Gravidez na adolescência tem se tornado algo cada vez mais comum

Em 2007, a Maternidade Januário Cicco registrou 540 adolescentes grávidas, na faixa etária entre 10 e 20 anos.

Gabriela Duarte,
Divulgação
Adolescentes têm engravidado cada vez mais cedo.
Um dos filmes em exibição, atualmente, nos cinemas, tem retratado a vida de diversas adolescentes que são pegas de surpresa com uma gravidez inesperada.

O longa metragem conta a história da adolescente Juno, de 16 anos, que engravida de seu colega de classe Bleeker. Com a ajuda de sua melhor amiga, Leah, e o apoio de seus pais, Juno conhece um casal, Vanessa e Mark, que está disposto a adotar seu filho. 

Ficção misturada com vida real, a gravidez precoce está se tornando cada vez mais comum na sociedade contemporânea. O motivo? Os adolescentes estão iniciando a vida sexual mais cedo. 

Já não causa tanto espanto saber que meninas de 10, 11 ou 12 anos tenham vida sexual ativa, assim como aparecem em consultórios portando alguma doença sexualmente transmissível (DST) ou grávida.

De acordo com a responsável pelo atendimento a adolescentes da Maternidade Januário Cicco, a médica Estênia Lins, a maternidade registrou 540 atendimentos a adolescentes grávidas, na faixa etária entre 10 e 20 anos de idade. “Foram realizados 540 pré-natais e 600 atendimentos ginecológicos, o pós parto, totalizando 1.140 atendimentos a adolescentes”, explicou.

O que levaria as adolescentes a engravidar?

Nunca foi tão divulgado os meios para se evitar a gravidez, como nos dias atuais, e, mesmo assim, o número de adolescentes grávidas é cada vez maior.

Porém, existem vários fatores que contribuem com esse quadro: a falta de um projeto de orientação sexual nas escolas, família, comunidade de bairro, igrejas.

A mídia é outro vilão nessa questão, exagerando na erotização do corpo. Algumas pessoas, que são vistas nas passarelas, revistas, cinema e televisão são para os adolescentes verdadeiros ídolos. Ídolos esses que passam uma imagem de liberação sexual, e a tendência de um fã é sempre copiar o que seu ídolo faz. A falta de informação dos pais é outro fator fundamental.

A atividade sexual na adolescência vem se iniciando cada vez mais precocemente, com conseqüências indesejáveis imediatas, como o aumento da freqüência de doenças sexualmente transmissíveis (DST) nessa faixa etária; e gravidez, muitas vezes também indesejável e que, por isso, pode resultar em um aborto.

Quando a atividade sexual tem como resultante a gravidez, acaba gerando conseqüências tardias e a longo prazo, tanto para a adolescente quanto para o recém-nascido.

A adolescente poderá apresentar problemas de crescimento e desenvolvimento, emocionais e comportamentais, educacionais e de aprendizado, além de complicações na gravidez e problemas de parto. Há inclusive quem considere a gravidez na adolescência como complicação da atividade sexual.

Não se pode dizer que toda gravidez na adolescência é indesejada. Indesejadas são as que acontecem por abuso sexual ou por falha de métodos anticoncepcionais.

LSC, de 15 anos, está grávida de nove meses. Ela diz que sempre  sonhou em ser mãe, porém, quando descobriu que estava grávida, sua família não teve a reação que ela esperava.
 

“Minha mãe não aceitou, no início. Ela alegou que eu era muito nova, que precisava estudar, mas ser mãe, foi o que eu sempre sonhei. Agora, está tudo bem, meu marido também ficou muito feliz quando soube que ia ser pai”, contou.

A única queixa da adolescente é ter deixado de estudar. Ela abandonou os estudos no 7º ano do ensino fundamental, “mas assim que minha filha completar um ano, eu pretendo voltar a estudar; não podemos abandonar os estudos, ele é quem vai garantir o nosso futuro”, disse LSC.

“Minhas amigas dizem que sou muito nova para ser mãe, que eu ainda tinha muita coisa para aproveitar na vida, mas, nem dou ouvidos. Era o que eu queria e também dei sorte de pegar um marido que quer ser pai”, finalizou a adolescente.

A maioria das gestações não são planejadas, acontecem sem intenção, causadas por diferentes fatores individuais ou sociais. Porém, não é por isso que a gravidez não vai ser bem-vinda.

Para a adolescente de 18 anos, Vânia Pereira, não foi tão fácil aceitar a notícia que estava grávida. Ela conta que sempre se preveniu e que não estava nos seus planos engravidar. Grávida de oito meses, de um menino, ela conta que o que mais sentiu também foi o fato de ter que abandonar os estudos.

“Para mim, o fato de estar grávida foi um choque. Quando descobri, foi uma surpresa 

Fotos: Gabriela Duarte 
"Para mim foi um choque descobrir que estava grávida, mas hoje, devido ao pré-natal, aceito naturalmente", disse Vânia Pereira.
desagradável porque eu evitava bastante. Já minha família e meu marido tiveram uma ótima reação, só que eu achava que não era a hora; cheguei a entrar em depressão. Porém, estou tirando de letra. Hoje, consigo amar meu filho e já vejo a gravidez de outra maneira, graças ao acompanhamento psicológico e da equipe do programa, tudo conseqüência de um pré-natal bem feito”, conta Vânia Pereira.

A adolescente explica que teve que abandonar os estudos na 1ª série do ensino médio. “Assim que meu filho ficar um pouco independente de mim, volto a estudar. Não dá para ficar em casa sem fazer nada. Tenho que garantir o meu futuro”.

Vânia Pereira deixa um recado para as adolescentes: “as meninas devem saber evitar a gravidez, procurar orientação e métodos contraceptivos; está tudo ao nosso alcance. Quando a gravidez está dentro dos planos, ótimo; agora, quando não está, é uma barra. Procurem estudar, procurem sua independência para, só aí, pensar em construir uma família, porque filho é uma família”, concluiu.

A gravidez na adolescência envolve muito mais do que problemas físicos, pois há também problemas emocionais, sociais, entre outros. Segundo Fátima Barros, enfermeira do Programa de Assistência À Saúde do Adolescente (PASA), uma jovem de 14 anos, por exemplo, não está preparada para cuidar de um bebê, muito menos de uma família.

Com isso, entra-se em outra polêmica, o de mães solteiras. Por serem muito jovens os rapazes e as moças, eles não assumem um compromisso sério e, na maioria dos casos, quando surge a gravidez, um dos dois abandona a relação sem se importar com as conseqüências.

Por isso, o número de mães jovens e solteiras vem crescendo consideravelmente. No ano de 2007, o Programa de Assistência à Saúde do Adolescente registrou 131 adolescentes grávidas. Com idades entre 10 e 15 anos foram 37;  com idades entre 16 e 20 anos foram 94. Número considerado alto pelo Programa de Assistência a Saúde do Adolescente. 

Fátima Barros explica que é muito importante que haja diálogo entre os pais, professores e os próprios adolescentes, como forma de esclarecimento e informação. “Mas, o que acontece é que muitos pais acham constrangedor ter um diálogo aberto com seus filhos, e essa falta de diálogo gera jovens mal instruídos, que iniciam a vida sexual sem o mínimo de conhecimento, levando a uma gravidez inesperada ou a  alguma doença sexualmente transmissível”.

“O prazer momentâneo que os jovens sentem durante a relação sexual transforma-se em uma situação desconfortável quando descobrem a gravidez. Por isso a importância de a adolescente, assim que diagnosticada a gravidez, começar o pré-natal, receber o apoio da família, em especial dos pais, ter auxílio de um profissional da área de psicologia para trabalhar o emocional dessa adolescente. Dessa forma, ela terá uma gravidez tranqüila, terá perspectivas mais positivas em relação a ser mãe, pois muitas entram em depressão, por achar que a gravidez significa o fim de sua vida e de sua liberdade”, explica Fátima Barros.

A principal causa da gravidez é o desconhecimento de métodos anticoncepcionais. A educação dada à adolescente faz com que ela não queira assumir que tem uma vida sexual ativa e, por isso, não usa métodos ou usa outros de baixa eficiência (coito interrompido, tabelinha) porque esses não deixam "rastros".

O uso de drogas e bebidas alcoólicas também compromete a contracepção, além do fato de muitas adolescentes engravidarem para casar-se.

Razões e falsas crenças que levam a uma gravidez na adolescência:

- Ficar livre da pressão dos pais
- Desejo de prender o namorado
- Chamar a atenção sobre si mesma
- Curiosidade
- Contrariar ordens familiares
- Ser diferente ou imitar alguém
- Carência afetiva. Desejo que o bebê seja a fonte de carinho
- Desejo de ter mais poder

Programa de Assistência a Saúde do Adolescente (Pasa)

O Programa de Assistência a Saúde do Adolescente (Pasa), criado em 1996, funciona no Centro de Saúde Reprodutiva Leide Morais, o qual conta com uma equipe multidisciplinar, composta por enfermeira, nutricionista, psicólogo, assistente social, ginecologista, sexólogo, herbiatra, técnico e auxiliar de enfermagem.

As turmas são diárias, das 7h às 12h e das 13h às 17h. O atendimento é gratuito. As consultas também podem ser agendadas por telefone, através do número 3232-6156.

Dinâmicas e grupos de discussão são algumas das atividades desenvolvidas pela equipe, com o objetivo de abordar temas voltados para a sexualidade e como forma de informar, para que as adolescentes possam saber como evitar a gravidez indesejada ou a contaminação de doenças sexualmente transmissíveis, desenvolvendo assim um trabalho educativo e preventivo para meninos e meninas com faixa etária a partir dos 10 aos 19 anos.

Gravidez, DST/Aids, sexualidade, drogas, violência e conflitos familiares são alguns dos assuntos abordados nos grupos divididos por idades: 10 a 13 anos e 14 a 19 anos.

As gestantes também participam. As adolescentes fazem o pré-natal com acompanhamento ginecológico, preparação para o parto e ainda conhecem uma maternidade.
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