Dorian Gray Caldas, doutor em arte

Conheça a trajetória do artista plástico que recebeu o título de Doutor Honoris Causa da UFRN.

Isabela Santos,
Fotos: Vlademir Alexandre
"Estávamos em uma vaga entre os anos 30 e 50. Não existiam artistas essencialmente modernistas"
Na entrada da casa onde vive com a mulher Vanda, as muitas plantas dividem o espaço com os desenhos em baixo relevo das paredes. No interior, as diversas manifestações artísticas com que trabalha o morador competem entre si. Pequenos pingos de tinta branca estampam os sapatos negros. E a roupa social, apesar de limpa, apresenta algumas manchas claras que denunciam a profissão de artista. 

Entre estantes lotadas de livros, a sala exibe um grande retrato de Dorian Gray. Mas, ao contrário de seu xará criado por Oscar Wilde, o potiguar é mais que uma tela; é pintor, escultor, gravurista, tapeceiro, poeta, escritor e, entre amigos, até cantor. 

Foi diretor de museu, teve cargos eletivos, burocráticos e abandonou a carreira de funcionário público para exercer sua vocação. Com toda a simplicidade de quem faz o que gosta, ganhou prêmios na França e Bélgica e recentemente o reconhecimento da Universidade Federal do Rio Grande do Norte com o título Honoris Causa. 

Dorian Gray Caldas começou a pintar profissionalmente na década de 1950. Alguns conhecimentos técnicos vieram do tio Moura Rabelo e da mãe, também artista, Ninfa. Mas ambos trabalhavam na linha classicista e o jovem Dorian queria utilizar as formas mais liberais do modernismo, aquelas apresentadas na Semana de 22, no Rio de Janeiro. 



"Estávamos em uma vaga entre os anos 30 e 50. Não existiam artistas essencialmente modernistas no Rio Grande do Norte. Alguns ainda ficavam entre o classicismo e o impressionismo. 

Havia certo descompasso das artes plásticas naquela época", crê. A primeira exposição de Arte Moderna foi no Salão da Cruz Vermelha, em parceria com os colegas Newton Navarro e Ivon Rodrigues, durante os anos 60. 

"O Newton, com trabalhos figurativos na linha da pintura européia, com tendência ao estilo picassiano, e eu, com trabalhos abstratos fazendo uma pintura já influenciada por Kandinsky, Paul Klee e Mondrian. 

Um trabalho cheio de espirais; bem avançado para a época", lembra. O artista de cabelos caiados parece ter na mente um dicionário das artes. Fala com proximidade não só de seus contemporâneos brasileiros, como também dos mais diversos movimentos realizados em todo o mundo. 

Dorian Gray asume que se interessou pela abastração por 'oportunismo'
Hoje, aos 72 anos, confessa ter se interessado pela abstração por "oportunismo". "Fiz a abstração porque era conveniente para mim. A arte que se fazia na época era figurativa, eu tive que romper essa corrente que me prendia à forma clássica fazendo uma coisa totalmente diferente. 

Quando passou a primeira fase, em que eu fiquei de certa maneira respaldado pela crítica, voltei a fazer a arte brasileira que é maravilhosa", conta. Para resumir: "Abandonei a abstração". O motivo: "Muito vazia". 






*Matéria publicada no jornal Nasemana - edição 40 - de 24 a 30 de dezembro
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