadeiros dragões, mas estou, apesar do momentâneo desalento, estou firme no sentido de dar ao Legislativo aquilo que foi prometido.
Diógenes Dantas — Só para complementar, em sua coluna no último domingo (10), o jornalista Elio Gaspari chega a fazer uma pergunta: se o senhor seria o Garibaldi da Revolução Farroupilha ou o Alves que há 40 anos partilha e divide o poder no Rio Grande do Norte. Como o senhor recebeu essa colocação?
Garibaldi Filho – Eu recebi como a colocação de um jornalista de grande prestígio que resolveu dar uma cutilada.
Diógenes Dantas — Doeu?
Garibaldi Filho – Até que doeu um pouquinho (risos). Mas o que acontece é que eu não vou deixar de ser Alves. Na verdade, o que poderia acontecer era eu deixar de ser aquele Garibaldi que ele espera que eu seja. Mas eu vou... Ele aguarde.
Geórgia Nery – Sobre o aeroporto de São Gonçalo do Amarante, o senhor disse que vai se unir a quem quer que seja em beneficio do Rio Grande do Norte. Essa ênfase que o senhor dá é para afastar as especulações e as notícias de que seria uma aproximação político-administrativa com a governadora Wilma de Faria?
Garibaldi Filho – Olhe, eu não estou preocupado com isso, não. Eu já me preocupei. Já me fizeram muita raiva com essa história de "acórdão", mas dessa vez eu não estou preocupado. Dessa vez, eu sei que está todo mundo entendendo que essa união não tem nada de coisa rasteira da política.
Diógenes Dantas – Será?
Garibaldi Filho – Homem de pouca fé, Diógenes Dantas (risos), você precisava realmente ter ido lá. E eu vou até dá sugestão à governadora para que ela leve um bocado de Diógenes Dantas da próxima vez para que vocês vejam que o que existe mesmo é um desarmamento de espírito. Está tudo mundo desarmado. Só usando uma arma, que é em favor do Estado. Depois de julho, porque vem eleição municipal, pode ser que a eleição atropele alguma coisa. Mas a política partidária está passando longe dessa união.
Pergunta da platéia (Jornalista Revil Alves) – Senador, o senhor é temerário das mulheres? Digo isso por causa das eleições de 1986, quando o senhor ganhou a Prefeitura de Natal contra Wilma de Faria. E em relação a 2010, o senhor aceitaria ser (candidato a) vice de Dilma Rousseff (ministra-chefe da Casa Civil da Presidência de República) numa chapa para a Presidência da República? Ou iria se unir a Wilma para disputar as duas vagas do Senado?
Garibaldi Filho – Eu não chego a ser um daqueles que muitas vezes enfrenta uma mulher como ela deveria ser enfrentada. O problema da eleição daquele ano pela Prefeitura de Natal é que eu enfrentei Wilma e a mulher do senador Carlos Alberto (Miriam de Sousa). Eu, no meio de duas mulheres, não sabia como reagir diante das provocações e se aproveitaram da situação. Eu nunca tinha disputado um cargo majoritário e o machismo naquela época, em 1985, era grande. Mas hoje, não sou só eu que tenho medo das mulheres. Uma vez, eu estava fazendo campanha em Felipe Camarão e já estava bastante cansado. Mas me disseram: “a mulher subiu o morro, você vai ter que subir também”. A mulher era Wilma. E eu subi, mas ninguém sabe como eu cheguei lá em cima (risos). E, sobre as eleições de 2010, se eu disser que vou acompanhar Wilma no Senado, você vai ver que a especulação vai tomar conta. Mas eu não pretendo aderir ao governo e fazer uma chapa com Wilma. Eu não cogito porque cada um de nós tem o seu espaço. Já basta de confusão por causa de especulações. O que ela pode esperar é que ela terá um adversário leal, como ela sempre teve, nem que eu tenha que subir o morro novamente.
Pergunta do internauta (jornalista Carlos Santos) – Senador, um amigo que possuo costuma comentar que quando alguém leva uma surra num beco sem saída é acaso, falta de sorte. Na segunda surra, no mesmo beco sem saída, é burrice. Uma eventual aliança com Wilma de Faria em Natal, agora neste ano, seria um caso de burrice ou esperteza do PMDB, ou do senhor?
Garibaldi Filho – Eu acho que seria de burrice (risos). Agora, burrice levando mais uma surra, não dá, não (risos). Carlos Santos, tenha piedade... (risos)
Pergunta da platéia (Miguel Mossoró, pré-candidato a prefeito de Natal pelo PTC) — O senhor se sentiu acuado dentro do Senado durante as eleições para presidente? Como se tivesse sido jogado num covil cheio de cobras?
Garibaldi Filho – Eu me senti acuado, claro. Eu não era um senador que tinha projeção nacional. Não tinha apoio inicialmente do meu partido, tinha o apoio da minoria do meu partido. Fui um candidato que partiu assim, como se fosse um candidato aventureiro. Não era propriamente um aventureiro porque o candidato aventureiro é aquele que não dá segurança a ninguém. Não era uma aventura, foi uma certa coragem, que nem eu pensei que tinha. Mas quero dizer a você que deu certo. Hoje, há quem diga que se eu não tivesse me lançado naquela hora, 24 horas depois, 48 horas depois, minha candidatura já era.
Diógenes Dantas – O senhor teria sido atropelado...
Garibaldi Filho – Totalmente atropelado. É uma história que ninguém vai contar agora. Nem me interessa contar, claro, pois, senão vou me indispor com alguns colegas. Mas que foi uma jornada difícil, foi. Talvez não tenha sido com essa dramaticidade que você contou aí. Não tinha essas cobras todas, não (risos).
Diógenes Dantas — O senhor fez promessas que não podem ser cumpridas nesse processo, senador?
Garibaldi Filho – O problema não era muito de prometer, não. O problema era justamente o seguinte: numa determinada hora, era difícil saber quem não era candidato. Sem um candidato natural na bancada, sem uma disputa natural, como foi a disputa anterior entre Sarney e Renan, quando deu-se aquele vazio, todo mundo queria ser candidato. E aí um estimulava o outro. E o que é certo é que eu escapei. Mas não foi fácil. Desse processo eu consegui escapar.
Georgia Nery – Depois de ter sido muito elogiado por seu discurso na reabertura dos trabalhos no Senado Federal, pela contundência e pela verdade que foi dita aos senadores sobre o trabalho e sobre a imagem do Senado e do Congresso Nacional junto aos eleitores, a oposição criticou o senhor por não ter aceito o requerimento da CPI dos Cartões Corporativos por causa de um erro de redação. Existe uma pressão do governo federal para que o senhor, como presidente do Senado, defenda os interesses da administração? Como, por exemplo, a CPI ser composta por integrantes do governo, já que tem a maior bancada? Não seria mais democrático ter um membro da oposição e do governo alternando-se na relatoria e na presidência?
Garibaldi Filho – Com relação a essa CPI dos Cartões, estou defendendo que o comando da CPI seja dividido. Isso significa dizer que o presidente será do governo e o relator será da oposição, ou vice-versa. O cargo mais disputado é o de presidente. Por quê? Porque o relator é muito importante, mas ele não tem a interferência no dia-a-dia de uma CPI que um presidente tem. O relator prepara o relatório, no final dos trabalhos, mas aquele relatório pode ser derrotado. Em vez de ser um relatório do vencedor, passa a ser do vencido. E essa questão lá da CPI, primeiro, o governo não quer dar nem relator, nem presidente.
Georgia Nery – E o senhor está sendo pressionado para assumir essa postura?
Garibaldi Filho – Mesmo que estivesse sendo pressionado, eu não tenho como interferir muito nisso, não. Por que, você veja bem, depois da escolha do presidente, seja por acordo, seja por eleição, seja por disputa, já é o presidente que indica o relator. Então, eu não estou sendo pressionado em relação a isso, absolutamente. E estou preparado para sofrer as pressões que venham a acontecer, mas é como eu disse aqui no início: Não vou me afastar dessa linha de independência que adotei, porque acho que ela é o único caminho para reabilitar a credibilidade do Senado federal.
Diógenes Dantas – Tem cheiro de acordão no ar, nessa questão da CPI dos Cartões?
Garibaldi Filho – Dizem que tem, porque um estaria temendo o outro. É aquela história: dizem que tem, porque todos têm culpa no cartório. Você não tenha dúvida de que nessa história de cartão, eu não aposto de jeito nenhum, que nem um governo, nem o outro, não tenham as suas mazelas. Claro que quem vai perder mais é o governo atual. Porque o outro, de Fernando Henrique Cardoso, não está em discussão. Mas, na verdade, acho que não há clima mais para acordão. Não há clima mais para essa história de fingimento lá no Congresso, não. Essa história de o sujeito dizer que é aquilo, que é aquilo outro e estar fingindo. Não há clima para isso.
Marcos Alexandre – Senador, o senhor vai me permitir a insistência, mas há duas curiosidades que eu queria sanar nessa questão sobre o clima amistoso entre as principais forças políticas do Estado, o grupo do senhor e o grupo da governadora Wilma de Faria. A primeira curiosidade é a seguinte: é sabido que o presidente Lula tem feito gestões para que os partidos da base aliada dele se unam nos Estados. Aqui, no Rio Grande do Norte, isso significa ter PSB e PMDB do mesmo lado. O que o senhor responde para o presidente quando ele faz esse tipo de sugestão? A palavra do presidente pode ter um peso nesse sentido? E a outra curiosidade é que o senhor falou que essa palavra de “acordão” já lhe deu muita raiva. O que exatamente lhe deu essa raiva e por quê?
Garibaldi Filho – Você fez umas três perguntas... (risos) Eu tenho que saber por onde é que eu vou começar.
Marcos Alexandre – Então vamos começar pelo presidente...
Garibaldi Filho – Realmente o presidente é muito aberto.
Diógenes Dantas – Aberto?
Garibaldi Filho – É. Aberto... Ele conversa! Veja bem, você vai lá conversar sobre CPMF, houve uma reunião lá sobre a votação da CPMF. Aí, ele não fica só naquele assunto, não. Ele vai em frente. Resultado: ele, numa dessas oportunidades – também não estive muito lá assim não, principalmente depois daquele discurso...
Marcos Alexandre – Não foi mais convidado, não?
Garibaldi Filho — Nada. Para nada (risos). Só fui lá por que tinha que ir para (o encontro de) Dilma, né?
Diógenes Dantas — A imprensa nacional fala muito de uma antipatia mútua entre vocês dois. Existe isso?
Garibaldi Filho – Nada. Não existe coisa nenhuma.
Diógenes Dantas – Da parte dele, o senhor sente isso?
Garibaldi Filho – Nada, nada, nada. Não existe antipatia nenhuma. Eu até, a princípio, quando fui a primeira vez, fui com um certo cuidado. Mas, que coisa nenhuma, ele me deu um abraço logo, que acabou. Desarmou. E o que é certo, respondendo à sua pergunta, ele abordou claramente esse assunto. "Olhe, lá no Rio Grande do Norte, nós precisamos da união do PSB com o PMDB. A governadora precisa do apoio de vocês. E vocês não têm outro caminho". Afinal de contas, ele insinua que não tem outro caminho e a gente sabe por quê: porque ele não quer conversa com José Agripino. Nem José Agripino com ele, com aquele discurso. Então ele diz: "Olhe, vai fazer uma aliança com quem, no Rio Grande do Norte? Tem que fazer com Wilma, com a governadora".
Diógenes Dantas – E aproveitando o gancho, eu pergunto: o senhor foi aliado do senador José Agripino Maia na última eleição estadual. Essa aliança ainda está de pé? O senhor vai estar aliado ao Democratas nas principais cidades do Estado, incluindo a capital, senador?
Garibaldi Filho – Não. Em Natal, parece que não. Porque, veja bem, José Agripino só fala em Micarla.
Diógenes Dantas – O senhor tem alguma coisa contra Micarla?
Garibaldi Filho – De jeito nenhum. Não tenho nada contra Micarla. O problema é que o PMDB tinha uma dívida com os seus correligionários, companheiros. É que, você sabe muito bem, que essa história de você contar com o apoio das bases, você conta, mas você também precisa prestigiar as bases. E o PMDB há algum tempo não apresenta candidato a prefeito.
Diógenes Dantas – Em Natal, são três eleições consecutivas.
Garibaldi Filho – Resultado: quem é do PMDB deve estar se perguntando: "Será possível que esse partido não tem um candidato? E que nós vamos ficar numa lista de espera para falar com o prefeito"? Porque o prefeito, primeiro, vai querer falar com os correligionários do partido dele, para depois querer falar com o PMDB. Então, já estava na hora de se lançar um candidato. E o PMDB fez uma coisa muito boa, que foi criar uns núcleos nos bairros. E, a princípio, começaram a falar no meu nome — claro que eu não pretendo mais me candidatar a prefeito. O que é certo é que nós temos hoje um candidato, que é o vereador Hermano Morais.
Diógenes Dantas – A candidatura dele é para valer, senador?
Garibaldi Filho – Claro. Por que não? Mas me diga uma coisa: Hermano Morais tem cara de laranja? Eu tive vontade de dizer outra coisa, mas não disse (risos).
Diógenes Dantas – Eu pergunto isso, senador, por que as convenções não foram realizadas. Quer dizer, oficialmente o PMDB não tem um candidato. Na verdade, tem um pré-candidato. E a gente sabe que o PMDB vai sentar à mesa de negociações com vários partidos. Quer dizer, pode ser convencido a não ter uma candidatura própria. O PMDB vai ter candidatura própria e pretende caminhar com Hermano Morais?
Garibaldi Filho – Pretende. Nós só não vamos caminhar com ele se não ganharmos no primeiro turno. Por mim, ele é “o” candidato a prefeito do PMDB. Acho que o PMDB precisa contar os votos que tem em Natal. Porque, se apoiar outro candidato, de outro partido, o PMDB jamais saberá quantos votos tem em Natal. E, se demorar muito, quando for contar, não tem mais nenhum (risos).
Pergunta do internauta (Paulo Sérgio, consultor de vendas) – Sabendo de sua amizade com o senador José Agripino, pergunto se o senador José Agripino não viabilizaria a sua candidatura a vice-presidente da República, numa chapa dos candidatos do PSDB. O senhor abriria mão de sua candidatura a senador e seria um candidato a governador, por exemplo, ou a vice-presidente da República?
Garibaldi Filho – Olhe, em primeiro lugar, eu realmente tenho hoje uma amizade com o senador José Agripino muito grande. Claro, todo dia no Senado. E depois daquela campanha em que ele me apoiou firmemente, dessas demonstrações de apreço... Agora, vou dizer uma coisa, Paulo Sérgio, José Agripino, em primeiro lugar, vai tentar viabilizar a candidatura dele a vice-presidente. E eu dou inteira razão a ele. Por exemplo, se Serra for o candidato das oposições, e se estiver forte, quem é que não vai querer ser candidato a vice de Serra?
Pergunta do internauta (jornalista Petit das Virgens) — O senhor tem consciência de que está no cargo certo, no momento certo e com o discurso certo para entrar para a História do país? O senhor esperava uma repercussão tão positiva de todos os setores nacionais com o seu recente discurso, na abertura dos trabalhos do Congresso Nacional? O senhor acredita que pode mudar alguma coisa de fato?
Garibaldi Filho – Eu acredito. Pode ser que alguém não acredite em mim, mas eu acredito que as coisas vão mudar porque estão na hora de mudar. Eu não estou pregando no deserto. Na verdade, eu tenho consciência de que tenho o apoio de muita gente no Congresso Nacional, inclusive do presidente da Câmara, Arlindo Chinaglia. Firmamos um acordo para modificar as medidas provisórias. Tem uma proposta na Câmara que, se modificada, vai fazer com que as medidas provisórias não tranquem mais a pauta. Então, vou dizer como disse antes: tenha fé, Petit!
Pergunta do internauta (contador Augusto César Pereira) — Nos últimos tempos, o TSE (Tribunal Superior Eleitoral) vem legislando em lugar do Legislativo, como no caso da fidelidade partidária. Como o senhor pretende impedir a interferência do Judiciário no Legislativo?
Garibaldi Filho – O que houve foi que o Legislativo poderia ter decidido essa questão (fidelidade partidária) muito antes. Houve uma proposta de reforma política, o Senado aprovou essa proposta e nela havia a fidelidade partidária, mas, com esse desentendimento entre Câmara e Senado, tudo o que o Senado aprovou a Câmara não aceitou. Ficaram aí esperando só que o Judiciário viesse e, respondendo a uma consulta qualquer, legislasse em lugar do Legislativo.
Pergunta da platéia (jornalista Jeferson Garrido) — Ao fim do seu segundo mandato no Governo do Estado, o senhor ficou conhecido como "governador da águas". Ao fim do seu mandato à frente do Senado, como o senhor gostaria de ser lembrado?
Garibaldi Filho – Do jeito que estão querendo que eu apóie as coisas e as causas, se eu fosse fazer tudo isso, nem sei como iria ser lembrado. São tantas coisas... Na verdade, não podemos ter ilusões. Temos é que nos concentrar diante de determinadas causas. Eu quero ser lembrado não pelo que eu pedi ao governo federal, mas pelo que eu não pedi. Eu quero ser lembrado como um presidente que fez com que o Congresso Nacional voltasse a ter o poder que ele precisa ter. Quero ser lembrado pela independência que se demonstrar que o Congresso ter. Espero que isso aconteça. Se isso acontecer, confesso: ficarei muito feliz.
Pergunta do internauta (George Câmara de Souza) — Que informações o senhor tem sobre duas reformas que já se arrastam há tanto tempo, a política e a tributária?
Garibaldi Filho – Sobre a reforma tributária, vocês me permitam dar uma chiada: o ministro (Guido) Mantega (da Fazenda) me disse ao telefone anteontem (quarta-feira, dia 13) que vai mandar no dia 28. A reforma política não é uma questão do governo mandar, somente. Não adianta o governo mandar, se o Congresso não estiver motivado para votar. A reforma tributária tem implicações na vida do cidadão, principalmente se o cidadão é empresário, na vida dos Estados, dos governos. Tem muitas implicações. Mas a política toca no coração de cada paramentar. É alguma coisa que fala perto a cada parlamentar.
Diógenes Dantas — O senhor fala em tocar o coração, mas há quem diga que a reforma política mexe com os interesses de cada parlamentar.
Garibaldi Filho – É porque você é mais malicioso (risos). Na verdade, é uma reforma que exige muito de cada parlamentar, sobretudo no seu espírito de renúncia, de ver a coisa com isenção. E é muito difícil ver com isenção uma coisa que pode te prejudicar, aquilo que envolve o seu mandato, tudo o que você conquistou politicamente. A reforma política está esperando pelo amadurecimento — e eu nem gosto muito desse termo — da própria classe política do Brasil. E ela é urgente, urgentemente necessária.
Geórgia Nery — Nessa breve estada na presidência do Senado, uma das coisas que vêm chamando a atenção é o fato de o senhor não estar utilizando alguns dos privilégios concedidos ao presidente da Casa. Quais são esses privilégios e por que eles são desnecessários, já que o senhor não está usando?
Diógenes Dantas — Ou é só a manha do senador Garibaldi Filho?
Garibaldi Filho – Não é manha, nada. Nem tem esse privilégio todo. Se você é presidente do Congresso, tem um avião da FAB à sua disposição. Não é uma questão de pedir, é de requisitar. Não é que eu diga a vocês que eu viajei e não gostei, porque eu gostei (risos). O problema é que não se pode abusar, estar para lá e para cá de avião da FAB. Só se deve requisitar o avião da FAB quando for necessário. É uma coisa em que a gente deve ter um certo critério. Os caroneiros vivem dizendo: "olhe, peça o avião" (risos). Quem é que não quer viajar de graça? E eu vou dizer uma coisa: não são aqueles aviões velhos, não. Tem até uns aviões novos. Mas eu não sei qual é o outro privilégio.
Geórgia Nery — Seguranças, por exemplo.
Garibaldi Filho – Se quiser, realmente, pode ficar andando com segurança para lá e para cá. Eu não vejo sentido. Aqui, eu não trago segurança de jeito nenhum. Lá em Brasília — senão eles perdem o emprego —, eles ficam naquele carro, andando atrás... Que mais? Não tem mais, não. Ah, tem um gabinete perto do plenário, maior que o dos outros. Mas também, se não tivesse... Agora, se contar os aborrecimentos, também tem muitos. Não é só privilégio.
Diógenes Dantas — Dia desses, o senhor estava andando na praia de Copacabana, no Rio de Janeiro, e foi cumprimento por um carioca, que lhe disse: "olha, não vá arrumar uma Mônica Veloso". Qual foi sua reação? O senhor vai fazer valer esse conselho?
Garibaldi Filho – (Risos) Olhe, se conselho fosse bom não seria dado de graça. Mas eu até acho que o cidadão tem razão. A gente precisa ter cuidado (risos).
Fred Carvalho — Na época em que o senhor foi governador, um fato policial acabou ganhando conotação política e repercutindo em todo o país. É o chamado Caso Gusson, que indicava a existência de uma possível rede de tráfico de influência e de superfaturamento de contratos envolvendo pessoas ligadas ao senhor e ao seu gabinete. Como o senhor lida hoje com o Caso Gusson? Esse fato está superado ou ficou algum resquício dessa época?
Garibaldi Filho – Eu considero inteiramente superado, porque eu não respondo por nada. Para mim, ele é passado. Me deixou algumas marcas no momento, mas agora já era. Por que me preocupar com uma coisa, em que foi feita uma denúncia, mas que eu não fui denunciado. Isso foi investigado. Não sei por que, e você me perdoe, ainda me fazem essa bendita pergunta, para não dizer outra coisa.
Diógenes Dantas — Talvez seja, senador, porque a Presidência do Senado é um dos cargos mais importantes do país e, na última década, quem ocupou essa cadeira caiu em maldição. Tirando o senador José Sarney, que conseguiu sair incólume, tivemos os casos de Jáder Barbalho, que até chegou a ser cassado; de Antônio Carlos Magalhães, que teve de renunciar para não ser cassado; e tivemos recentemente a crise de Renan Calheiros. O senhor não teme que investigações sobre seu passado e sua gestão no Governo do Estado venham a manchar a sua presidência do Senado?
Fred Carvalho — Até porque, senador, seus adversários também sempre relembram o Caso Gusson.
Garibaldi Filho – Olhe, se tivesse de manchar, eu já estaria todo manchado. Eu considero — e acho que não sou eu apenas, vocês me permitam — que ninguém mais dá crédito a essa história. De primeiro, alguém ainda procurava dar algum crédito, levantar alguma suspeita, levar isso para os jornais de lá (do Centro-Sul) e o que eu disse é que não há nada contra mim. Não respondo por nada disso. Deu nota de jornal, ameaça disso e daquilo, o Ministério Público investigou, mas não deu nada contra mim.