Fotos: Vlademir Alexandre
Rubens Menezes é professor em uma escola de Natal. Bacharel em direito, passa a maior parte do dia dando aula de... basquete. É que o técnico fez uma escolha há 16 anos. Respirar, jogar e ensinar o esporte dos garrafões a alunos de todas as idades.
Filho de pai militar, Rubens foi transferido com a família aos cinco anos do Rio de Janeiro para Natal. Aos oito anos começou a treinar na AABB onde ficou até os 10 anos. Em seguida, fez uma tour por outras modalidades esportivas.
Aos 14 anos, retornou ao basquete, dessa vez, de forma efetiva. No colégio, foi estudar no no Objetivo e o professor o convidou para treinar. Com dois meses de dedicação, conseguiu vaga na seleção do Rio de Grande de Basquete, na época era o aluno mais novo com apenas 15 anos.

E a partir daí não parou mais. Treinava no colégio, era atleta da AABB, instituição na qual tinha vagas na categoria juvenil, infanto-juvenil e adulto, além de jogar pela seleção norte-rio-grandense. “Toda semana treinava de segunda a sábado, mas em pelo menos dois dias coincidia de ter os três treinos”, falou.
Dentro do basquete, participou dos Jogos Escolares do Rio Grande do Norte, Campeonatos Brasileiros e passou, a convite, dois meses no ciclo militar, no Ceará, que na época era dirigido pelo professor Campainha.
“Na época, os resultados não eram tão expressivos porque a disparidade entre Nordeste e o sudeste era muito grande e tínhamos dificuldade de conseguir bons resultados. Porém, sempre conseguimos brigar com seleções vizinhas como a de Pernambuco, Alagoas e Bahia”, revelou.

Precocemente com 20 anos, teve a primeira participação como técnico em uma competição em Maceió. Perguntado se era melhor como atleta ou como treinador, Rubens disfarçou com um sorriso e soltou “ai fica para quem viu. Eu sempre procurei aprender muito tanto como jogador, como com os técnicos. Sempre tive humildade em aprender e trouxe isso para a carreira técnica”, frisou.
E quem foram os técnicos que mais influenciaram Rubens? “Eu tive dois treinadores que me ajudaram muito. Todos ajudaram, mas Paulo Cunha ensinou não só a mim como a muita gente. É muito preocupado com os fundamentos da modalidade, além de ser muito paciente. Já na parte técnica, Chico Martins era imbatível”, confessou.
Carreira
Rubens Menezes entrou no colégio CDF em 1999. No começo, disse que achou difícil trabalhar com jovens porque as opções dos estudantes hoje são várias como shoppings, lan houses, Internet, namoradas, cinema. “ O esporte acaba ficando 20º plano e se torna uma obrigação para eles, só para dar uma satisfação ao colégio. Mas aqui temos uma particularidade que sempre foi formar equipes com atletas compromissados”, destacou.

“Claro que o esporte não deve estar em primeiro plano dos meninos. Nem deve. Em primeiro lugar priorizamos os estudos. Mas, conseguimos fazer com que o esporte fique em segundo, terceiro plano deles. Não é fácil dizer aos garotos que aqui não é só recreação e que ele vão ter que treinar durante as férias”, completou.
Basquete e patrocínioPerguntado sobre o ranqueamento do Rio Grande do Norte dentro do basquete, o professor explicou que o RN é um dos estados com o maior número de praticantes e que ao longo das competições conseguem boas colocações, em especial em nível escolar.
“Quando aumentamos isso para Federação, já é mais complicado porque o profissionalismo é maior. É aquela questão da falta de incentivo. Isso existe para todo mundo e é preciso tirar o proveito do pouco que se consegue”, definiu.
“Se tivéssemos mais um pouco de estrutura, talvez conseguíssemos melhores resultados. Na última Liga Universitária disputada, perdemos para São Paulo e Rio de Janeiro, os principais pólos do basquete no Brasil”, comparou.
Violência nas escolasQuando perguntado se os casos de violência registrados em salas de aula conseguem ultrapassar os limites e chegar às quadras, o professor disse que “vez por outra passa”. Ele revelou que atualmente os professores correm um risco grande, mesmo que as cobranças sejam para o bem do aluno.

“Uma das coisas que aprendi com Chico Martins foi a ter respeito por quem está no comando. Hoje, eu cobro muita disciplina, às vezes com muito, pouco ou moderado rigor. Mas é preciso que você saiba cobrar. Tem que ganhar a confiança dele, depois ele vai entender que você quer aquilo para o bem dele. Nunca tive problema de chegar às vias de fato com um aluno nos meus 16 anos e profissão”, disse.
“Eu corto seu pescoço”Na ocasião de um jogo em Mossoró da Seleção do Rio Grande do Norte contra o Sergipe, “no auge do meu treinamento físico com 18 anos de idade”, Rubens lembrou que errou uma enterrada e foi colocado para o banco de reservas, como sempre acontecia quando se tratava de Chico Martins no comando.
“Dois minutos depois ele me chamou e disse: ‘ você vai voltar lá e vai acertar a enterrada. Se você errar, eu corto seu pescoço’”, disse.
Na primeira oportunidade que teve, recebeu a bola e cravou os pontos. “Quando acabou o jogo Chico Martins chegou pra mim e soltou: ‘ainda bem que você marcou senão eu ia cortar sua cabeça mesmo’. Ele disse isso e saiu rindo. Apesar de baixinho e gordinho, ele não tinha medo dos grandalhões”, lembrou.