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Enviada em 12/10/2008 às 14h31min

Flávio Tinoco: ele respira esporte

A ligação com o mundo dos esportes teve início ainda cedo no colégio Atheneu, sob a responsabilidade do professor Egídio.
Vlademir Alexandre
A identificação com o esporte rendeu uma das mais bem sucedidas parcerias entre atleta e modalidade.
Impulsionado para o esporte através da ginástica olímpica, Flávio Tinoco, 46, iniciou sua forte ligação com o mundo dos esportes ainda cedo no colégio Atheneu, sob a responsabilidade do professor Egídio. Não sonhava em se tornar um ícone do handebol do RN. Na época, Flávio lembrou das dificuldades em vingar no esporte dado o alto custo da prática da atividade. Os pais dos alunos arcavam com os materiais como colchões e equipamentos que provessem a estrutura básica. 

Diante das dificuldades financeiras da própria instituição, o professor Egídio encerrou as atividades no colégio, mas antes encaminhou alguns atletas para outras modalidades como a natação, o voleibol, basquete e futebol. Flávio acabou sendo indicado para uma "pelada" de handebol, onde se destacou com um dos melhores atletas. A identificação com o esporte rendeu uma das mais bem sucedidas parcerias entre atleta e modalidade.
 
Como atleta jogou pelos principais clubes da capital onde conquistou títulos em disputas escolares e estaduais. O ponto alto da carreira como desportista foi a convocação para a seleção norte-rio-grandense de handebol, onde desempenhou uma carreira vitoriosa. Após a aposentadoria no esporte, desvinculou sua vida das quadras e passou a trabalhar em um banco, até que em 1980, o esporte lhe fez um novo “chamado” e tudo mudou novamente. 

Atendendo ao pedido de um amigo, professor do colégio Sagrada Família, aceitou o desafio de levar a equipe masculina da instituição aos primeiros lugares no handebol. Com o treinamento desenvolvido no grupo, conseguiu ajudar o time a conquistar o campeonato dos Jogos Estudantis do Rio Grande do Norte, o JERNs. Após um ano, um novo convite, dessa vez para assumir a equipe feminina do mesmo colégio. 

Ocupando a última colocação entre os 16 times de Natal, Flávio continuou o trabalho que começou no masculino e novamente deu uma boa contribuição melhorando o nível técnico das garotas. Após 29 anos, levou a escola ao ponto mais alto do handebol. Ao todo, conquistou 90 títulos nos JERNs, chegou a 18 finais de campeonatos nacionais e se tornou o único professor a se tornar campeão nos Jogos Estudantis Brasileiros (JEBs) nas equipes de 12-14 anos e de 15-17, dirigindo o pelo Sagrada Família. 

Com as freqüentes conquistas, Flávio lembra dos comentários de alguns treinadores das regiões Sul e Sudeste, surpresos comos bons resultados das equipes comandadas por ele. "Eles se perguntavam como podia um treinador de um pequeno estado como é o nosso, trabalhando em um colégio com pouco mais de 500 alunos, chegar em competições nacionais e conseguir superar a equipe deles", lembra. 

O treinador ressalta que em muitos casos, treina times sem condições financeiras e os leva à finais de campeonatos contra equipes que recebem até R$ 180 mil anuais. Outra diferença explicada pelo treinador é a estrutura de muitos clubes do eixo Sul-Sudeste do país. "Muitos clubes investem pesado na contratação de atletas até mesmo fora do estado deles.Todos são pagos para jogar. Essa é uma grande diferença", destaca. 

Demonstrando os resultados dentro de quadra, o professor colecionou importantes títulos ganhando campeonatos em todas as instâncias em nível escolar, de clubes, universitário e de seleções. Com o trabalho, os resultados ultrapassaram as barreiras do Rio Grande do Norte quando o professor levou títulos de campeonatos em nível de região Nordeste e Brasileiro. A fama de conseguir sempre bons resultados atuando pelos clubes e escolas por onde passou rendeu um convite para técnico da Seleção Brasileira. 

Pensando no futuro à frente da seleção, o treinador traça planos até 2010 com o grupo, pensando na Olimpíada Juvenil que será disputada naquele ano. Em tempo, Flávio comemora a recente conquista do bicampeonato Pan-Americano na cidade de Blumenal, Santa Catarina.. Ainda no comando do Brasil, o técnico conquistou o mundialito realizado na França e está novamente cotado para comandar a seleção em um novo evento que será disputado na Turquia. 

Mediante o sucesso, Flávio critica a situação complicada vivida pelo esporte no Estado. Ele ressalta o abandono pelo qual passa o esporte amador no RN e lembra o caso em que deixou de defender um Campeonato Brasileiro por falta de incentivo. "Aconteceu de precisarmos de um ônibus para viajar com o grupo e nos foi negado. Eu tirei do próprio bolso gastos como a alimentação da equipe, por exemplo. Para tentar disputar o Brasileiro no Mato Grosso, fomos para a rua pedir dinheiro, vender coco e rifar produtos, tudo isso para defender o Estado", lamenta. 

O professor lembra que algumas vezes chegou a desanimar frente às dificuldades impostas ao esporte no Rio Grande do Norte. Se padece muito quando o assunto é a verba para jogar campeonatos fora. "Nós fazemos muito pelo estado e não recebemos sequer os parabéns pelas conquistas. Lembro que até para ir competir na Paraíba tive que dirigir meu carro levando algumas atletas e meu irmão com outras, no automóvel dele", lembra. 

Apesar dos problemas, o currículo de Flávio é repleto de conquistas importantes, todas registradas no livre anual da Confederação Brasileira de Handebol, CBH. No registro estão entre outras, o 1º lugar no ranking nacional de seleções, 1º lugar no Campeonato Pan-americano cadete feminino no Paraná, 1º lugar no Mundialito na França, 1º lugar do ranking nacional de clubes com a AABB, além de conquistas em Natal, como em 2007, ano em que ganhou três JERNs.


* Matéria publicada no jornal Nasemana - Edição 28 - De 4 a 10 de outubro


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