A universal Feira Livre do Alecrim

Desde 1930, o cruzamento das Avenidas Coronel Estevam com a Presidente Quaresma é tomado por feirantes.

Annapaula Freire,
Foto: Annapaula Freire
Na feira, visitante é agraciado com calor, caos, cores e mercadorias variadas.
Bem-vindo à Feira Livre do Alecrim! Aos sábados, uma multidão de comerciantes e consumidores, afoitos por ofertas, se encontram no cruzamento das Avenidas Coronel Estevam com a Presidente Quaresma. Nesse endereço fixo, o visitante é agraciado com calor, caos, cores, mercadorias variadas, preços em conta e, sobretudo, a vontade de trabalhar dos feirantes.

O Portal Nominuto.com continua a saga de traçar o perfil do bairro tradicional do Alecrim, através da exposição de suas peculiaridades tão notórias aos natalenses e turistas. Em outubro, o Alecrim completa um centenário de fundação.

Símbolo da efervescência comercial da localidade, a Feira Livre agrega um universo de quinquilharias (comestíveis ou não) para o consumo, seu horário oficial é de 6h às 15h dos sábados. Segundo o site da Secretaria Municipal de Serviços Urbanos (Semsur), a feira tem 836 bancas e 437 feirantes. Ainda de acordo com informações do site, Natal tem 22 feiras livres. Muitos feirantes da Feira Livre do Alecrim participam de outras feiras na cidade.

O ambiente no Alecrim é acobertado por tendas, o que ameniza o calor intenso dos sábados de sol. As condições insalubres dos corredores não transmitem tanta confiança aos consumidores de carnes, frutas e legumes. Todavia, a possibilidade de pechincha e a garantia de preços mais baratos, comparados aos supermercados, atraem fregueses de toda cidade.
Foto: Annapaula Freire
O ambiente é acobertado por tendas, o que ameniza o calor intenso dos sábados de sol.

O carisma dos vendedores e suas técnicas para fazer negócio são um espetáculo a parte. Há quem freqüente a feira desde seus primórdios. E aqueles que repassam a vocação comercial de geração em geração.

Mesmo com a desconfiança e a rejeição de alguns, a Feira Livre do Alecrim pode ser considerada um patrimônio cultural da capital potiguar.

Surgimento espontâneo

Dentro daquele macrocosmo, um mural se destaca na paisagem. Aos trancos e barracos, Elinaldo Medeiros divulga a literatura de cordel. Os temas e autores são variados, entretanto, ao preço de R$1, os cordéis que usam gracejos como inspiração são os mais vendidos.

Atendendo pelo pseudônimo de Boquinha de Mel, Elinaldo assina o cordel “A Feira do Alecrim homenageia seus heróis”. O cordel descreve a formação da feira livre. Segundo a narrativa, o paraibano José Francisco dos Santos, acompanhado de três amigos, realizaram a primeira edição da feira em 18 de julho de 1920. Inicialmente, o evento foi idealizado para acontecer nos domingos, logo o governo transferiu para os sábados.
Foto: Annapaula Freire
Aos trancos e barracos, Elinaldo Medeiros divulga a literatura de cordel.

A partir de 1930, a Prefeitura passou a cobrar impostos dos comerciantes ali fixados. Boquinha de Mel conta também que Luís Câmara Cascudo confirmou que José Francisco foi idealizador da Feira Livre do Alecrim. Em 12 de junho de 1958, uma placa de bronze no n° 1297 da atual Avenida Coronel Estevam atesta a realização da feira.

Público fiel e bons negócios
O odor por vezes é desagradável. Animais presos por cordas ou amontoados em pequenas gaiolas. Esse é o meio de subsistência de José Maria Vieira: a venda de animais vivos. Galinha, pato, bode, pavão, pomba, coelho, peru, porquinho da índia. Alguns vão para o abate, outros são vendidos para a criação. A mercadoria é comprada e municípios do interior (Santa Cruz e Nova Cruz).

Apesar de correr o risco de cruzar com um bode ou outro, a movimentação de clientes é intensa. Segundo José, a freguesia é fiel.
Foto: Annapaula Freire
O odor por vezes é desagradável. Animais presos por cordas ou amontoados em gaiolas.

O feirante, como muitos colegas, aprendeu o ofício do comércio com os pais. José chega às 16h da sextas e sai, impreterivelmente, às 16h do sábado.

Exemplo de amizade construída nas idas à feira, a feirante Delma Maria Lima e o aposentado David Lopes se encontram todos os sábados. Vendedora de mandioca e batata, Delma conta que o segredo para conquistar o freguês é o bom tratamento. “Eu chamo de paixão, meu amor, meu bem. As pessoas vem aqui, porque o preço é bom”, defende.

“Rainha da feira.” É assim que David chama carinhosamente a feirante. Morador das adjacências do local, o aposentado freqüenta a feira desde 1950. “Compro tudo que preciso aqui. Raramente vou ao supermercado”, diz. Conhecido como “vascaíno” pelos feirantes, David afirma que conquistou tanta intimidade com os vendedores, que tem o privilégio de comprar fiado.

Consenso entre vendedores e freqüentadores, as melhores condições para o funcionamento da feira são os pedidos mais freqüentes. A instalação de banheiros, de bancos e de mais tendas é sempre lembrada. Outro fator que vem preocupando também é a falta de segurança do local. “A prefeitura mandou tirar duas barracas há dois meses. Não prejudicou só a mim, mas um bocado de gente”, reclamou Delma.

Aos berros, Micarla Rocha de Sousa tenta vender tomate, cebola, batata, alho e pimenta. “Sou a prefeita da feira”, brinca com a homônima – a prefeita de Natal Micarla de Sousa. Apressada, ela responde rapidamente as perguntas da reportagem. “Amanhã é Feira da Esperança, depois Carrasco, a de Lagoa Nova e assim vai”, disse.
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