Ribeira: à beira do esquecimento

Apesar da beleza do centro histórico da cidade, bairro é sinônimo de abandono por parte do poder público.

Daniele Lisboa,
Vlademir Alexandre
Se as esquinas, ladeiras e becos do bairro que foi um dos berços de Natal pudessem ser definidas em uma palavra, seria esquecimento. Foi o que restou à Ribeira, onde no apogeu de outrora morou o mais importante ícone da cultura norte-riograndense, Câmara Cascudo. Sua casa é um dos poucos espaços históricos conservados, e graças ao interesse dos familiares do folclorista. O retrato da Ribeira seria de total abandono por parte do poder público, não fosse a resistência de pessoas ligadas à cultura que insistem corajosamente em permanecer.

Cada casarão e rua são relíquias de beleza peculiar, mas lhes falta a vitalidade que só pode vir com interesse dos gestores públicos. Mas não é o que se tem visto. Por não ter havido um investimento real na reestruturação desse centro histórico, o quadro é de degradação, caracterizado pela violência, marginalização e decadência das construções.
A força cultural da Ribeira é inegável: o Teatro Alberto Maranhão, a praça Augusto Severo, a rua Chile e o Buraco da Catita - ponto de encontro dos adoradores do chorinho - são alguns exemplos de lugares que sobrevivem com atividades culturais e freqüentados por quem curte a sua aura cult. Dentre eles, no coração do bairro está a Casa da Ribeira, na rua Frei Miguelinho.

Trabalhando na área há mais de 12 anos, o produtor cultural da Casa, Henrique Fontes, lamenta que a Ribeira sofra preconceito devido à marginalidade a qual ficou relegada. Os maiores problemas, na opinião dele, são a falta de iluminação e o excesso de prédios abandonados, que se tornam sedutores pontos de encontro para traficantes de drogas e criminosos.

Henrique Fontes defende que a cultura dos gestores de só investir no que é novo é o mais prejudica a Ribeira. “A vontade dos gestores públicos é de passar um rolo compressor e acabar com tudo. Pouco importa se a cidade foi construída naquele lugar. Se você não tratar a história e a memória de um lugar da mesma forma que trata o futuro, nunca estaremos vivendo bem o nosso presente. É importante a cidade evoluir, mas sem esquecer do passado”, avalia.

Planos e leis já existem, o que falta é interesse

Instrumentos para revigorar a Ribeira não faltam. É o que aponta o coordenador do curso de arquitetura e urbanismo da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Marcelo Bezerra.

No aspecto das leis, a Ribeira já é protegida como Zona Especial de Proteção Histórica desde o Plano Diretor de Natal de 1984. A partir dos anos 90, surgiram movimentos como o Viva Ribeira e o Fachadas da Rua Chile, mas não tiveram seqüência. Paralelamente, foi lançada a lei de operação urbana, que dá descontos no IPTU e ISS como incentivo para a iniciativa privada construir no local.



Em seguida, só 17 anos depois - em 2007 - houve novo tratamento urbanístico na Ribeira, e apenas na Avenida Duque de Caxias. “Um dos eixos mais importantes, onde estão concentradas as construções mais interessantes da Ribeira, que é o perímetro das ruas Doutor Barata, Tavares de Lira e Frei Miguelinho nunca foram contempladas”, diz Bezerra.

Já em 2008, a pedido da então Prefeitura, a UFRN fez um estudo completo e elaborou um plano de revitalização para o bairro, em que todos os prédios históricos que devem ser preservados foram catalogados. Denominado Plano de Reabilitação de Áreas Centrais, ele contempla projetos concretos para criação de um circuito cultural, turístico gastronômico, sem que haja degradação, a exemplo de lugares como o Pelourinho, na Bahia, o Recife antigo, em Pernambuco, e o Centro Histórico de São Luís, no Maranhão. Invariavelmente, o plano nunca foi posto em prática.

Não é por falta de estudos e leis que a Ribeira está degradada. O maior problema é a descontinuidade das ações, segundo Marcelo Bezerra. “É um entrave essencialmente político: o que começa numa gestão não é continuado na seguinte”, critica.
Para que os prédios da Ribeira sejam revigorados, explica Bezerra, é preciso haver uma gestão compartilhada, envolvendo estado e município num objetivo comum: preservar o núcleo histórico, em ações que abarquem moradores e comerciantes, investindo em infra-estrutura para que sejam atraídos novos estabelecimentos e residências.
“Não adianta revitalizar apenas um local e achar que é suficiente. É preciso ter uma visão da Ribeira como um todo, sem esquecer quem trabalha e mora lá, pois são essas pessoas que dão vida ao bairro”, elucida.

Iniciativas da Prefeitura são insuficientes

A única iniciativa da atual gestão municipal foi a reforma do Buraco da Catita. Iniciada em março, ela promete revitalizar apenas um trecho de 58 metros, com uma decoração diferenciada: postes ornamentais e uma calçada de cores telha, com mosaicos representando o símbolo do local. A obra sairá por R$ 39 mil reais, e a previsão é que seja entregue no início de maio.
Foto: Canindé Soares


O espaço só foi lembrado por ter uma forte movimentação cultural. A chefe de departamento de operações da Secretaria de Serviços Urbanos (Semsur), pasta responsável pela obra, Jailene Carvalho, admite que o serviço é necessário. “Toda sexta e sábado, aproximadamente 1.500 pessoas freqüentam o local. Ele será revitalizado para que tenha uma cara mais cultural”, detalha Jailene.

Se por um lado os estudiosos da UFRN afirmam que é preciso mais atenção do poder público, por outro, a chefe do setor de patrimônio histórico da Secretaria de Meio Ambiente e Urbanismo (Semurb), Andréa Garcia, afirma que os prédios históricos são responsabilidade exclusiva dos seus donos. “Se um desses prédios cair, é descaso do proprietário, e não da Prefeitura”, argumenta.

As perspectivas de revitalização da Ribeira por parte da Prefeitura até existem, mas a longo prazo. E o dinheiro também não será do Executivo. Em quatro anos, espera-se que Natal receba recursos oriundos do Programa de Aceleração de Crescimento das Cidades Históricas (PAC Cidades Históricas), do Ministério das Cidades. Nele, será executado o Programa Rehabitar, que reformará becos, travessas e calçadas, do bairro, além do piso de toda a rua Chile e Esplanada Silva Jardim.

Antes disso, outras ações não serão concretizadas, conforme Andréa, por falta de interesse da iniciativa privada. “Os projetos a gente tem, as ações também, mas precisamos de parceiros da iniciativa privada”, justifica.
A+ A-