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José Marques de Melo:"A imprensa brasileira vive um momento de ceticismo"

Presidente da Intercom critica a postura da nova geração de jornalistas e fala sobre seus projetos futuros.

Por Alexis Peixoto
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Fotos: Itaércio Porpino
José Marques de Melo:"O jornalismo impresso pode vir a desaparecer se não se renovar".
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De fala calma, objetiva e segura, o professor doutor José Marques de Melo conserva a postura do jornalista sempre alerta, que já passou por quase 20 redações, ao longo da carreira profissional. Professor emérito aposentado da Universidade de São Paulo (USP), com  pós-doutorado na University of Wisconsin, nos Estados Unidos, atualmente leciona na Universidade Metodista de São Bernardo do Campo e exerce a função de presidente da Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares de Comunicação (Intercom).

Durante sua passagem por Natal ,para divulgar a programação do 31º Congresso Brasileiro de Comunicação Científica, promovido pela Intercom, Melo concedeu entrevista ao portal Nominuto.com, na qual fala sobre os atuais rumos da imprensa brasileira, a influência das mídias digitais na prática jornalística e não poupa críticas à postura da nova geração de jornalistas.


Nominuto.com - Como o Sr. avalia o momento atual, pelo qual passa a imprensa brasileira? O jornalismo nacional tem acompanhado as tendências atuais da imprensa mundial?

José Marques de Melo - Não existe nenhum jornalismo que não esteja entranhado na sociedade. Então, o jornalismo brasileiro reflete a sociedade brasileira que, hoje em dia, é uma sociedade perplexa. Ou seja, uma sociedade que quer mudar, mas as mudanças estão sendo feitas de forma muito lenta ou então estão sendo postergadas. E o jornalismo está numa fase de grande ceticismo: informa, mas carece de entusiasmo. E isso não é uma singularidade do jornalismo brasileiro. O mundo vive uma crise muito grande nesse sentido. Eu viajo pelo mundo todo e verifico que essa falta de entusiasmo existe também na imprensa mexicana, na espanhola. Talvez a norte-americana seja mais ativa, devido à grande reação à política agressiva do governo Bush.

NM - E a situação política brasileira, não serve de estímulo para a imprensa?

JMM - Não, porque o país vive um ceticismo muito grande. O Brasil está aí, sem saber para onde vai e, ao mesmo tempo, até prefere não saber mesmo. Esta é a situação das elites brasileiras hoje. Os bancos estão muito bem aqui ao lado, a população de baixa renda está melhorando sua capacidade aquisitiva e a classe média é que está sendo arrochada. Não sei quando, mas, em algum momento, essa panela vai destampar. Por outro lado, há essa nova forma de fazer jornalismo, com o advento e popularização das mídias digitais.

NM - Como essas novas mídias, como os portais de notícias e os blogs jornalísticos, afetam a maneira de se fazer jornalismo? Ainda há espaço para a mídia impressa, diante dessa nova tecnologia?

JMM - Olha, eu sou um leitor de jornal inveterado. Em momentos anteriores, quando me diziam que o jornal iria desaparecer, eu não acreditava, dizia que era impossível. Mas, eu confesso que estou começando a acreditar que o jornal pode vir a desaparecer. Não que ele vá desaparecer por completo, mas o jornal impresso não tem mais sentido de existir como ele existe hoje, sendo puramente informativo. A informação hoje vem do portal de notícias da internet, da televisão. A grande contribuição desses veículos é possibilitar o acompanhamento de um fato com novas informações, em períodos curtos, enquanto aquilo está ocorrendo. Só isso já torna o jornal meio obsoleto. Quando você pega o jornal no dia seguinte, a notícia já está velha. O que eu gostaria de ver nos jornais é mais interpretação, mais opinião. Ou o jornalismo impresso assume uma nova categoria de jornalismo interpretativo ou então pode vir a desaparecer.

NM - As novas gerações não têm se empenhado em renovar o jornalismo neste sentido? Ou os cursos de comunicação universitários não oferecem bagagem suficiente para o atual mercado de trabalho?


JMM -
Os cursos de comunicação sofreram um grande avanço, mas ainda existe um vácuo entre a academia e o mercado de trabalho. Hoje, qualquer aluno que se forma não tem condições de dominar o mercado de trabalho como deveria. Evidente que este aluno terá mais qualificações, sobretudo do ponto de vista técnico do processo de produção de informações. Mas, a essa nova geração falta uma coisa que a minha teve, que é a formação de cultura geral. Os jovens lêem pouco. Passam por um aprendizado superficial de História, Economia, Sociologia. Quer dizer, estudam muita comunicação e pouco o mundo.

NM - Ao receber o título de Doutor Honoris Causa na UFPB, o Senhor chamou a atenção para a postura dos cursos de Comunicação Social, que privilegiam a cultura acadêmica em detrimento da cultura popular. Continua pensando dessa maneira?

JMM - Exatamente. Eu continuo insistindo nisso. A cultura popular é aquela que marca a vivência do cidadão comum. Daquele que tem Bolsa-Família, que vive à margem da sociedade. São milhões e milhões de brasileiros que estão nessa situação. Se a gente conseguir baixar o nível lingüístico do jornalismo, isto é, escrever para o povo ler, talvez a gente consiga dar ao povo o que ele necessita a partir de sua vivência cotidiana. O que interessa você falar ao povo sobre a situação dos cartões corporativos em Brasília? Claro que isso é importante, mas o jornal não pode ficar só nisso. É preciso falar em outras coisas, que estão acontecendo à margem da sociedade.

NM - Como essa abordagem poderia ser incluída na grade curricular de um curso ou incorporada na formação de um estudante?

JMM - Acredito que ler Câmara Cascudo é fundamental para todo estudante de jornalismo nesse país. O problema é que existe muito preconceito com o popular. O popular só se torna interessante quando é instrumentalizado. Em curto prazo, não vejo nenhum plano das academias no sentido de incluir esse tipo de obra nas grades curriculares. Vivemos um período de grandes impasses, todo mundo vive fazendo de conta que está tudo bem. Faz parte desse período de fim de século. A própria juventude vive um niilismo contagiante, contenta-se com coisas fúteis. Não quero soar como um velho pessimista, desiludido com os novos tempos, mas a juventude precisa de uma sacudida. 

NM - Como está atualmente o projeto de intercâmbio e integração cultural, que o senhor desenvolveu em conjunto com o jornalista Alberto Dines, e que envolve sete países de expressão portuguesa (Moçambique, Angola, Guiné Bissau, São Thomé e Príncipe, Cabo Verde, Timor/Ásia e Macau, ex-colônia portuguesa na China)?

JMM - Esse projeto, infelizmente, pode ser considerado uma frustração nossa. Aqui no Brasil, fomos o dínamo desse trabalho, houve alguns avanços, mas como a direção é rotativa entre os países, o trabalho depende do empenho dos outros. Depois do Brasil, a direção foi para Portugal e agora está sob a responsabilidade da Galiza. Estava planejado um congresso para abril deste ano, em Ruanda, na Angola, mas os angolanos não dão notícia, ninguém sabe de nada. Há duas semanas, eu estive em uma reunião em Santiago De Compostela (na Espanha), com a professora Margarita Ledo, que é presidente da Federação Lusófona de Comunicação e estamos tentando transferir o congresso para Cabo Verde. Porém, não vejo condições de isto acontecer ainda este ano. A grande novidade é que estamos selando um compromisso de criar uma federação ibero-americana de ciências da comunicação, unindo os países de língua portuguesa e língua espanhola. Em setembro, durante a Intercom, aqui em Natal, vai haver uma cúpula dessas organizações para comentar esta nova federação.

NM - Que novos projetos de pesquisa o senhor vem desenvolvendo ultimamente?

JMM - No momento, venho me dedicando muito a essa questão da memória da comunicação. Tanto a memória da imprensa e dos meios de comunicação quanto do próprio estudo sobre a comunicação. Já tenho alguns livros publicados sobre isso e estou preparando outro. Meu livro mais recente resgata essa história da cultura popular na comunicação. Chama-se "Mídia e Cultura Popular: Estória, Taxinomia e Metodologia da Folkcomunicação". Gostaria que os estudantes de comunicação abrissem os olhos para este universo que vem sendo minimizado. Também estou pensando em escrever minhas memórias. O problema é que ainda tem muita gente viva, então a gente não pode contar tudo que a gente acha (risos). Mas antes, preciso arrumar tempo para escrever. Eu estou sempre em movimento e acredito que é isso que me mantém vivo.
 

 
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