Cortejo homenageou 359 anos de morte de Felipe Camarão

Alunos do 4º e 5º ano da Escola Estadual Clara Camarão visitaram rua e palácio que levam nome do herói indígena.

Vinícius Menna,
Vlademir Alexandre
Alunos com instrumentos musicais indígenas.
Por enquanto, é só um ensaio. Os 359 anos de morte do herói indígena Felipe Camarão foi objeto de homenagem dos alunos da Escola Estadual Clara Camarão, que leva o nome da mulher do personagem da História norte-rio-grandense.

Segundo explica o pesquisador Aucides Sales, do Centro Juvenal Lamartine, da Fundação José Augusto, este ano a celebração é apenas um ensaio para o próximo ano, em que se completa 360 anos de morte do herói.

Munidos de instrumentos musicais indígenas, os alunos da Escola Clara Camarão, escoltados por batedores da STTU, foram trilhando a Rua Felipe Camarão, no centro da cidade, na sexta-feira passada (24), percorrendo trajeto até a Potylivros, local em que foi armada uma pequena mesa com comidas de origem indígena.

"O Movimento Indígena Potigua pediu à Fundação José Augusto para tomar conta do projeto. É um ensaio para o próximo ano, quando vamos fazer um negócio maior", conta Aucides. 

Faixa homeageia Felipe CamarãoAlém de experimentarem as delícias em frente à Potylivros, loja que faz no nome uma alusão ao lider  indígena, originalmente chamado Poti ou Potiguaçu, as crianças puderam visitar o palácio Felipe Camarão, sede da Prefeitura Municipal do Natal.

Na Prefeitura, uma exposição fotográfica esperava por eles, com imagens feitas por Lenilton Lima em comunidades de remanescentes indígenas do Rio Grande do Norte. "A exposição é fruto do trabalho em visitas às comunidades no interior. Temos trabalhos junto à Secretaria de Educação de Canguaretama, na comunidade Catu, com a Escola Estadual José Lino da Silva", diz o pesquisador da FJA.

Enquanto a mesa de quitutes é preparada em meio aos olhos curiosos das crianças, o pesquisador revela que há um grupo de estudos indígenas pesquisando a história do Rio Grande do Norte a partir dos primeiros habitantes.

O Movimento Indígena Potigua, por meio do Centro de Estudos Indígenas de Igapó, pesquisa a língua guarani e tupi e tudo que cerca essa cultura, como as artes, dança e o canto. "O Movimento é financiado pelo Centro Cultural Augusto Maranhão e quem executa é o Centro de Estudos Indígenas de Igapó", comenta Aucides.

Além do cortejo, no bairro Felipe Camarão, festejos em nome do herói da Batalha dos Guararapes ocorriam no momento da celebração, no Centro da cidade. Os moradores lembravam nesta data o homem que deu nome ao bairro.

Em meio às baforadas de charuto, o pesquisador regia os preparativos para a mesa de receitas indígenas. E ainda tinha tempo para contar que, todos os sábados, no Sebo Cata Livros, no Centro, há uma reunião do grupo de estudos das línguas guarani e tupi às 11h e às 13h, organizado pelo Movimento Potigua. 

Aluá é servido em frente à mesa colorida.A mesa colorida ficou pronta. Era hora de deliciar-se com as comidas que os originais habitantes destas paragens inventaram e que até hoje permanecem no cardápio da cultura nodestina. E então, os alunos começaram a degustação.

Foram servidas tapiocas, paçoca, pipoca, milho, camarão, cauim – bebida fermentada de caju – e bolo preto. Além disso, uma iguaria em especial foi posta à mesa. Era o aluá, bebida refrescante feita de farinha de arroz (ou farinha de milho) ou de cascas de frutas (especialmente abacaxi, raiz de gengibre esmagada ou ralada), açúcar ou caldo de cana e sumo de limão. Também chamada de aruá.

Os alunos da Escola Estadual Clara Camarão se esbaldaram com os quitutes. Aucides finalmente decansou o charuto e deu vez ao aluá. Serviu-se com uma concha feita artesanalmente em um copo plástico e sorveu a bebida.

Greve atrapalha a homenagem

Apesar dos esforços dos organizadores, os alunos celebraram o aniversário de morte do herói indígena pela metade. Segundo Sales, a intenção do projeto era levar as crianças para conhecer as comunidades indígenas, no interior, mas o passeio não foi possível.

Por causa da greve dos professores do Estado, a paralisação das aulas encurtou o tempo para organizar as visitas e somente no próximo ano, algo mais elaborado poderá ser feito para que a cultura indígena seja melhor passada às novas gerações potiguares.

Memória
Antônio Filipe Camarão foi um indígena brasileiro da tribo potiguar, nascido no início do século 17 em Igapó, Natal, na então Capitania do Rio Grande. O nome de nascença dele era Poti ou Potiguaçu, que significa camarão. Ao ser batizado e convertido ao catolicismo em 1614, recebeu o nome de Antônio e adotou Filipe Camarão em homenagem ao soberano D. Filipe II (1598-1621).

Nas invasões holandesas ao Brasil, auxiliou a resistência organizada por Matias de Albuquerque desde 1630, como voluntário para a reconquista de Olinda e do Recife. À frente dos guerreiros da tribo dele, organizou ações de guerrilha que se revelaram essenciais para conter o avanço dos invasores.

Faleceu no Arraial (novo) do Bom Jesus (Pernambuco), em 24 de agosto de 1648, em conseqüência de ferimentos sofridos no mês anterior, durante a Batalha dos Guararapes. Após a sua morte, foi sucedido no comando dos soldados insurgentes indígenas por seu sobrinho D. Diogo Pinheiro Camarão.

Além da rua por onde passaram os alunos do quarto e quinto ano, o Palácio Felipe Camarão, sede da Prefeitura de Natal, e o bairro de mesmo nome, são homenagens à sua bravura. Há ainda outro tributo, prestado pelo Exército Brasileiro, que nomeou a Sétima Brigada de Infantaria Motorizada como Brigada Felipe Camarão.

Grafia
O nome do líder indígena é comumente grafado Antônio Felipe Camarão, mas o correto é "Filipe", escrito segundo a antiga norma ortográfica da língua portuguesa.
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