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Entrevistas
Entrevista realizada em 15/12/2007

Júnior Souto: "Precisamos rediscutir a aliança do PT com o PSB"

O ex-deputado disputa a presidência do diretório estadual do PT neste domingo, contra o atual presidente, Geraldo Pinto.
Fotos: Vlademir Alexandre
Júnior Souto: "Muita gente do PT foi para postos importantes sem saber o que se passa na realidade"
Primeiro deputado estadual eleito pelo PT no Rio Grande do Norte, o areia-branquense Júnior Souto volta a enfrentar um novo teste das urnas neste domingo. Desta vez, internamente, como candidato a presidente do diretório estadual da legenda. Ele enfrenta o atual presidente, Geraldo Pinto, o "Geraldão", no segundo turno do Processo de Eleição Direta (PED) do partido, no Rio Grande do Norte.

Nesta entrevista, Júnior Souto antecipa alguns dos planos que pretende implementar se for vitorioso na eleição partidária. Fala, ainda, como tenciona conduzir o PT nas eleições municipais de 2008. E sobre o desafio de levar a sigla à vitória eleitoral na capital, perseguida desde 1996.

Natural de Areia Branca, foi por Mossoró que Júnior Souto iniciou sua militância política, ainda na década de 70. Em 1980, ele veio para Natal, onde morou na Casa do Estudante, até que, em 1984, filiou-se ao PT. Seis anos depois, em 1990, conquistou o primeiro mandato do PT potiguar na Assembléia Legislativa. Confira abaixo a entrevista com o ex-deputado estadual, cuja candidatura conta com o apoio da deputada federal Fátima Bezerra.

Nota da Redação: A proposta do portal Nominuto.com era ouvir os dois candidatos à presidência do diretório estadual. Para isso, marcou entrevista também com o atual presidente do diretório, o sindicalista Geraldo Pinto, o "Geraldão", postulante à recondução do posto. O objetivo era levar ao conhecimento do público as idéias e opiniões dos pretendentes ao comando do PT estadual, sobre temas de interesse coletivo e do partido.

Em contato direto com a reportagem, Geraldão chegou a marcar a entrevista por duas vezes, na sede do diretório estadual. A primeira para quarta-feira e a segunda para sexta-feira. Em ambas, ele descumpriu o compromisso. Não fez nenhuma tentativa de remarcar a conversa, nem tampouco apresentou uma justificativa. Simplesmente não compareceu à sede do PT nos dias e horários marcados. Nem foi localizado pela equipe do portal e pelas secretárias do partido, nas duas ocasiões.

A reportagem do Nominuto.com lamenta a atitude do atual presidente do PT no Rio Grande do Norte e manifesta sua torcida para que ele, se reconduzido à função, não dispense aos acordos que vier a firmar em nome da legenda o mesmo nível de comprometimento demonstrado em relação às entrevistas que marca.

Nominuto – Quais são os principais desafios a serem enfrentados pelo PT do Rio Grande do Norte?

Júnior Souto – A agenda dos novos dirigentes do PT está relacionada com a agenda nacional do partido e ela aponta para a necessidade de reorganização, de retomada de diálogo com os movimentos sociais, de reorganização das instâncias partidárias. No caso do Rio Grande do Norte, muito especificamente, uma questão que nos desafia fortemente é a necessidade de interiorizar o partido. O governo Lula tem uma forte inserção nas pequenas e médias cidades e o PT do Rio Grande do Norte não está devidamente estruturado nessa questão. Precisamos estabelecer algumas prioridades na organização dos setoriais. O PT do Rio Grande do Norte surgiu dos trabalhadores rurais e não temos um setorial que possa organizar nossa militância para intervir nessa área. Essa é uma das prioridades para o primeiro semestre de 2008: criar setoriais rurais e da educação. Temos que priorizar uma ação efetiva em relação à juventude, para isso devemos realizar durante o segundo semestre de 2008 um congresso nacional de juventude que será precedido de encontros regionais, encontros estaduais e precisamos ter uma presença ativa junto aos companheiros que vão disputar 2008. Nós temos candidaturas e o PT tem a expectativa de que vai sair maior e o nosso desejo é dobrar nossa representação no interior eleger uma bancada de vereadores com a qual a gente possa interar e potencializar nossos mandatos. Há muito o que fazer, a gente acha que um elemento que baliza essas demandas é a necessidade de autonomia do PT com relação aos aliados e ao próprio governo Lula. A gente acha que o PT precisa fazer mais e melhor a defesa do governo, no entanto, precisa fazer afirmações de sua autonomia. Além disso, precisamos avaliar a nossa presença no governo do PSB e rediscutir essa aliança, porque o PT fez uma escolha acertada quando apoiou a governadora e a elegeu, construindo um bloco de forças. Isso é importante para o PT, mas nossa Secretaria de Saúde não tem autonomia com problemas financeiros e na Fundação José Augusto temos déficits orçamentário.

NM – Por que votar em Júnior Souto?

JS – Os companheiros que construíram essa candidatura o fizeram porque tem conhecimento de que nós representamos um conjunto de idéias em busca da renovação do PT. Queremos restituir o PT em sua dinâmica de construção, resgatando os valores da democracia, da decisão coletiva, da valorização da militância. Na oposição, uma visão elitista ao longo desses cinco anos nos tirou a oportunidade de fazer as grandes discussões. Até setembro recente, nós ficamos com um período de quase cinco anos sem Congresso. Temos que nos inserir nos debates nacionais e estimular uma militância participativa. A mídia tem influência significativa nesse processo político, mas um partido como o PT precisa ter a sua militância ativa. Dentre os problemas que tivemos recentemente, um deles foi o afastamento da militância com a direção, o que permitiu que alguns tomassem para si a responsabilidade, dada a presunção e em muitos casos, a arrogância, a tomar decisões em nosso nome, quando não foi combinado conosco. Queremos influir nas eleições de 2010, queremos influir na sucessão de Lula para que esse assunto não fique centrado em São Paulo, Rio e Minas e influir em tantas outras. Precisamos construir um código de ética que deve definir a conduta dos nossos dirigentes partidários. Essas são algumas das idéias das quais pretendemos aplicar dirigindo o PT a partir de 2008.

NM – Qual será a posição do PT na eleição de Natal em 2008? Terá candidatura própria ou pode apoiar um partido aliado?

JS – A decisão do PT em Natal é um assunto de competência do diretório municipal e esse diretório já tem um candidato apresentado, que é o deputado estadual Fernando Mineiro. Há a cogitação de outras candidaturas, como a deputada federal Fátima Bezerra, que tem afirmado claramente que só define sua posição a partir de março, e tem algumas outras vozes menos influentes, como (o secretário estadual de Assuntos Institucionais) Ruy Pereira. Estamos dentro desse cenário onde há formalmente um candidato e esse é um assunto que vai ser decidido pelo diretório municipal referenciado nas decisões nacionais. O PT tem um leque de alianças e é dentro dele que temos que buscar apoio, exceto com o DEM e o PSDB, o PT tem toda autonomia para estabelecer as negociações do ponto de vista da disputa eleitoral de 2008 em Natal.

NM – A eleição para o diretório estadual é também uma medição de forças entre a deputada federal Fátima Bezerra e o deputado estadual Fernando Mineiro?

JS – Infelizmente, há quem entenda assim. Há a tentativa de fazer essa disputa do PT uma disputa entre os parlamentares, mas eu considero que ambos representam um grande patrimônio para o PT e eu fico entre aqueles que se esforçam para que esse tipo de compreensão não seja estabelecido. Nós temos processos internos no PT, temos, mas para organizar o partido. Não vejo porque transformar essa disputa em disputa de nomes, isso seria empobrecer o processo político eleitoral no PT. Farei todo o esforço para convencer aqueles que possam considerar desse modo de que essa disputa não é real. Tanto é que os resultados do primeiro turno indicam isso: eu tive uma votação melhor do que a da minha chapa, enquanto Geraldão teve uma votação maior do que a minha, mas menor do que a da sua chapa. Eu não considero isso uma disputa de mandatos.

NM – Se Mineiro e Fátima forem os pré-candidatos do PT na disputa da Prefeitura de Natal, como vai ser a escolha? O partido vai chegar a um consenso ou haverá uma prévia?

JS – Eu considero muito bom se nós pudéssemos construir soluções consensuais, mas se isso não for possível, nós teremos prévia dentro do partido. Isso é regimental. Eu acho que fortalece muito quando a gente alcança um amplo consenso partidário. Mas se não, há uma probabilidade que a disputa da prévia provoque ranhuras ou seqüelas que sejam ruins para o processo eleitoral. Espero que não aconteça isso. Eu desejo que nós sejamos capazes de mobilizar os colegas a um cenário favorável ao PT. Seria bom que nós chegássemos numa compreensão que fosse positiva. Mas se não houver, temos que fazer outro movimento. Defendo também que a disputa eventual seja feita com base nos programas, onde os candidatos possam apresentar as suas convicções do que seria a prioridade do programa do governo e que isso seja a base dos nossos filiados.

NM – Algumas lideranças do PT já declararam que vão buscar o apoio dos aliados, como o PSB. Se o partido da governadora não apoiar o PT na eleição de 2008, o partido vai fazer oposição ao Governo do Estado?

JS – A gente não pode resolver a relação política com o PSB estadual se baseando apenas em Natal. Essa é uma aliança de âmbito estadual e ela deve ser pensada assim. Naturalmente, Natal tem relevância política que repercute em eventuais disputas, mas esse é um cenário aberto que precisamos discutir. O PT tem candidato, o PSB tem candidato, a (deputada estadual) Micarla de Sousa é candidatíssima, o (deputado estadual) Luiz Almir é candidatíssimo e são todos da base da governadora. Isso vai ser discutido oportunamente. Não acredito que a gente precise antecipar comentários em relação a essas questões porque o cenário está em aberto. Na medida em que o PMDB integrou a base aliada recentemente, isso colocou um cenário de negociações que gera tensões e possibilidades. Nós temos que trabalhar com todas elas e convocar a militância para discutir em torno disso.

NM – Tem se falado muito numa posição isenta da governadora. O senhor acredita que isso seja possível?

JS – O PT não tem uma posição formal sobre essa questão. Eu considero que, se houver isenção ou envolvimento direto dela na campanha, isso tem vantagens e desvantagens. O que ela deve se preservar é do uso da estrutura da máquina do governo em favor da candidatura que seja do seu partido, porque isso iria produzir tensões difíceis de acomodar com seus aliados. A opção política dela pode acontecer, mas tudo tem conseqüências. O que nós esperamos é o que o PT tenha condições de operar num cenário favorável.

NM – O PT em Natal é forte, mas no interior é quase inexpressivo. Qual a sua proposta para mudar esse quadro?

JS – É preciso que a nova direção do PT esteja atrelada com companheiros que estejam dispostos a abrir mão de comportabilidade, de sua vida privada, para se lançar nesses dois anos pelo PT efetivamente. Nós precisamos interiorizar o PT, estamos fazendo um esforço nesse processo. Os companheiros do interior precisam ter proximidade e lutar por um PT presente. Vamos combater a ausência do PT no interior e reforçar os nossos parlamentares. Também precisamos reforçar com a militância a importância da participação financeira, pois a militância tem uma imagem muito distorcida de que o partido é rico por ser o partido do presidente, quando na verdade temos muitos problemas.

NM – Depois de sucessivos escândalos como o Mensalão e o caso Waldomiro Diniz, a imagem do PT ficou desgastada no país. O que pode ser feito para que a imagem de um partido sério possa ser resgatada?

JS – Nós temos como tarefa para 2008 elaborar um código de ética. Isso é importante, mas é insuficiente. Nós precisamos de um partido que tenha vida ativa da militância, pois se houvesse um processo de discussão onde todos interagem, parte dos problemas que aconteceram em 2005 não aconteceria porque os indivíduos protagonistas teriam compromisso com os militantes. Muita gente do PT foi para postos importantes sem saber o que se passa na realidade brasileira, sobre o próprio partido e atuou de forma bastante preocupante. O PT tem uma reserva moral e aquele acidente envolveu somas vultosas de algumas dezenas. O fato é que nós precisamos ter aspectos normativos e, além disso, precisamos contribuir para a alteração do código penal e mais um conjunto de ações. É preciso que o PT se autonomize, resgate o empenho com os movimentos sociais e tenha critérios mais rigorosos em relação às filiações.

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