Carlos Paz de Araújo: inventor e empresário

O natalense, radicado nos Estados Unidos, é hoje um dos mais importantes cientistas brasileiros e o primeiro a ganhar um Daniel E. Noble.

Karla Larissa e Luana Ferreira,
Fotos: Vlademir Alexandre
Diferente da ideia que se tem de cientista, Carlos Paz de Araújo é cientista, empreendedor e católico praticante. Natalense, radicado nos Estados Unidos, é hoje um dos maiores cientistas brasileiros da atualidade, o primeiro a ganhar um Daniel E. Noble, prêmio similar ao Nobel.

Autodefinido como teimoso, é dono de quase 400 patentes em todo o mundo. Inventos que vão desde chips a biodiesel. Mais conhecido pela comunidade científica internacional que a nacional, esta semana esteve em Natal para, pela primeira vez, ministrar uma palestra na cidade, já que antes nunca tinha sido convidado.

Com sotaque genuinamente potiguar, apesar de morar há 39 anos nos Estados Unidos, Paz falou ao Nasemana. Simpático, contou como foi estudar nos EUA e se tornar um cientista empreendedor. Na entrevista, ele criticou a forma como funciona a Universidade no Brasil e a política de patente nacional. O engenheiro falou ainda sobre seus inventos e os investimentos que sua empresa está fazendo no Brasil. E concluiu a conversa dando sua opinião sobre ciência e religião.

Nasemana-O senhor é natalense, filho de comerciante e até onde se sabe teve uma infância e adolescência comum, com exceção dos problemas causados pela asma. Quando nasceu o Carlos Paz cientista?
Carlos Paz -
Essa é uma boa pergunta. Eu acho que com 13, 14 anos, quando eu estudava no Marista, eu queria estudar a área de ciência. O Marista tinha uma biblioteca muito boa, e eu lia muito uma revista francesa "Science et vie". Eu não era um bom estudante de matemática, nunca consegui aprender matemática em português, só vim aprender em inglês. Não sei por que.



Nasemana - Aos 17 anos, o senhor foi estudar nos Estados Unidos, através de um programa de intercâmbio, e acabou ficando no país, onde vive até hoje...
CP-
Não, eu voltei. Eu fui no fim do 1º ano científico, passei seis meses, voltei e terminei o 2º ano científico, no CPU e comecei o 3º. Mas a família americana mandou me chamar para fazer faculdade. Eu fui, terminei o científico e entrei na faculdade.

Nasemana - O senhor acha que se tivesse ficado em Natal sua trajetória teria sido outra?
CP-
Não. Impossível. Porque na época aqui não existia nada. Quando eu saí do Brasil haviam 70 milhões de brasileiros, hoje são 190 milhões. Na época não existia muitas chances para o jovem. Nem existia engenharia elétrica na universidade, tinha só engenharia de potência, para prédio, construção. E eu queria fazer engenharia elétrica ou física. Mas eu sempre preferi a parte aplicada, então escolhi elétrica. Naquela época, a gente tinha uma visão do mundo completamente diferente. Hoje, o Brasil está muito parecido com os Estados Unidos. Para se ter uma ideia, naquela época, já existia em Chicago um dos maiores shoppings centers do mundo, que hoje ainda é. Quer dizer, há trinta anos, o que hoje aqui é novidade já existia lá. Então, o ambiente já era bem diferente. E na universidade, eu gostava muito de estudar. Ela me deu todo o apoio. E é uma universidade muito famosa, então tinha tudo.



Nasemana - O senhor falou que hoje o Brasil está muito parecido com os Estados Unidos. E hoje um estudante, para ser um cientista de ponta, ele pode continuar aqui em Natal, no Brasil?
CP-
Se for fazer até o mestrado aqui, você se sai bem. Eu faria o doutorado fora do país, eu não faria nem no Brasil ainda. Não é uma questão de que não tenha gente boa. Lá em São Paulo tem, mas não é só a escola, é o ambiente, quem está fazendo o que e por quê. Aqui o acadêmico ainda está muito longe da indústria, então ele não é uma fonte de desenvolvimento para uma sociedade. É mais um custo.

Nasemana- Além de cientista, o senhor é um empreendedor, o que é raro entre os pesquisadores brasileiros. O empreendedorismo é uma qualidade inata sua ou o senhor aprendeu a partir do contato com os americanos? Como é que surgiu essa qualidade?
CP-
Acho que foi uma coisa nata, de ser nordestino, brasileiro, filho de comerciante. Depois que eu me formei, geralmente dava aula a pessoas mais velhas, assim para fazer mestrado, PhD, e às vezes fechava uma fábrica e a gente via essas pessoas sem emprego. Então eu pensei: vamos fazer uma engenharia que crie emprego. Daí começou toda uma maneira de pensar, de traduzir a química e a física para a engenharia. E chips é uma área ótima para isso, porque é uma área muito complicada, precisa de muita química, muita física, e então, entrei nessa área. Mas essa ideia de ser empreendedor, ela foi nova até nos Estados Unidos.

Uma vez eu dei uma palestra no Japão sobre como os professores deveriam criar emprego. Mas essa coisa não pode ser exagerada também, porque às vezes o professor fica tão empreendedor que deixa de ser professor. É necessário essa transferência de know-how da universidade para a área empreendedora e também vice versa. O mais importante que eu notei é que a universidade é uma fonte de saber, mas o conhecimento é uma coisa muito higienizada. Muitas vezes, quando o empreender tem uma boa ideia e vai à universidade para trabalhar com ela, se cria mais coisa do que ao contrário. Tem muitas pesquisas de universidade que fazem patentes, mas o professor é tão ingênuo que faz uma patente que não serve para nada.



Nasemana- No Brasil existe uma espécie de pudor dos cientistas em ganhar dinheiro com o que produzem dentro dos laboratórios. O senhor concorda com isso? Acha que essa postura atrapalha o desenvolvimento científico e econômico do país?
CP-
É, mas essa é uma doença generalizada, não é só no Brasil não, é no mundo inteiro. Por exemplo, na melhor universidade chinesa, um país comunista, somente 40% dos recursos dela são do governo, 60% são de pesquisas internacionais. Quer dizer, até em um país comunista eles estão vendo o valor de criar coisas que têm valor para a sociedade. O valor da universidade na primeira fase dela é indireto, você não sabe para que vai servir aquilo, mas nós estamos em um momento histórico no mundo inteiro em que a gente tem que criar novas oportunidades de empregos e novos sistemas econômicos.

Nasemana - O senhor é o cientista brasileiro com mais patentes registradas, são 380 em todo o mundo. E no Brasil, muitos pesquisadores perdem os direitos sobre seus inventos para cientistas de outros países. A que o senhor atribui isto?
CP-
Porque o processo de patente não existia no Brasil de maneira coerente e ele é complicado no mundo inteiro. Agora é que está começando a ver um algoritmo de como conseguir uma patente, mas ainda é muito vagaroso o sistema. No Brasil, a estratégia de patente é não receber a patente, porque é um processo dez anos, depois vinte, e ninguém pode entrar, porque se entrar você pega, aí termina dando certo. Mas se for por via internacional, você pega a patente. Então no Brasil, nós temos um sistema que não funciona para o resto do mundo. Se no resto do mundo você tem uma patente dentro de um ano, aqui leva dez.

Nasemana - O senhor fundou a sua empresa, a Symetrix Corporation, em 1986, com recursos do Small Business Innovation Research (SBIR), programa norte-americano de apoio às pequenas empresas inovadoras. O senhor acha que faltam programas como esse para que os cientistas brasileiros se tornem empreendedores também?
CP-
Não, eu acho que tem muita coisa no Brasil já até mais que nos outros países. O que eu tenho entendido é que às vezes sobra dinheiro oferecido em editais porque ninguém apresenta nenhum projeto. Acho que está faltando ideia. Tem muita gente com PhD que não passa de um idiota. Eles têm umas ideias malucas que não vão dar certo para coisa nenhuma. Tem que ter uma visão comercial.

Nasemana - Agora vamos falar de seus inventos. Um dos mais importantes é a memória de acesso aleatória ferroelétrica que permite a construção de memórias eletrônicas que não necessitam de nenhum tipo de energia para funcionar. Por favor, explique como funciona e como a memória poderá ser útil.
CP-
Por exemplo, um CD é uma memória não volátil, você grava e ela segura tudo. O pendrive tem memória não volátil também, só que com chip. Dentro do pendrive, se você olhar tem vários chips. Ele grava e não precisa de eletricidade, ele segura. Então isso é uma memória não-volátil porque as que se usam no computador normalmente são voláteis. Então se você ficar sem eletricidade, desligar, você perde tudo. As memórias que existem são não voláteis, elas se autodestroem. Em um pendrive, por exemplo, você só pode escrever nela 100 mil vezes, 10 elevado a 5. A memória ferroelétrica escreve 10 elevado a 15, então é 10 bilhões de vezes mais. Então, ela pode ser usada como se fosse uma memória generalizada. Com relação à velocidade, você escreve a informação na memória ferroelétrica - vamos dizer 60 nanossegundos - a do pendrive é mais ou menos mil vezes mais lenta. Então se tem uma memória que escreva rápido e seja não-volátil, no mercado existem várias aplicações, como cartão de crédito, até no DVD, eu não sei nem todas as aplicações que estão usando. O que acontece é o seguinte: a própria memória ferroelétrica só vai até uma capacidade, a próxima capacidade tem que ser outro tipo de memória. O próximo desafio é eliminar o harddrive do computador. Seria um computador que não teria nem uma parte móvel, só que essa memória eu acabei de inventar agora. É uma memória que eu chamo de CERAN. Nós estamos começando a negociar com as firmas para começar a sua fabricação.

Nasemana-Como é o processo de criação dos seus inventos? Depois de tantas patentes, o senhor já pode traçar um passo-a-passo da criação?
CP-
Eu sou interessado em tudo: arte, literatura, filmes, o que você imaginar. Então, sempre tem alguma coisa para você criar. Mas eu aprendi logo cedo a não sair muito da área de materiais, que é a parte mais apaixonante e que tem muita matemática. Esse material da memória é perfeito para ser sensor de infravermelho, então nós fizemos toda a teoria e criamos um chip que vê no escuro, sem usar nitrogênio líquido para esfriar. O próximo capacete de soldado tem um chipzinho que puxa uns óculos e vê tudo no escuro. Vou saindo de uma área para outra, vendo as coisas que eu acho mais interessante. A área que estou investindo agora é a da energia.
Eu faço uma pesquisa de quem já fez e procuro onde é que o cara esqueceu de fazer certo, e modifico. Começo a trabalhar aí. Geralmente tudo que eu faço é por teimosia. Quando todo mundo tentou e não conseguiu executar, aí é que dá mais vontade de fazer. Por exemplo, essa memória a IBM tentou três vezes fazer e não conseguiu, aí eu fui e fiz.



Nasemana-Em qual projeto o senhor está empenhado nesse momento?
CP-
Tem essa memória CERAN que está começando a sair, já está entrando na fábrica. Essa memória é muito interessante. E tem uma célula solar, de fotovoltagem, que é uma célula que tira eletricidade do sol de maneira mais barata. Geralmente, as células solares usam lâmina de silício, que são muito caras. Eu vou fazer no vidro. Estou começando agora a fazer um novo tipo de refrigeração, usando película fina, que substitui o compressor, para ver se elimina o compressor em automóvel, porque aí não usa gasolina, só bateria. Você usaria o ar-condicionado sem gastar gasolina e eliminaria 20% do gasto. E tem uma área que estou começando agora que é um biodiesel de uma planta que só nasce na seca. É um projeto que eu gosto muito e no qual coloquei meu filho para trabalhar. Estamos usando a engenharia genética para fazer uma planta, que não seja como a cana, que tira a terra boa todinha. A cana-de-açúcar é boa para alimento, mas para fazer combustível sai muito caro.

Nasemana- Vocês vão criar a planta também?
CP-
Nós estamos modificando a planta. Ela já existe, nasce no deserto dos Estados Unidos. Mas tem a planta e também uma bactéria. Para fazer álcool, a fermentação tem que ter umas enzimas e é muito caro. Então essa bactéria come a planta e automaticamente faz a fermentação.

Nasemana-No ano passado, a Symetrix Corporation, que tem sede no Colorado, EUA, anunciou a construção, que deve ser iniciada no próximo mês de julho, da primeira fábrica de semicondutores ferroelétricos da América Latina, em São Carlos (SP). O que essa fábrica irá representar em termos de investimento e negócios para o país?
CP -
Eles conseguiram passar a documentação recentemente. Não é só minha fábrica, é um parque tecnológico enorme com mais de 10 milhões de metros quadrados. Uma coisa estúpida. No Brasil, para se fazer uma fábrica com tudo é muito dinheiro. A minha tecnologia elimina 90% do custo de um semicondutor. Ela muda todo um modelo. Enquanto muitas companhias vêm e dizem que não dá certo, a minha já começa viabilizando. A gente já começa exportando, estou fazendo ao mesmo tempo Brasil e China.



Nasemana-Depois de 30 anos fora do país, o senhor volta a colocar profissionalmente o Brasil na sua vida. O que significa essa volta para o senhor?
CP -
Dor de cabeça. Porque é muito complicado estar viajando o tempo todo. Mas é interessante demais porque o Brasil está em momento de explodir. Tem muita gente com PhD, muita gente desocupada, procurando uma coisa para fazer. Lá em São Carlos, por exemplo, até o prefeito tem PhD.

Nasemana-Há possibilidade de o Rio Grande do Norte também entrar nos planos da Symetrix ou em algum projeto pessoal seu?
CP -
Aqui no Rio Grande do Norte tem muita coisa acontecendo. Mas a gente não tem a tradição que São Paulo já tem. A globalização dá um senso meio ilusório, de que a gente chegou, que tem internet...mas isso aí não dá comida a ninguém, tem que ter fábrica, coisa para o povo fazer, e isso aí não se faz sem muito estudo. Você tem que ter gente capacitada, de alto nível. Não pode ser assim, eu fiz um curso de programação, agora sou PhD. Tem que ter muita física, muita química, muito entendimento nessa área.

Nasemana-O senhor é católico praticante. A religião de alguma forma interfere na sua atuação como cientista?
CP -
Não. Eu dependo de um milagre toda segunda-feira às 9 h da manhã. Não existe contradição entre ciência e religião. Minha opinião é que quando o cientista começa a falar que não tem Deus, não tem religião, é um péssimo cientista porque a ciência engana, ela não consegue saber de tudo. O maior cientista do mundo não sabe o que vai acontecer amanhã de manhã. Tudo o que está escrito nos livros depende de um modelo da realidade, que foi muito bem feito e é preciso demais. Einstein diz que "a religião sem ciência é cega e a ciência sem religião é aleijada". Essa é a grande verdade.

*Matéria publicada no jornal Nasemana - Edição 61 - de 30 de maio a 5 de junho de 2009
A+ A-