Novos escritores mudam a produção literária do estado

Escritores do Rio Grande do Norte estão retirando a ideia de que a literatura potiguar é baseada no regionalismo e publicando diversos livros de ficção.

Lara Paiva,
Lara Paiva/Nominuto.com
Potiguares Gustavo Diógenes, Marco Monjardim e Leonardo de Sousa Barros.
A quantidade de escritores potiguares está crescendo, consequência da divulgação de vários deles nas redes sociais, que leva a imprensa a olhar com cautela esses novos talentos da terra do Luís da Câmara Cascudo, o maior e mais conhecido escritor potiguar. A maioria desses autores tem menos de 40 anos.

Eles retiraram a ideia de que a literatura potiguar é baseada somente em contos e poemas regionalistas. Criaram histórias diferentes em que fala desde um rapaz abandonado pela mulher até sobre um mundo imaginário.

Se você pensa que só jornalistas, escritores de novela, atores ou professores de Língua Portuguesa fazem livros de ficção, os autores potiguares Gustavo Diógenes, Leonardo de Sousa Barros e Marcos Monjardim provam que pessoas não ligadas às áreas humanísticas podem escrever esse tipo de livros com qualidade.

Desses três autores, o Leonardo de Sousa Barros é o mais “experiente” no ramo da literatura. O extrovertido médico, que trabalha em postos de saúdes do estado e município, começou nessa atividade em 2008 e em seguida escreveu o seu primeiro livro, o romance erótico ‘Amor de Yoni’, baseado em três histórias picantes vinda de seus amigos e conseguiu vender 1000 exemplares.

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"O Maníaco do Circo", romance policial.
Com o sucesso das vendagens e reconhecimento nas ruas, Leonardo escreveu, no ano seguinte, um romance policial chamado ‘O Maníaco do Circo’. Este conta à história de um garoto, com tendências psicopatas, que tem fobia por palhaços. Depois, ele migrou para a comédia através do ‘Saúde, Beleza, Prosperidade e Riqueza’ e o seu último lançamento, ‘Solteiro Em Trinta Dias - Receitas de sucesso de um ex-otário’.

Devido a escrever 4 livros com temáticas diferentes, perguntei se tinha algum gênero que ele queria escrever, mas que o achava complicado de se fazer. Leonardo respondeu que era drama, pois não gostava muito desse tipo de leitura.

“Independente de como escreve, o que interessa é você estudar, saber como vai fazer a sua história e principalmente o seu final”, disse Leonardo de Sousa Barros, justificando através de citações do roteirista britânico Syd Field.

Além disso, o autor disse que um texto bem feito é aquele que é entendido por várias pessoas, não usa palavras tão rebuscadas e mantém o equilíbrio entre a originalidade e o clichê. “Se você quer escrever um livro para você, então crie uma única edição e não publique”, comenta.

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Livro "O Peregrino", de Marcos Monjardim.
“É inevitável quando começa a escrever, você ler os outros livros para saber o jeito de cada autor, pois é assim que você estuda o texto e faz com que escreva melhor”, disse o escritor de ‘O Peregrino’, Marcos Monjardim.

Ele é formado em Psicologia na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e começou a escrever textos quando foi treinar redação para o concurso de auditor fiscal. Conseguiu o trabalho, mas a vontade de escrever não passou. Então, fez o livro ‘O Peregrino’, que terminou em 2010 e foi lançado no ano seguinte através da editora Multifoco.

A inspiração de Monjardim veio através de livros épicos como Guerra dos Tronos e também de um amigo falecido, cujo seu nome é o mesmo de um dos personagens principais.

Muitos críticos reclamam que os brasileiros só querem copiar as histórias clássicas europeias e que não existem contos épicos tipicamente tupiniquins. Porém, Marcos disse que você pode colocar elementos brasileiros nesse tipo de história e citou como exemplo o autor paulistano André Vianco, em que suas obras possuem temática sobre vampiros, apesar de colocar personagens genuinamente do folclore brasileiro.

Lara Paiva
Gustavo Diógenes começou a escrever o livro ‘Acáci Mundo 17' com 15 anos.
O caçula do grupo é o Gustavo Diógenes, que tem quase 18 anos e vai prestar vestibular para medicina. Começou a ter gosto pela literatura quando ainda era pequeno, por intermédio de seus pais. Entretanto, os livros infantis foram deixados de lado e começou a se interessar por livro dos físicos Stephen Hawking e Carl Sagan.

“Quero muito influenciar as pessoas da minha idade, porque muitos estão escrevendo texto, mas não sabem como os divulgar”, comenta.

Quando Diógenes tinha 15 anos começou a escrever o livro ‘Acáci Mundo 17’ e só foi terminado e lançado no final do ano passado. As pessoas, ao lerem, não esperam um garoto ter um amplo de conhecimento de mundo e que escreva teorias físicas que são debatidas somente nas universidades.

“Quando tinha 14 para 15 anos tentava escrever alguma coisa. Quando me senti capaz de escrever um livro, eu guardei todos os meus rascunhos e comecei a fazer a história. Foi assim que surgiu o Acáci”, disse Gustavo Diógenes.

Para divulgar o seu livro, Gustavo mostrava alguns trechos para os seus amigos darem opinião sobre o texto. Depois, criou um site em que falava sobre assuntos relacionados ao livro, além de divulgar pedaços de um determinado capítulo para atrair os leitores.

O Marcos Monjardim criou um blog no qual falava sobre a produção do livro, divulgava seus trechos e publicava resenhas sobre a obra. Além disso, ele vende o livro no próprio blog.

Outra forma de divulgação é a utilização de editoras. Aqui na cidade é difícil a procura de editoras que tenham a coragem de divulgar um livro de ficção, pois temem em não dar lucro ou fracassar.

Por isso, os escritores Carlos Fialho, Patrício Júnior e Daniel Minchoni criaram a Editora Jovens Escribas com intuito de divulgar os seus próprios livros. Entretanto, a Editora cresceu e hoje divulga obras de diversos autores e até os que possuem mais experiência, como Clotilde Tavares. Além disso, também publica histórias de autores de outros estados e os vende no próprio site da editora, com preços acessíveis.

Os Jovens Escribas também promovem eventos com intuito de divulgar os escritores do estado e estimular o hábito de ler nas pessoas de todas as idades. No ano passado, surgiu o ‘Ação Potiguar de Incentivo a Leitura’, que reuniu diversos eventos em muitos cantos na cidade para apresentar diversos autores através de bate-papos.

Existem outros sites para os autores venderem seus livros online, tipo o Ebay, em que autor pode estabelecer o melhor preço para a venda. Porém, excesso de divulgação pode fazer com que seu livro não seja atrativo.

“A divulgação dos livros na internet me ajudou a ser conhecido pelo público e isso pode ajudar a grandes editoras a prestar atenção em você e divulgar seu livro em outros lugares, desde que você tenha um diferencial”, disse Monjardim.

Esse diferencial pode ser através das redes sociais em que você pode criar uma página falando como é o livro, além de criar promoções e promover eventos que participa. Leonardo de Sousa Barros faz isso e a página do seu livro ‘O Maníaco do Circo’, no Facebook, já possui mais de 200 participantes.

Por isso, certas livrarias estão prestando mais atenção nesses livros vindos do Rio Grande do Norte. Essas estão os divulgando através de festa de lançamentos, colocando para vender e também criação de eventos que estimula a interação entre autores da terra com os leitores.

Café Literário
O Café Literário começou nesse ano e veio de uma ideia do Aluísio Azevedo, proprietário da Livraria Nobel, em que a intenção é chamar diversos escritores locais, no final de cada mês, para poder conversar com os frequentadores da livraria.

“A minha intenção é fazer com que os autores potiguares tenham uma interação com os leitores, além de uma forma de divulga-los”, disse Aluísio no início do evento.

Nessa última terça (31) aconteceu o primeiro evento e foram chamados os escritores Gustavo Diógenes, Leonardo Barros e Marcos Monjardim, que além de conversarem com os leitores, também deram dicas de como escrever melhor os textos, falaram quais eram os seus gêneros literários favoritos e, além disso, responderam se eles leem os livros de outros autores como leitores ou críticos.

Os autores se mostraram bem abertos e flexíveis com as pessoas que participaram do Café Literário. Foi um encontro que não necessitou de formalidade e as pessoas poderiam perguntar qualquer coisa aos escritores e em qualquer momento.

O evento recebe este nome porque acontece no Anitta Café, uma cafeteria que fica dentro da Nobel. É um espaço bastante aconchegante e acolhedor, que ficou lotado devido ao bate-papo. A ideia de misturar o café com a literatura já é feita em várias cidades do Brasil.

No final do Café Literário, as pessoas vão ganhar livros autografados pelos autores. O próximo evento acontecerá no dia 28 de fevereiro.
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