Magra? Não. Gorda em recuperação

Dos 94 aos 67 kg, a jornalista Mirella Ciarlini tem muito o que contar.

Melina França,
Fotos: Elpídio Júnior
Mirella Ciarlini, exibindo seu recém conquistado manequim 36 e muito charme.
Foi num vestido preto e justo, exibindo seu recém conquistado manequim 36 e com muito charme que Mirella Ciarlini adentrou o saguão de entrada do hotel em que estava hospedada em Natal. Ela tinha percorrido os 285 km que separam Mossoró e a capital apenas para se pronunciar oficialmente: “Magra? Não. Gorda em recuperação” – título de seu livro lançado na última quinta-feira (6).

Até alcançar o status de “gorda em recuperação”, no entanto, Mirella conta que já esteve em muitas situações irrecuperáveis. Ao falar sobre por quanto tempo esteve mergulhada no mundo das dietas, ela é clara e objetiva: a vida toda. “Eu sou uma boa gorda experiente”, confessa.

Desde os 17 anos, era constante em consultórios médicos à procura do peso ideal, à espera de um milagre. De lá para cá, a lista de regimes é farta: dieta do limão, do vinagre, da lua, da sopa... Não existe indicação de como perder peso que não tenha experimentado. “Todo gordo já fez de tudo”, é a sua explicação.

Dentre tantas receitas milagrosas, algumas foram um verdadeiro suplício. Foi o caso da dos shakes e a da sopa. Depois de tantos experimentos, vem a avaliação: todas as dietas funcionam, mas não fazem bem, exatamente porque são restritivas ao extremo. Ao perceber que emagreceu, o gordo volta a comer compulsivamente.

Foto: Elpídio Júnior


“Se você me convencer que estou magra, vou achar que já posso me entupir de calorias e tudo bem. Daí o nome do livro, o título que me impus: Magra? Não. Gorda em recuperação”, revela. Ela explica que uma das maiores dificuldades é, agora, adaptar seu cardápio. Depois de ter passado por uma reeducação alimentar na qual consumia diariamente menos do que gastava, agora é a hora de manter o peso.

“Antes eu só podia comer 300 pontos por dia. Agora, minha nutricionista disse que preciso de 530. Pense numa tortura: quando dizem ao gordo que ele pode comer mais”. Com estas palavras, Mirella lembra dos tempos de gorda irrecuperável, quando “mais” era sempre “muito mais”.

Em uma viagem de cruzeiro, daqueles pacotes com todas as refeições inclusas, ela chegou a ganhar 4 kg em apenas quatro dias. “É terrível. Um gordo que viaja ganha 2 ou 3 kg por final de semana”, completa. As tentações também se insinuam em restaurantes self-service e rodízios, principalmente os de massa. Para o gordo, fica difícil resistir.

Dessa dificuldade, em um dado momento, veio a desistência de Mirella: “Decidi que ia ser feliz gorda. Já tinha perdido todas as forças. Não havia mais dietas a tentar. Perder, ganhar peso – um processo sempre desgaste e, ao final, inútil”. Para que os outros a deixassem ser gorda em paz, resolveu que ficaria obesa.

Saltou então para os 94 kg. “Foi aí que desistiram de mim. Ninguém mais dizia: você engordou, você precisa emagrecer. Encontrei paz”, relata. No mesmo período, veio a ideia da solução radical: fazer uma redução de estômago, o procedimento “da moda” para ficar em forma.

Um problema no diagnóstico médico: Mirella não estava gorda o suficiente para a cirurgia. Qual a alternativa? Deveria ela engordar mais para se submeter ao bisturi? “Digo que este foi meu último pensamento de gorda sem recuperação”, constata.

Foi diante desta dúvida digna de Shakespeare que se descobriu grávida. E obesa. “Não podia colocar a vida do meu filho em risco. Então coloquei na cabeça que não iria ganhar nenhum quilo a mais durante a gravidez, apenas o peso do bebê”, conta.

Promessa feita, promessa cumprida. Ao dar à luz ao que seria seu quarto filho, Mirella estava com os mesmos 94 kg. Foi o incentivo para emagrecer. Procurou então uma nutricionista e, durante os dez meses seguintes conseguiu mandar embora quase 30 kg. Sem nem mesmo praticar exercício, exibia orgulhosa os 67 kg conquistados.

Foto: Elpídio Júnior

“Não fiz atividades físicas, o que é péssimo. Isso é uma questão de rotina e para o gordo, que adora comer e já não é fã de esporte, fazer os dois (dieta e exercício) é um martírio. Gordo não tem paciência. Agora, em recuperação, já estou malhando”, é o que diz.

Com experiências em regimes desde os 17, Mirella só precisava racionalizar sua situação: sabia como perder peso, apenas não enxergava os erros que tinha cometido durante o processo. Perder peso é matemática, explica. Ganhar também. Se você consome mais calorias do que gasta, engorda. Se consome menos, emagrece. Se o consumo é equivalente ao gasto, mantém o peso.

A maior mudança, segundo Mirella, não foi no cardápio, mas na cabeça. “Melhorei muito mais por dentro. Jamais seria feliz gorda. Não tinha como ser”, admite. E vai sendo feliz, diz ela, em seu vestido preto e justo, no recém conquistado manequim 36 – mas lembrando sempre: Magra? Não. Gorda em Recuperação.
A+ A-