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Entrevistas
Entrevista realizada em 22/12/2007

Henrique Eduardo Alves: “O PMDB pode conversar com todo mundo”

Líder do PMDB na Câmara Federal, o deputado aponta Walter Alves como opção do partido à sucessão em Natal e também fala da possibilidade de uma reaproximação política com a governadora Wilma de Faria.
Fotos: Vlademir Alexandre
Henrique Alves: "Quem vier propor um papel secundário para o PMDB em Natal vai perder tempo"
O PMDB ainda não definiu sua posição na próxima eleição para a Prefeitura de Natal. Pretende ter candidatura própria, mas está decidindo a questão pela lógica inversa à esperada: seguindo o critério da eliminação. Isto porque os dois nomes mais fortes do partido, sob o ponto de vista eleitoral, o senador Garibaldi Filho e o deputado federal Henrique Eduardo Alves, descartam a idéia de representar a legenda na disputa.

Diante disso, ganham evidência na sigla o deputado estadual Walter Alves e o vereador Hermano Morais. A julgar por esta entrevista, concedida durante visita do deputado à redação do Nominuto.com, Henrique parece já ter uma preferência. Ele faz uma defesa entusiasmada de “Waltinho”, como o deputado, filho de Garibaldi, também é chamado. Não descarta Hermano e garante que a discussão será conduzida pelo diretório municipal, presidido pelo vereador. Mas desmancha-se em elogios ao primo em segundo grau.

Líder do PMDB na Câmara Federal, Henrique também trata do bom momento vivido por ele e por Garibaldi no cenário nacional, sobretudo com a eleição deste para a presidência do Senado. E afirma que a eleição de Garibaldi, principalmente, mudou a configuração política do Rio Grande do Norte junto ao governo federal. Aproveita para conclamar as forças políticas do Estado a aproveitar esse momento, independente das questões partidárias.

Não exclui a esse chamamento sequer a governadora Wilma de Faria (PSB), hoje sua adversária. Se essa proximidade, a qual Henrique prefere distinguir como “administrativa”, pode evoluir para uma relação política, o líder peemedebista não arrisca maiores comentários. Mas revela que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva vem estimulando a reprodução dessa aliança, que já existe no plano federal, também no Rio Grande do Norte.

Estes são alguns dos temas abordados nesta entrevista com o deputado Henrique Eduardo Alves. Há outros, como as relações do seu partido com o PT local, a possibilidade de uma reconciliação política com o prefeito de Natal, Carlos Eduardo, e também a idéia dele, Henrique, ser candidato a governador em 2010. Confira a seguir.

Nominuto — O PMDB tem a pretensão notória de ter candidato próprio, mas o que se vê é o partido carente de nomes, uma vez que o senhor já descartou ser candidato, e o presidente do Senado, Garibaldi Filho, também. Garibaldi ainda descartou o nome do deputado estadual Walter Alves. O vereador Hermano Morais, por sua vez, ainda não tem a projeção necessária para ser candidato. Afinal, como está sendo conduzida essa questão?

Henrique Eduardo Alves – O PMDB do Rio Grande do Norte vive um momento ímpar na sua história e veja como são as coisas na política do Estado e do Brasil, o destino das coisas como se processa. Tomando a eleição de governador com a derrota de Garibaldi, todos diziam que agora o PMDB ia afundar porque perdeu a eleição, pois nunca tinha perdido uma e perdeu a primeira e, assim, iria passar por um processo de enfraquecimento. Teve um fato mais grave do que isso porque é estrutural, e emocional, que foi Aluízio (Alves) nos deixar, que era o nosso grande guia em todos os momentos. As nuvens estavam sombrias para o nosso PMDB, segundo todas as análises, mais isentas ou não. E veja como são as coisas: passados dois anos, o Rio Grande do Norte tem um senador da República que é presidente do Senado e do Congresso Nacional; tem um deputado federal que lidera a maior bancada da Câmara e, portanto, do Congresso Nacional. Se você pegar hoje as três figuras mais importantes do Congresso Nacional, vê o presidente do Senado, o nosso Garibaldi, do PMDB. Vê o presidente da Câmara, Arlindo Chinaglia, que é do PT. A terceira, por ordem natural das coisas, é a liderança do maior partido nas duas Casas, e é do PMDB e do Rio Grande do Norte. Então, acho que essas coisas se conjugaram e trazem ao PMDB uma coisa muito importante que muitos também não acreditavam ou não esperavam e aconteceu. Portanto, é muito honroso para nós. E a questão das eleições municipais em 2008, as candidaturas poderiam surgir de forma natural, que são levantadas aqui e acolá por generosidade, por reconhecimento, ou pelo que possa ser, é a de Garibaldi e a nossa também. Mas eu acho que essas duas pessoas são estratégicas, no ano que vai se discutir a reforma tributária para valer, acho que vamos discutir o pacto federativo, questões regionais que preocupam muito o Nordeste em relação ao Centro-Sul do país; uma reforma política vai tentar se desenhar de novo, Lula promete fazer uma reforma trabalhista, então há uma gama de assuntos que irão chegar ao Congresso Nacional.

NM — Mas voltamos ao mesmo ponto: o PMDB não tem candidatos, além de Garibaldi e Henrique?

HEA — Eu não diria que não tem, mas esses dois nomes, pelas posições estratégicas que passaram a ocupar... talvez, se eu não tivesse sido reeleito líder do PMDB para 2008, eu fosse um nome à disposição do partido. Mas tendo sido reeleito líder e Garibaldi com essa posição, eu acho que são posições estratégicas e importantes para o Rio Grande do Norte, não é pensando no PMDB. É para somar em favor do Rio Grande do Norte. Então abrir espaços essa hora, eu acho um erro grave. Excluindo esses nomes, nós temos um partido com candidatura própria, vamos buscar outros nomes, eu faço a minha culpa aqui pela história. O PMDB, por diversas eleições, não teve candidato próprio, optou por alianças.

NM — Poderá ser a quarta eleição sem candidatura própria?

HEA — Eu não quero que isso ocorra e eu sei que isso atingiu a militância do partido, a imagem do partido, a cara do partido, as idéias do partido. E com isso a gente perdeu força, perdeu atitude, perdeu postura, perdeu consistência, então eu acho que a gente não pode perder de novo nesse momento. Acho que temos que ter um candidato do PMDB, mesmo se não for o candidato mais esperado, mais popular, mais falado, vamos buscar um candidato correto, de uma vida política coerente, que pode ter uma proposta para Natal, que possa ter uma interlocução com a sociedade natalense e eu acho que a gente pode surpreender e, no segundo turno, sim, vamos ver quem vai e quem não vai e avaliar as alianças possíveis e mais próximas por afinidade. Eu defendo de forma intransigente uma candidatura do PMDB.

NM — O vereador Hermano Morais é citado além dos nomes de Garibaldi e Henrique como possibilidade de candidatura. Mas ele próprio, em depoimento na Câmara Municipal de Natal, descartou e disse que vai se candidatar à reeleição, até depois de uma declaração do presidente do Senado, Garibaldi Filho, ao Jornal 96 onde ele disse que Hermano teria que se consolidar como candidato. Hermano está descartado?

HEA — Não. Veja bem, aqueles partidos que lançaram candidatos ou os candidatos se lançaram estão todos passando por dificuldades de fogo-amigo, fogo-inimigo, por intrigas de toda ordem. O que eu ouço de críticas de A contra B ou de B contra C é uma coisa impressionante. Então, nos bastidores, o fogo está queimando e eu não sei até que ponto chegará esse processo. Estar sendo poupado o lançamento de uma candidatura não está sendo prejudicial ao PMDB, que a partir de março estará fazendo seminário para discutir a cidade de Natal, trazendo lideranças importantes e de segmentos da economia, do turismo, da segurança pública para estabelecer um projeto para Natal e, a partir daí, buscar uma solução. Então, de repente, um candidato novo pode surpreender, Hermano Morais tem uma história inatacável em sua vida político-partidária e outros nomes podem nascer. O importante é nós termos a convicção que o partido está forte, num bom momento nacional e em Natal para ter uma candidatura própria.

NM — Fala-se muito na possibilidade do lançamento da candidatura do deputado Walter Alves, o Waltinho, filho do senador Garibaldi Filho. O que o senhor tem a dizer a respeito desse tipo de especulação?

HEA — Eu acho que pode ser o nome, porque ele vem surpreendendo com a sua atuação na Assembléia, não é aquele deputado de primeiro mandato que de repente demora a aprender as coisas. Ele está aprendendo muito rápido, pois tem um excelente professor dentro de casa, como eu tive na minha e isso ajuda muito. O fato de ser filho de um político com as características que Aluízio teve e que Garibaldi também tem ajuda muito na formação. Você já nasce com uma formação política, sabendo ouvir e Waltinho tem as qualidades muito parecidas com as de Garibaldi: ele sabe ouvir, tem sensibilidade e está aprendendo muito rápido. Então, quem sabe ele não pode atender? Mas desde que ele tenha antes um projeto, uma proposta para a cidade de Natal e a partir daí vamos buscar esse candidato e, com certeza, no que depender de mim, é um candidato próprio do PMDB. Mas a articulação primeira vai ser conduzida e ouvida pelo diretório municipal, pelo seu presidente Hermano Morais, no grande trabalho que está fazendo e depois chegará à instância estadual.

NM — Waltinho não é um nome a ser descartado como fez Garibaldi? Essa atitude foi mais um desejo de pai?

HEA — Nem ele, nem Hermano estão descartados. Eu acho que é mais um desejo de pai de achar que está muito cedo, sair de uma recém-eleição para deputado estadual e no seu primeiro ano de mandato já ter um embate desses, eu acho que é mais um desejo de pai em avaliar melhor. Mas o desempenho do filho está surpreendendo o pai, então isso é uma história para ver com calma, sem ansiedade. Eu volto a dizer: os que se lançaram muito antecipadamente estão aí sofrendo problemas internos, e nós nos poupamos disso. No momento certo, apresentaremos uma proposta e então vamos buscar o candidato interlocutor com a sociedade.

NM — Essa semana, o vereador Renato Dantas, que também é uma das lideranças do partido em Natal, falou em um suposto “acordo familiar” que envolveria também o PMDB e o prefeito Carlos Eduardo. O que há de verídico nessa história?

HEA — Nada.

NM — Não existe nenhuma reaproximação com o prefeito?

HEA — Existe aproximação no plano familiar, é uma coisa que fez bem a ele a gente também. A mim somente, era uma relação mais difícil com ele pelo passado, pelo que houve, então achei muito bom ter acontecido esse reencontro familiar. Não tenho mais aquele conflito que nós tínhamos no passado e nós achamos que é muito bom conseqüentemente para Natal, porque agora ele nos procura para ajudar a cidade no ponto de vista administrativo. Isso é bom para todos. Então, houve esse avanço enorme na relação pessoal e administrativa, mas no tocante à parte política, eu não troquei sequer uma palavra com o prefeito Carlos Eduardo, não sobre questão político-eleitoral.

NM — Henrique Eduardo não, mas Garibaldi não poderia já estar conversando com Carlos Eduardo, até por intermédio do tio Agnelo?

HEA — Eu acho que não. Eu acho que ele me daria conhecimento. Eu acho que as conversas minhas e de Garibaldi, as minhas ele sabe e eu sei as dele.

NM — De tudo?

HEA — Eu acho que sim.

NM — E Agnelo pode ser esse ponto de convergência política, já que a pessoal vocês já reataram?

HEA — Agnelo sempre reclamava que não tinha nenhuma influência sobre Carlos Eduardo. Mas ele tem uma influência sobre Garibaldi muito grande e voltou a ter uma convivência muito boa conosco, e isso é muito importante, pois estamos sempre tratando as questões de Parnamirim, mas não chegamos ainda a detalhar uma aproximação política do prefeito conosco.

NM — Mas você fecharia a porta para uma conversa política com Carlos Eduardo?

HEA — Absolutamente, eu acho que não, na hora em que ele quiser conversar com Henrique e com o PMDB, o PMDB pode conversar com todo mundo. Passou esse tempo de fechar as portas, o radicalismo, essas coisas estreitas, coisas de ressentimento. Eu acho que isso não se constrói nem no Brasil de hoje e não se aplica aqui no Estado. Mas na hora em que ele quiser conversar com o PMDB, vai ter que se respeitar a posição dele. Ele é presidente do PSB, aliado da governadora Wilma que a é a nossa adversária nos dias de hoje. Na hora em que ele quiser mudar esse roteiro e quiser conversar com o seu velho PMDB, acho que esse partido não se furtaria.

NM — O senhor disse que o PMDB estaria aberto para conversar com todo mundo, inclusive com o PSB da governadora?

HEA — Já conversamos hoje, acho que a conversa mudou muito em relação ao PSB, havia aquele ranço das campanhas de Wilma e talvez um pouco nosso também. Saíamos de campanhas acirradas, ficavam aquelas mágoas, o que não era bom para o Estado e nunca foi, e nós aprendemos a amadurecer para poder reconhecer que isso tem que acabar. Então, houve esse encontro com a governadora para tratar de assuntos administrativos, que antes nem havia, antes eram piadas, indiretas, acusações e intrigas e isso acabou. Você veja que ela vai a Brasília almoçar com Garibaldi no Senado. Eu até perguntei a ele quem foi que pagou a conta, se foi a governadora ou se foi ele (risos)...

NM — Mas ela foi para uma audiência com o presidente Lula e não levou Garibaldi.

HEA — Aí, eu começo a tratar do assunto discordando da atitude dela. Quando o secretário Wober (Júnior, do Gabinete Civil) me telefonou de forma muito gentil e me convidou, como líder, para representar a bancada, eu disse “Wober, me desculpe a franqueza, mas eu não vou, porque eu discordo da formatação desse processo”. Eu acho que na hora em que Garibaldi foi eleito presidente do Senado, eu não digo nem Henrique, ele é o líder. Mudou a configuração do Rio Grande do Norte em relação ao governo federal. Eu acho que as coisas estão programadas para a gente fazer um time novo, diferenciado, e a partir daí fazer estratégias da luta de campo. Eu acho que a ida dela isolada ao presidente da República, levando uma agenda de propostas, enfraqueceu-se na hora em que ela não teve ao seu lado o senador Garibaldi, o deputado Henrique, líder do PMDB, o senador José Agripino, líder do DEM, toda a bancada federal, representantes da Assembléia Legislativa, o presidente Robinson Faria, a Fiern de Flávio Azevedo. Acho que era hora de dar uma parada e se fortalecer, ver quais são as propostas viáveis do Rio Grande do Norte. Não adiantar botar 10 ou 20, porque não saem. Vamos arrumar três, quatro ou cinco no máximo e vamos todos ao presidente. Por mais que a governadora tenha força, é outra coisa chegar toda a bancada federal.

NM — Houve um certo ciúme nesse episódio, por conta da exposição que Garibaldi ganhou pela eleição de presidente do Senado?

HEA — Não, até porque Wober me deu um esclarecimento. Quando Lula esteve aqui na base aérea e a governadora encontrou-se com ele e quis tratar alguns assuntos e ele propôs: “Wilma, aqui não, porque eu vim com uma agenda rápida. Mas eu lhe recebo no Palácio”. A audiência foi uma coisa improvisada com o presidente Lula, não foi uma coisa que ela programou para não ir conosco, aconteceu acidentalmente. Mas eu acho que foi um erro de estratégia porque em janeiro ou fevereiro vou propor à bancada fazer esse roteiro, se reunir, ver três ou quatro temas, eu faço questão que sejam poucos temas para irmos ao presidente Lula, ao ministro (Guido) Mantega (da Fazenda), ao ministro Paulo Bernardo (do Planejamento) e irmos a quem for necessário, com uma proposta do Rio Grande do Norte.

NM — O presidente Lula teria coragem de retirar o aeroporto do São Gonçalo do PAC?

HEA — Até me surpreendi hoje (sexta) com as declarações da governadora Wilma de Faria de que teria conseguido do presidente da República (a garantia) que ele não tiraria o aeroporto de São Gonçalo do PAC. Na há a menor possibilidade disso acontecer, pela questão técnica e por questões de juízo, que Lula tem muito. Tirar o aeroporto de São Gonçalo do PAC e do Rio Grande do Norte, tendo o Rio Grande do Norte o presidente do Senado e o líder do PMDB na Câmara seria comprar uma briga absurda, inviável. Essa possibilidade é zero. Não existe e não se pode pensar nela. O que nós temos é que avançar. O que não pode é o BNDES pedir mais seis meses para preparar um estudo de viabilidade econômico-financeira. Estão pedindo esse estudo desde o ano passado. Estive em novembro com o presidente do BNDES, Luciano Coutinho, e ele disse que o estudo iria começar até maio. Daqui para maio, é muito tempo. Estamos perdendo tempo nessa história. É uma obra de 10 anos que se arrasta: é uma terraplanagem aqui, um asfaltozinho acolá. Está muito atrasada. Tem mais: ela só será viável associada à ZPE, a Zona de Processamento de Exportação. Isso eu ouvi da ministra Dilma (Roussef, da Casa Civil da Presidência da República). Já se aprovou o projeto das ZPEs no Senado, o presidente Lula vetou pontos que eram importantes para o Nordeste, nós reagimos e ele nos prometeu entregar até este mês de dezembro uma Medida Provisória para a Câmara, reorganizando essa questão. Até já pedi ao presidente da Câmara para ser o relator dessa matéria, para discutir os interesses do Rio Grande do Norte e do Nordeste. Essas coisas têm que caminhar juntas e com mais rapidez. Esse processo está muito lento. Acho que hoje nós temos força política para exigir rapidez. Dizer: “Ah, vamos fazer. Não vamos tirar do PAC” — tudo isso eu já sei. O que quero é que faça com mais rapidez. Garibaldi — ele não fala, mas eu falo por ele — tem uma importância muito grande, hoje. Ele é quem faz a pauta do Senado, coloca projetos, tira projetos, escolha relator de PECs (propostas de emendas constitucionais) importantes. Então, mudou a configuração política do Rio Grande do Norte em relação ao governo federal. E não se trata de fazer chantagem, não. O Ceará briga de tudo que é jeito. São Paulo briga, o Rio briga, Minas briga. Então, vamos brigar também, e de forma muito consciente. Vamos pegar três temas, se puder quatro, e brigar por eles.

NM — Que temas seriam, além do aeroporto de São Gonçalo?

HEA — Acho que a Transnordestina é um deles. Temos que rever o seu roteiro. Somente o Rio Grande do Norte (no Nordeste) ficou de fora desse roteiro, e é possível refazer isso. Temos também o projeto de irrigação da barragem de Santa Cruz, em Apodi, de 10.000 hectares. Um dia desses, Elias (Fernandes, presidente do DNOCS, o Departamento Nacional de Obras contra a Seca) veio do Ceará para cá sobrevoando e viu que a chapada do Apodi na parte do Ceará está toda irrigada. Quando entra no Rio Grande do Norte, não tem absolutamente nada. Um marzão d’água daquele e tudo inútil. A gente pode irrigar 10.000 hectares, o que muda a fisionomia da economia rural do Estado. O porto de Natal é outro tema. Hoje, nós temos o porto de Pecém, no Ceará, nos estrangulando de um lado e o de Suape, em Pernambuco, de outro. E nós temos que fugir desse imprensado. Ah, não temos condições? Antes, não tínhamos. Agora, com Garibaldi na presidência do Senado, com Henrique na liderança do PMDB e com José Agripino com a luta dele na oposição, com a bancada de qualidade que nós temos e com a governadora Wilma de Faria, que tem prestígio com Lula, vamos somar. Temos um time novo. Nós temos que ter humildade e dizer que não temos mais um atacante ou outro. Temos vários.

NM — Falta humildade à governadora Wilma de Faria?

HEA — Não, pois ela declarou à imprensa que quer isso. É só tirar o time de campo um pouco, refazer a estratégia e voltar para valer, para fazer os gols que precisamos fazer.

NM — Insistindo na pergunta sobre o PSB, o senhor falou em reaproximação no campo administrativo. E no campo político, quais são as possibilidades? Há alguma tendência de que isso aconteça? Já houve alguma conversa nesse sentido, mesmo que preliminar? Os espíritos estão desarmados?

HEA — Vou dizer a vocês o que não disse ainda a ninguém na imprensa de Natal: não tem uma conversa de que eu participe com o presidente Lula — e já tive várias, para tratar de assuntos do PMDB e da Câmara — e que ele não fale na união da sua base. Ele tem obsessão de eleger o presidente da República em 2010. Esse negócio de terceiro mandato não existe, mas ele quer eleger o futuro presidente da República. Ele quer que continue todo o esforço sério que está fazendo. Então, ele pensa todo dia em que essa base se una em torno de um candidato a presidente da República. Mas quer também que essa união aconteça nos Estados e nos municípios.

NM — É possível uma união como essa no Rio Grande do Norte? Ou em Natal, por exemplo?

HEA — Nos municípios, está muito em cima, não dá para fazer essa costura. É preciso se respeitar uma eleição, para que não fiquem feridas no pós-eleição. Então, ele sempre fala que é preciso se unir. Se ele está vendo Henrique próximo a ele, se vê agora Garibaldi próximo a ele e se Wilma já é próxima a ele, ele acha que tem que somar, sempre insiste nesse ponto, dizendo que é preciso deixar o radicalismo de lado. Argumenta até que os problemas existem, mas que ele também os enfrenta no PT. “Tenho não sei quantos PTs dentro do PT”, ele costuma dizer. Esse tema sempre volta, mas sabemos que a realidade aqui é uma e a que o presidente imagina é outra. Agora, que há uma melhor relação administrativa com o PSB (no Rio Grande do Norte), há. As conversas não têm mais aquele ranço, aquele ressentimento que havia no passado, mas nós temos uma aliança que têm coerência, foi corretamente cumprida pelo DEM, do senador José Agripino e da senadora Rosalba Ciarlini, pelo PDT de Álvaro Dias, que é um importante companheiro nosso, e com um parcela importante do PP, com Ronaldo (Soares, prefeito de Assu) e com Benes (Leocádio, ex-prefeito de Lajes). Então, havendo uma eleição amanhã, esse é o grupo com o qual iremos primeiro conversar. Só espero que as diferenças nacionais sejam respeitadas. Não imaginaria um comício em Natal em que o senador José Agripino venha a trazer um assunto do governo Lula de maneira negativa, pois eu seria obrigado a fazê-lo de maneira positiva.

NM — Hoje, no plano nacional, vocês do PMDB estão mais próximos do PT e conversam com o PSB. Diante disso, a aliança com o Democratas ainda existe?

HEA — Existe. A conversa de Garibaldi com José Agripino é muito boa e com Rosalba é melhor ainda.

NM — E a história de que José Agripino iria votar no senador Neuto de Conto, de Santa Catarina, na eleição para a presidência do Senado?

HEA — Não, não. Ele votou em Garibaldi, declarou voto pró-Garibaldi. E veja bem: antes disso, Garibaldi havia votado em José Agripino quando o senador José Agripino disputou (a presidência do Senado, ano passado) contra Renan Calheiros. Mesmo Renan sendo do PMDB, Garibaldi votou em José Agripino. O que o senador José Agripino disse em determinado momento é que talvez a sua base para outra candidatura pudesse ser melhor conduzida, com maior número. Mas terminou apoiando Garibaldi e ajudando a costurar votos no PSDB para Garibaldi. O importante é que estão lá Garibaldi e José Agripino, que é nosso aliado aqui. Nossa tendência, para qualquer conversa sobre eleição municipal, vamos chamar o senador José Agripino, a senadora Rosalba, o deputado Álvaro Dias, lideranças do PP. Se formos conversar em janeiro ou fevereiro, será nossa primeira conversa. Agora, uma coisa tem que ficar muito clara aí: não se pode trazer para a eleição de Natal as questões nacionais. Até por respeito ao senador José Agripino, não vou exagerar num discurso pró-Lula em palanque. E vice-versa. Respeitando-se essa posição, temos tudo para caminharmos juntos aqui no Estado. A não ser que novos fatos surjam, e a política é muito dinâmica, nós sabemos disso.

NM — E quanto ao PT? Surgiram rumores de que o apoio do partido à candidatura do senador Garibaldi à presidência do Senado passou por um compromisso de reciprocidade do PMDB a uma candidatura petista em Natal. Esse tipo de conversa existiu?

HEA — Não, absolutamente. Pelo contrário, quando Garibaldi ainda era pré-candidato, o senador Eduardo Suplicy saiu pegando assinaturas para Pedro Simon.

NM — Mas ele foi repreendido pela líder do PT na Casa, Idely Salvati.

HEA — Pois é, para você ver que o PT tem suas facções, que pensam e agem diferente. Não tem nada a ver uma coisa com a outra. Garibaldi se elegeu pelo mérito dele, pelo trabalho dele, história dele, currículo dele. Ajudei um pouquinho no que pude ajudar, o senador José Sarney ajudou também na articulação final. Foi uma confluência de fatores positivos, mas a primeira razão foi o mérito, a história de Garibaldi. Não envolveu nenhum compromisso com o PT. A deputada Fátima Bezerra, essa sim, veio conversar conosco sobre assunto...

NM — Então ela procurou vocês...

HEA — Ela conversou conosco e conversou com Lula anteriormente.

NM — E veio receber Garibaldi no aeroporto com um sorriso de orelha a orelha, quando ele desembarcou aqui pela primeira vez como presidente do Senado.

HEA — Eu sei, mas ela perdeu agora a eleição do PT para o diretório estadual.

NM — E continua sendo uma das principais lideranças do PT no Estado.

HEA — É, mas o PT tem várias facções. Fátima não pode assumir compromisso pelo PT, tem que conversar com todas as facções e lideranças. Ela conversou até agora isoladamente, como uma intenção muito distante. Ela nos disse que, após as suas eleições, o PT procuraria os partidos (aliados do presidente Lula) para ter uma conversa com cada um. Se tiver, acho uma coisa salutar, inclusive porque já temos uma convivência “lá em cima”. Veja bem: todos gostam de ver o PMDB como uma noiva, mas não quer dizer que a mulher ficará em segundo plano no casamento. Às vezes, o papel da mulher é mais importante que o do homem no casamento, se tiver uma personalidade forte ou uma liderança. As pessoas que pensam em conversar com o PMDB para o partido ser vice, saibam que o PMDB só aceita discutir composição municipal se todos estiverem em condições iguais nessa discussão. Se essa situação se configurar, nós conversamos. Agora, pensar no PMDB para um papel secundário, para compor como vice, é melhor não conversar com o PMDB porque vai perder tempo.

NM — Papel de coadjuvante não?

HEA — Amanhã, pode até chegar a ser, mas, no início de conversa, não. Não venha com essa preliminar porque, do nosso ponto de vista, a conversa não vai prosperar.

NM — Qual a sua avaliação dos cinco anos do governo Wilma de Faria?

HEA — Fazemos a avaliação de que ela teve um governo difícil no seu primeiro mandato. Nós perdemos oportunidades importantes com o prestígio que ela alardeava ter — e demonstrou ter na eleição — com o presidente Lula. A refinaria foi, talvez, a maior dessas perdas. Quando todos pensavam, pelas condições técnicas, que seria aqui, a refinaria foi bater em Pernambuco. O terminal pesqueiro também demorou muito para acontecer. Também perdemos a Transnordestina, um projeto importantíssimo para escoar a produção e para o nosso desenvolvimento. A própria Petrobras tem uma relação muito difícil com o Rio Grande do Norte, não dá ao Estado o que o Estado merece ter. Da mesma forma, a Segurança Pública também deixa a desejar. Acho que o Estado não se habilitou a enfrentar esse problema, que hoje afeta cidades pequenas, médias e as maiores, como Natal e adjacências. O primeiro governo dela foi muito político e menos técnico, planejador e executor.

NM — Quando o senhor faz a separação do primeiro governo, é porque o segundo melhorou?

HEA — Eu acho que agora ela já teve outras preocupações que não tinha antes. Ela fez aquele encontro no Centro de Convenções, a Agenda do Crescimento, que não houve no primeiro mandato. Você não conversava com a governadora Wilma, não havia aquele encontro de lideranças todas numa mesma mesa.

NM — Em sua opinião, ela desceu no palanque?

HEA — Eu acho que ela viu a necessidade de refazer a estratégia e agora está conduzindo melhor os problemas que não são apenas acordos de médio e longo prazo. Vejo nesse começo esse ponto positivo, mas, para isso acontecer, temos que ir para a prática. Para isso acontecer, nós temos no PMDB instrumentos de ação política que podem favorecer esse momento.

NM — Henrique Eduardo Alves engavetou de vez o projeto de governar o Rio Grande do Norte?

HEA — Não, esse projeto está no sonho, no inconsciente de todo político governar o seu Estado. Eu já pensei muito mais nele em outro momento, com um vigor maior. De repente, o tempo vai passando, você vai amadurecendo mais e se jogando em outros projetos do ponto de vista nacional. Imaginar liderar a bancada do PMDB no meu décimo mandato, passei tanto tempo fazendo os líderes e isso de repente me deu uma visão nacional que está me atraindo muito. Talvez tenha ficado para segundo plano esse projeto de governar o Rio Grande do Norte a curto prazo. Talvez haja uma necessidade de renovação de quadro, eu acho que nós devemos estimular esse processo, mas nada que se fecha a porta é definitivamente porque governar o Estado honraria a Henrique e qualquer um que não tenha tido oportunidade de fazê-lo.

NM — Esse sonho pode ser renovado em 2010?

HEA — Quem sabe? Eu não fecho as portas para isso, pois quem não gostaria de governar o seu Estado? Mas já tive um ímpeto maior, um sonho mais aguerrido. Hoje, não sei se o envolvimento que estou tendo lá em cima, está desviando um pouco até minhas ambições pessoais.

NM — Mas até 2010 ainda resta fôlego, não é?

HEA — Pode ser.

NM — E se o cavalo passar selado, o senhor monta?

HEA — Aí quem pode falar é a minha mulher, que tem um haras. Eu estou até aprendendo a andar de cavalo, pode ser que daqui até lá eu consiga aprender com ela a cuidar melhor de cavalos (risos). Mas não é só montar, é saber quem chega ao final, se consegue apoiadores, tem que ouvir o povo do Rio Grande do Norte. Hoje em dia, não se improvisa candidatura ao governo, isso acontece de forma natural e hoje o Estado vive lideranças novas, segmentos novos. Eu acho que esse candidato vai surgir, eu defendo a candidatura do PMDB também, sob uma conjugação de fatores políticos importantes.

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