"Frases tipicamente natalenses" entram no TTBr do Twitter

Lá, é possível ler pérolas como “freské?” (é fresco, é?), “te rear”, “esse omi é omi mermo?” e “Natal é um ovo”.

Melina França,
- E aí, galado, qual vai ser o rolé de hoje?
- Rapaz, marquei de sair com uma boyzinha.


É difícil pensar que o diálogo acima tenha acontecido em outro lugar que não em Natal, capital do Rio Grande do Norte. Além das gírias, o povo natalense tem um jeito todo próprio de falar. Tanto é que os potiguares levaram aos Trending Topics Brazil (TTBr) do Twitter a hastag #FrasesTipicamenteNatalenses, de autoria do jornalista e escrito Patrício Júnior (@patriciojr), que oscilou entre as primeiras posições do ranking ao longo da manhã.

Lá, é possível ler pérolas como “freské?” (é fresco, é?), “te rear”, “esse omi é omi mermo?” e “Natal é um ovo”, sem falar no originalmente potiguar e já consagrado vocábulo “galado”. Alguns dos usuários da rede social aproveitaram o espaço para alertar para problemas da cidade, e mesmo os moradores de outras regiões entraram na brincadeira. Com uma ressalva: alguns confundiram o termo “natalense” com “natalino” e postaram frases comuns durante as comemorações do Natal.

Sabendo disso, o portal Nominuto.com procurou saber com um professor de português quais as particularidades lingüísticas desta terra entrecortada pelas dunas e pelo mar. Do som cantado na Bahia às vogais abertas e o leve chiado de Pernambuco, o Nordeste esconde uma riqueza lingüística que pode parecer até insuspeitada para quem vive em outros lugares do Brasil.

Em Natal, o “falar” se desenvolveu sem influência tão preponderante do interior. Por este motivo, a fala na capital não é tão marcada ou carregada quanto aquela de outras cidades ou mesmo outros estados onde esta influência é mais forte. De acordo com o professor José da Luz, do departamento de Letras da UFRN, a língua falada em Natal é mais cosmopolita.

Tanto isso pode se dar pela força do turismo quanto pela própria condição histórica. Com a permanência constante dos americanos durante as operações da 2ª Guerra Mundial, algumas palavras tornaram-se marca registrada do natalense. Afinal, quem nunca ouviu alguém falar “boy” pelas ruas da cidade? O termo é utilizado mesmo para se referir a mulheres, a exemplo da expressão “aquela boyzinha”.

“A língua aqui é uma mescla de muitas coisas. Acredito que o grande trânsito de pessoas pela cidade foi determinante para este comportamento lingüístico”, indica o professor. Outra palavra bastante usada, desta vez no Nordeste como um todo (e como não deveria deixar de ser, em Natal), “aperreado” vem do espanhol. Ela traduz a sensação de quem era “jogado aos perros (cães)” – uma espécie de nervosismo.

Outra marca comum em Natal são as “palavras coringa”. O exemplo mais conhecido é o termo “galado”, que gera confusão em quem não nasceu por essas bandas. “Galado”, mais do que o significado literal, pode ser usado para se referir a algo bom ou ruim. Em um artigo, o publicitário Carlos Fialho discorreu sobre a genuinidade do vocábulo.

“Falar galado nos faz sentir mais natalenses. É como se redescobríssemos nossas raízes cada vez que dizemos tão nobre palavra do nosso vocabulário regional. Aliás, galado é só nossa. Um natalense que nunca falou galado não é digno de confiança”, ele escreveu. Fialho explica ainda que um “cara galado” pode significar tanto um “imbecil” quanto alguém “gente boa”.

Segundo José da Luz, esta é uma palavra que denota economia lingüística e se apresenta como uma expressão típica dos mais jovens. “É interessante perceber isso, porque o mundo globalizado tende a derrubar essas especificidades lingüísticas”, conclui.

Origem da tag
A tag #FrasesTipicamenteNatalenses foi criação do jornalista e escritor Patrício Júnior (@patriciojr), que começou a utilizar a marcação para criticar a postura da administração municipal, bem como de comportamentos caricatos vistos comumente na capital.

Em um  de seus tweets ele diz: #FrasesTipicamenteNatalenses: "O filme que esperei o ano inteiro não entrou em cartaz aqui em Natal", sobre a parca rede de cinemas da cidade. Mais tarde, a tag foi apropriada por outras pessoas, que passaram a falar do vocabulário típico de Natal.

Patrício Júnior chegou a publicar ainda no twitter que criou a hastag para falar mal da cidade, mas que os demais se sentissem à vontade para falar bem também. A repercussão das frases levaram o bacharel em Direito Luiz Felipe Neto (@chapeleiro) a escrever "#FrasesTipicamenteNatalenses Começou como crítica, virou piada e agora é maior exposição de Natal desde Virna do vôlei. Parabéns @patriciojr".

*Atualizada às 14h55 para acréscimo de informações 
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